Nova York - O brilho estratégico de Serjão Marmota é responsável pelo desempenho de Fernando Henrique na convenção do PMDB. Como disse um amigo, se Marmota tivesse planejado a invasão da Normandia, em 1944, o Dia D, teríamos um governo nazista em Nova York.



‘‘O Pasquim’’
Um livro sobre ‘‘O Pasquim’’, da mesma editora que nos deu biografias de Glauce Rocha, que conheci bem, e de Clarice Lispector, que conheci muito bem. Ambas irreconhecíveis. Agora, ‘‘O Pasquim’’. Já escrevi aqui que o jornal, acidental, viveu especialmente do talento de Millôr Fernandes, Jaguar, Ziraldo, Ivan Lessa, Henfil e Fortuna. Como tem importância no desenvolvimento da linguagem jornalística no Brasil, ora em retrocesso, alguém que entende do assunto deveria escrever uma história de ‘‘O Pasquim’’ para futuros estudantes. Neste livro, Vladimir Herzog cometeu suicídio. Ivan Lessa foi preso com outros pasquineiros em 1970. Telefonei a ele e não se lembra de ter sido levado a ferros para a Torre de Londres ou de ter sido decapitado. Mas, a sério, é preciso dar uma freada nesta incompetência desinibida e maciça que cai sobre as poucas coisas de algum interesse feitas no Brasil.









Reformas
É só uma batalha perdida, claro, a guerra será mais longa. Maluf propôs que a emenda da reeleição fosse acompanhada de reformas, como voto distrital e, mais importante, fim da obrigatoriedade de comparecer à votação. É quem vota sem querer que vende o voto. Também que o voto dos Estados menores e mais atrasados valha dezenas de vezes mais do que o voto dos Estados mais adiantados é uma redução ao absurdo da idéia de democracia representativa. Perpetua a influência que os ‘‘coronéis’’, eleitos a R$ 5,00 o voto, têm no Congresso. Todo mundo sabe disso.
Serviços em Ingana
Ing, de Inglaterra, Gana da África. É o apelido que Delfim Netto deu ao Brasil, que cobra impostos ingleses e provê serviços dignos de Gana. A Embratel baniu a AT&T de chamadas a cobrar no Brasil. Era infalível a qualquer hora do dia e da noite. Os telefonistas da Embratel são bem educados, mas nunca estão disponíveis nas horas mais necessárias, de manhã e à tarde. Entra uma voz de locutor de rádio, que nos informa que todos os nossos operadores (sic) estão ocupados. Operam em quê? Hospitais, ou na Bolsa? A palavra em português é telefonista.
Luz solitária
Eliseu Resende, o deputado, relator da emenda que propõe abrir o mercado de petróleo. Como Diógenes, o Cínico, se formos a Brasília em pleno dia, e acendermos uma lanterna à procura de um homem honesto, encontraremos Eliseu.
Cinema velho
O subdesenvolvimento é indivisível. Nossos cineastas, quando podem, terminam seus filmes aqui, som, mixagem, etc. Porque o nosso nacionalismo não permite a importação de técnicas estrangeiras. Dublagem não precisa ser tão ruim como é no Brasil. Walt Disney, quando eu era garoto, trazia equipes de brasileiros para seus estúdios em Hollywood, onde alguém competente dirigia a dublagem de Branca de Neve, Bambi, etc., que era tão boa quanto pode ser a dublagem, que, como tradução, sempre trai de alguma forma o original. Os laboratórios de cinema no Brasil são de quinta categoria.
Promoção
Os cineastas brasileiros não preparam trailers dos seus filmes, os comerciais de 1 minuto e tanto que se vêem de filmes de todo o mundo. Nova York é 10% do mercado dos EUA. Sim, esta cidade de 7,5 milhões de um país de 250 milhões. A pressão sobre distribuidores e exibidores de filmes, de toda parte do mundo, é tremenda. Diariamente, gente quer lhes vender produtos visuais, seja filmes de longa e curta-metragem a uma infinidade de enlatados de televisão. Imaginar que um cara desses vai ver 2 horas de cinema brasileiro, numa língua que parece russo a muita gente, é quimera.
Modas
Todo mundo agora faz safena ou próstata. Será necessário ou uma repetição, em ponto maior, da moda de extrair amígdalas e apêndice, da minha infância? Freud dizia que o cirurgião é um sádico sublimado. Esqueceu a atração de seus colegas (Freud se formou em neurologia) pelo vil metal, a que ninguém é imune, e o desamparo do cidadão comum diante da sapiência do esculápio.



