Nova York O ano 2000 vem aí. Talvez o mundo acabe, como foi previsto para o ano 1000. Em que ano real estaremos nós: digo, na posição habitual, deitados eternamente em berço esplêndido?
Samuel P. Huntington, guerreiro frio desocupado, escreveu um livro animador ... ‘‘O Choque de Civilizações, Refazendo a Ordem Mundial’’, 367 págs., Simon e Schuster, Nova York. Prevê que a insistência dos EUA em exportar seu modelo de democracia, economia de mercado, etc., é profundamente repulsiva para a maioria da humanidade. Pode provocar conflitos intercontinentais tão devastadores a que só sobrevivam países marginais, transeuntes, na palavra de Huntington, como o Brasil... Quem sabe será a nossa hora e vez?




PROBLEMA ÚNICO
Camus disse que o único problema filosófico do nosso século é o suicídio. Não no Brasil. Nosso problema é a distância entre a vaca e o brejo. Sabemos que a vaca vai para o brejo, mas o problema é quando, quanto tempo poderemos contê-la, e se a bicha não dispara em nosso tempo de vida.
RACISMO
Há uma ação civil contra O. J. Simpson, das famílias de Nicole Brown e Ron Goldman, assassinados. Um júri absolveu Simpson do crime. A ação civil é para tomar-lhe dinheiro. Não se pode ser julgado duas vezes pelo mesmo crime, segundo a Constituição dos EUA. Apesar disso, a televisão dos EUA faz de conta que Simpson está sendo novamente julgado por assassinato. Raspado todo o trololó, os brancos aqui não aceitam que a) um crioulo tenha tido como mulher uma loura, ainda que oxigenada, e b) que a tenha matado. É um racismo tão visceral que é inconsciente. Mantém-se na TV a pretensão de objetividade. Engana ‘‘Forest Gump’’.
CHANTAGEM
Um executivo da Texaco, demitido, gravou uma conversa particular de diretores da companhia em que faziam comentários desairosos a empregados negros. A mídia divulgou que chamavam os negros de ‘‘niggers’’, aqui um insulto. Examinada a gravação, a palavra não foi usada, mas quem viu as primeiras manchetes não ficou sabendo da torpeza da mídia. Havia só observações sobre a incapacidade dos negros de progredir na companhia.
Editoriais mil na mídia, a começar pelo ‘‘New York Times’’, cuja influência e circulação caem em queda livre, mas ainda é o mais citado em televisão. Jesse Jackson, líder negro, exortou os negros a boicotar a Texaco. O Ministério da Justiça de Clinton começou o processo por violação dos direitos humanos dos negros. A Texaco se rendeu. Demitiu diretores identificados na gravação e terminou concordando em pagar US$ 29 milhões de indenização.
A Constituição dos EUA garante livre expressão e proíbe invasões de qualquer tipo da privacidade. O que o executivo que gravou a conversa fez é claramente ilegal. Mas a) ninguém escreveu isso, e b) a Texaco preferiu pagar para não ser bombardeada dia e noite pela mídia e ter de enfrentar um processo do Ministério da Justiça, com suas centenas de advogados e investigadores. O nome disso é chantagem.
ESCRAVIDÃO
Peter Hall, diretor de teatro inglês, um dos criadores da Royal Shakespeare Company, o homem que decifrou Harold Pinter para o público de hoje, está filmando uma minissérie sobre a escravidão para a TV inglesa. Precisou de dinheiro e pediu a gente dos EUA. Veio o ok, mas com a exigência de que não mostrasse negros como mercadores de escravo. Isso é da essência de história da escravidão. Tribos vitoriosas vendiam os derrotados como escravos aos negreiros do Ocidente. Hoje, que não podem vender, matam a bala ou de fome.
Hall disse que assim não dava e terminou conseguindo financiamento exclusivamente inglês, segundo Simon Blow, no Spectator. Mas Hall antecipa dificuldades com os atores negros que representem escravos. Vão querer fazer pose de rebeldias, rara nessa história. Temos o nosso Zumbi, e os EUA, Nat Turner, tema do melhor romance de William Styron. É só. Charles Darwin, em visita ao Brasil, em 1831, ficou surpreendido com a) o número de negros na rua no Rio, muito superior ao de brancos, e b) a docilidade dos negros. A escravidão só foi possível esse tempo todo pela cumplicidade dos escravos, isto é, o fato de que a maioria aceitava a condição. A emancipação nos EUA foi feita à bala pelos brancos na guerra entre os Estados, 1861-1865.