Grande
Quando se lê ‘‘Moby Dick’’, de Herman Melville, é a obsessão do capitão do baleeiro, Ahab, perneta, feroz, bíblico, implacável, contra a baleia branca, Moby Dick, que nos agarra a imaginação. A inexorabilidade trágica do destino de Ahab é a essência do romance.
Em ‘‘Billy Budd’’, noveleta, um jovem bonito, inocente, amigável, servindo na marinha de guerra inglesa, é amado por toda a tripulação, os oficiais inclusos, que vêem em Billy uma espécie de Adão, antes da queda. Menos Claggart, que o odeia, como Ahab à baleia. Claggart provoca Billy a tal ponto que este o mata. É julgado pelos oficiais. É condenado e executado. A história se passa no fim do século 18, quando a marinha inglesa era o único obstáculo a que Napoleão Bonaparte conquistasse a Europa. Já tinha sofrido um motim sério, em 1798, suprimido à bala. O capitão sabe que Claggart não prestava e Billy é intrinsecamente inocente, mas tem de mandar matá-lo, por Realpolitik. Billy o perdoa.
‘‘Billy Budd’’ só foi publicado em 1924. Melville viveu de 1819 a 1891. Teve um breve sucesso com Typee, seu primeiro romance passado nas Ilhas dos Mares do Sul. Depois, começou a ser vilificado pelos críticos. A recepção a ‘‘Moby Dick’’ é um exemplo insuperado de insensibilidade crítica. Melville morreu em desespero.
Começou a interessar a gente de toda parte quando Albert Camus escreveu sobre ‘‘Moby Dick’’. Harold Beaver, no TLS, não cita sequer Camus. Atribui a ressurreição de Melville a Benjamin Britten, que escreveu uma ópera sobre Billy Budd, W. H. Auden e E. M. Forster, que se interessaram pelo conteúdo homoerótico da obra de Melville. Pfui. Leiam os livros.
JonBenet e tablóides
Um jornal ordinário do Colorado, onde foi estuprada e estrangulada JonBenet Ramsey, de 6 anos de idade, roubou do médico legista as fotos da autópsia da menina e publicou-as. Os leitores boicotaram o jornal. Os responsáveis devolveram as fotos, e a Promotoria, com o medo habitual que se tem de imprensa nos EUA, suspendeu o processo contra ‘‘The Globe’’.
Paula Jones
Reina silêncio sobre o caso Paula Jones nos arraiais feministas. Ela acusa Clinton de convocá-la a um quarto de hotel, exposto o que os portugueses chamam de pífaro leiteiro e ordenado um trabalho de sopro, ao que ela teria se recusado. Processa Clinton na Corte Suprema, para obter o direito de mover contra ele uma ação civil durante o segundo mandato do presidente.
A líder feminista Susan Estrich diz que não se pode aceitar acusações de harassment sexual só porque a mulher diz que foi incomodada pelo homem. No duro? Anita Hill, no governo Bush (1989-1993) quando da indicação de Clarence Thomas para a Corte Suprema, declarou em televisão nacional que, dez anos atrás, Clarence havia feito insinuações sexuais a ela. O feminismo oficial, entre as quais Estrich, cerrou fileiras em torno de Anita. Mil livros e artigos inundaram a mídia dos EUA.
Clarence Thomas foi aprovado pelo Senado para a Corte Suprema, mas sua reputação ficou aos cacos. No caso de Paula Jones a palavra de ordem é que preservar Clinton, que dá uns farelos às feministas, é mais importante do que os direitos de Paula Jones, que, ademais, tem cara de piranha e é jeca. Há exceções. Feministas como Barbara Ehrenreich, uma das raras que têm alguma coisa entre as duas orelhas, ridicularizaram Steinem e cia. pelo seu silêncio e pela sua cumplicidade com Clinton. Mas é um artigo apenas num mar silencioso, e Ehrenreich não toca no assunto Anita Hill - Clarence Thomas. Irving Howe escreveu que o feminismo americano era uma paródia da luta de classes proposta por Marx. Na mosca.




Nova York por aí
qMorreu o Antonio’s no Rio. Pior, vai virar biboca mexicana. O apóstrofos (’s) é uma ressaca da fascinação dos nossos botequineiros portugueses pelos EUA, depois da 2ª Guerra. Durante a guerra o Brasil, ou melhor, o Rio, descobriu os americanos. A cidade era baldeação dos soldados, marinheiros e aeronautas dos EUA, que iam para Natal, no Rio Grande do Norte, de onde seguiam para a África do Norte, que os EUA invadiram antes de atacar a Itália, em 1943.