MINETTE DIXIT
Minette Marin, a atrante colunista do ‘‘Sunday Telegraph’’ inglês, comenta em 12 de janeiro a trajetória das mulheres. Minette se diz surpresa com o fato de que os homens tenham conseguido por tantos séculos rebaixar as mulheres. E elas tenham aquiescido nisso. A mulher só começou a se considerar de facto cidadã depois que a pílula lhe deu um certo controle sobre sua fertilidade, nos anos 60.
Minette acha que um dos motivos é a tensão pré-menstrual, na Inglaterra conhecida como PMT, e, nos EUA, PMS, o s valendo por síndrome. Uma de duas mulheres na Inglaterra fica doidinha da Silva nesse período, que é quando há mais acidentes com automóveis, causados por cinesíforas. Minette desencavou novo estudo de uma ginecologista, Anita Holdcroft, que afirma que o cérebro das mulheres encolhe durante a gravidez e só volta ao normal seis meses depois do parto.
Interessante, como é tudo que Minette escreve, a mim estarrece a falta de conteúdo político na sua análise. Durante séculos, os assuntos da Europa civilizada eram resolvidos como na África, hoje, isto é, a ferro e fogo. Neste século mesmo tivemos duas guerras em que morreram cerca de 100 milhões de pessoas. Esta é, sem dúvida, a causa principal da supremacia masculina, força.
Sobre menstruação, apesar de todo o ideário feminista, não há hipótese de mulher ser eleita para cargo executivo de um país com poder de fogo, pré-menopausa.
INTERNET
Do que sei, um pouco, encontro muito menos no sistema internet. Fui ver poesia, pintura e música. Inadequado. O que não sei não me interessa. Tentei ver boazudas. Acesso difícil, centenas de milhares de pessoas na frente. Essa computerização toda é boa para negócios, dilui o nacionalismo autárquico de nações atrasadas como o Brasil, e, acredito, pode ser um instrumento importante na educação da juventude alítera dos nossos dias. O sistema contém o cerne do que é comunicado ou calculado numa sociedade moderna. No Brasil se importa tudo que é possível, até me contam, gigot d’agneau... Mas, para computadores, existe uma tarifa de 30%, provavelmente ilegal, e o Brasil se recusou a participar de uma eliminação de tarifas discutida em Cingapura, num acordo entre EUA, Japão, Alemanha e toda a Comunidade Econômica Européia. O Brasil é dirigido por gente profundamente reacionária, que se diz nacionalista e populista.
HAMLET
Respeitável o ‘‘Hamlet’’ de Kenneth Brannagh, para cinema, quatro horas de projeção. Brannagh usou o chamado primeiro folio e partes do quarto folio das edições de ‘‘Hamlet’’. Há um erro de interpretação. Hamlet vai para a cama com Ofélia, a deliciosa Kate Winslet. Hamlet não tem sexo explícito. É um herói, o primeiro herói existencial. É como Philip Marlowe, de Raymon Chandler. Assexuado.
Brannagh e Derek Jacobi, o tio de Hamlet, Claudius, o vilão de carteirinha da peça, são atores shakesperianos e lavam a égua. É só ouvir Jacobi dizendo ‘‘When sorrows come, they come not single spies, but in battallions’’, uma versão mais sofisticada de ‘‘desgraça pouca é bobagem’’. No filme de Olivier, 1948, ele omitiu o grande monólogo ‘‘Oh what a rogue and pleasant slave am I. Is it no monstrous that this player here...’’ Hamlet se maravilha que um mero ator (Charlton Heston, numa ponta de prestígio, e nada mau) possa chorar por Hécuba, rainha de Tróia, enquanto ele tem razões reais, morte do pai e a putice da sua mãe. Hamlet ‘‘afogaria o palco de lágrimas’’. Brannagh, que Ivan Lessa acha que não tem lábios e Nelson Hoineff detesta por igual, é extraordinariamente eloquente. Valeu.



NOVA YORK POR AÍ

q Almoço no Auréole, que é um bistrô sofisticado. Ambiente ok. Um leve gosto arquitetônico da chamada renascença francesa. Ostras frescas mas sem nada demais. Um red snapper, peixe de que não sei a tradução, bem cozinhado até os últimos interstícios, mas deficiente também em gosto. Lembro Raymond Chandler, que escreveu que os americanos comem qualquer coisa que esteja entre duas fatias de pão de forma e pingue... Afinal, neste país o prato-chave da aristocracia anglo-americana é rosbife com batatas coradas e alface. Rosbife medium rare. É bom mas é um grande esforço de imaginação.
q O vinho são outros ‘‘n’’ reais. Um Puligny Montrachet, 1989, Lechevre. Nada entendo de vinhos. Esse é celestial, escolhido pelo amigo com quem vou lá, um connoisseur, que me conta que de 6 Mouton Rotschilds, 1945, comprou uma garrafa. Os Rotschilds tomaram de assalto a França, como os Rockefellers Nova York, pelos seus vinhos, e os Rockefellers dando cultura aos filisteus locais, grande maioria, claro.
q Vinho traz felicidade. Quando eu bebia, uísque, depois do quarto, me convertia teologicamente num gosto de madeira delicioso e me sentia capaz de passear o mundo como um colosso. Depois, a ressaca. A superioridade do vinho é óbvia. Porque não é para se beber como uísque, que se bebe até cair. Se bebe para cair.
q Temos uma conversa contundente, no bom sentido do termo, esse amigo e eu. Pouco é publicável, infelizmente.
q Essa conversa só é possível, na minha experiência, entre homens, pelo seu grau de sinceridade, de n-ã-o-representação. Com mulheres estamos sempre representando, e elas, também, muito melhores atrizes do que nós.
q Entrevisto para o programa ‘‘Milênio’’, da Globo News, Patricia Powell, psiquiatra, chefe do Departamento de Ética da Universidade Columbia. Assunto principal: se os médicos devem ter o direito legal de matar pacientes com doenças incuráveis. Mulher muito atraente, em todos os sentidos, chique família, mais e mais raro hoje em dia.
q Para a entrevista, usamos uma suíte do Plaza, com quatro quartos de dormir, dois banheiros, um de Cleópatra, corredor, que é essencial ao chique. Mas eu mudaria as cortinas. O ‘‘living room’’, que os ingleses chamam mais corretamente de ‘‘drawing room’’, é muito espaçoso. Um líder árabe ficou lá algum tempo. A suíte custa US$ 5 mil por dia, de que pagamos uma fração. O árabe, que veio com a família toda, gastou US$ 4,2 milhões de aluguel. Só de ‘‘room service’’ soltou US$ 1 milhão.
q Eu prefiriria morar em hotel. Casa é muito chato. Em hotel, nota Millôr Fernandes, se pode colocar o sapato na cama e passar-lhe um pano. Em casa, somos perseguidos por críticas.
q Lauritz Melchior, incomparável tenor heróico, num CD velho, cantando o dueto de amor de ‘‘Tristão e Isolda’’ com Frieda Leider. É o céu.
q José Lino Grunewald reuniu para a Nova Fronteira uma coleção de versos, incluindo letras de música popular. É ‘‘Pedras de Toque, da Poesia Brasileira’’, 178 páginas, Nova Fronteira, Rio. É interessante saber que ‘‘Resistir quem há de’’ e ‘‘Um urubu pousou na minha sorte’’, que entraram para a linguagem coloquial, são respectivamente de Luiz Guimarães e Augusto dos Anjos, este lido no meu tempo de garoto até que as folhas dos livros fossem gastas.
q Zé Lino é um poundiano, antes de tudo, ou seja, a velha retórica sentimental e o lugar-comum o horrorizam. Foi um dos líderes do movimento concretista no Brasil. Os cantos de Pound são seu livro de cabeceira. Zé Lino é um brilhante jornalista, crítico de poesia, literatura e cinema. Nunca perdeu o encanto pelo brasileiro popular, e neste livro coloca letras memoráveis de Noel, Dorival Caimmi, Ary Barroso, Sinhô, Chico Buarque, Lamartine Babo, etc. A alguns poetas se tem vontade de dar o conselho de Eliot a Christopher Fry: ‘‘O poeta precisa ser menos poético’’, mas a coletânea de Zé Lino é um livro de bolso de cabeceira.
q Luís Carlos Lisboa me manda um longo fax sobre Aldous Huxley, a quem entrevistou duas vezes e de quem escreveu uma biografia publicada pela T. A. Tavares, de São Paulo. Leio numa resenha do enorme diário de Christopher Isherwood que ao lerem o livro de Huxley, sobre Padre José, Julian Huxley, irmão, zoólogo eminente, e Bertrand Russell ficaram perplexos e indagaram de Isherwood: ‘‘Mas ele... reza?’’ Para intelectuais dessa geração e da minha era simplesmente impossível se levar a sério religião. Huxley morreu no dia preciso em que John Kennedy foi assassinado, 22 de novembro de 1963. Lisboa, velho amigo, colega de colégio e jornal, deve ter lido, com maior pena e paixão sobre a morte de Aldous do que a de Kennedy.
q ‘‘Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.’’ Manuel Bandeira, ‘‘Pneumotórax’’, citado por José Lino. Hélio Fraga me contou que Bandeira, tuberculoso a vida inteira, antes dos antibióticos famosos, se aplicava pessoalmente o pneumotórax, uma injeção que punha em colapso a parte afetada do pulmão.

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