qOs americanos simplesmente adoraram Copacabana. Inflacionaram o preço dos amendoins e das moças de vida airada. Muitas de nossas meninas, para fúria dos nativos, ficaram também encantadas com eles. O cinema de Hollywood reinava supremo. A inauguração do Metro Copacabana, com ‘‘Balalaica’’, um filme idiota sentimentalizando os cossacos. Nelson Eddy, de cossaco, e Ilona Massey, sua amada que visitou o Brasil, onde disse que Eddy tinha mau hálito, e, provavelmente, teve um amor brasileiro...
qMas os botequins todos acrescentaram um apóstrofo e um s ao nome (’s), como Manuel, que virou Manuel’s.
qO Antonio’s era uma casa italiana, de dois irmãos sorridentes, Manolo e Florentino, que cobravam preços moderados, criaram um ambiente de clube, em que se falava baixo. Tinha-se, mutatis mutandis, a impressão de estar numa tratoria em Roma.
qMillôr Fernandes e Marcos Vasconcellos me levaram lá a primeira vez. Comia-se direito. O uísque era honesto. Aos poucos gente do Velho Rio começou a frequentar, Otto Lara, Antônio Callado, Fernando Sabino, Sérgio Porto, Paulinho Mendes Campos e outras pessoas que liam e escreviam livros!!! Acho que foi Carlinhos de Oliveira, então um cronista muito lido, que deu notícia do Antonio’s. Em pouco tempo apareceram dois tipos de pessoas sempre em perseguição dos chamados lugares da moda: o cafona milionário, cuja mulher se enfeita como árvore de Natal, e o cafajeste ruidoso, que beija os amigos, provoca brigas absurdas, fala sempre gritando e, quando se choca conosco na rua, é bom verificar a carteira.
qQuando um lugar é anunciado como moda na imprensa está nas últimas, podem crer. O metro quadrado na Riviera francesa nunca esteve tão barato. A maioria das pessoas que tinha casa e espaço lá vendeu, porque houve a enchente de turistas, os apartamentinhos, bebês chorando, fraldas, quintais, et al. Búzios era bonita e semideserta, até que Renato Acher convidou Brigitte Bardot para passar lá uns dias. Depois de BB, o dilúvio. Quando se lê ‘‘Terna é a Noite’’, de Scott Fiztgerald, em que Dick Diver, Nicole e amigos usavam as praias da Côte d’Azur quase sozinhos, se tem um aperto no coração. Ainda vi Leblon e parte de Ipanema assim.
qMinha última lembrança de Sérgio Porto foi na varanda do Antonio’s, que os proprietários alargaram para acomodar o turismo interno. Achei estranho que ele estivesse lá, na ‘‘Sibéria’’. Bebia miniaturas de Black Label, uma atrás da outra, respirando mal. Morreu do coração com menos de 50 anos, pouco depois do Antônio Maria, que teve um colapso cardíaco em 1964, quarentão também. Duas das figuras mais interessantes do velho Rio.
qDurante algum tempo, exilados do Antonio’s pousaram no Florentino, perto, mais caro. Ainda me lembro deste quando se fazia uma mesa só, com 20 ou 30 pessoas. Estertores da nossa cidade, antes que os bárbaros arrombassem os portões.
qFui ao City Ballet. Uma noite infeliz, para mim e para o balé. Neca de Korowski, Meunier e Guerin, estas duas convidadas do balé de Paris, que os críticos nova-iorquinhos puseram nos cornos da Lua.
qRevi madame patrão, Darcy Kistle, casada com o coreógrafo da companhia Peter Martins, excelente bailarino, que herdou o manto de Balanchine. É criticadíssimo. Na noite em que fui, merecia. ‘‘Concerto Barroco’’, de Bach, um concerto de dois violinos, parecia mal ensaiado. Um jovem de talento, que substituiu o veterano Nikolay Hubbe, cometeu gafes desastrosas. O corpo de baile parecia inseguro. Noite de amadores. Só no final na ‘‘Sinfonia em R钒, de Bizet, o City Ballet se recuperou. Mas vários craques não dançaram, como Igor Zelensky. Estava 20 graus abaixo de zero e é possível que bailarinos não tenham chegado ao teatro. Darcy, que teve seu primeiro filho com Martins, perdeu sua cintura deliciosa, e me parecia um tico menos desenvolta do que de costume. Mas é uma bailarina de alta técnica, extremamente romântica, ainda que conte, movendo a boca, o tempo todo. Vê-la em ‘‘Lago dos Cisnes’’ é uma grande experiência.
qTiepolo na Biblioteca Morgan, os três, no caso, o pai, Gianbatista, tido por alguns críticos abalizados como picareta, e os filhos Domenico e Lorenzo, expondo desenhos. E no fim do mês 150 quadros de Gianbatista no Metropolitan.
q‘‘Meu tempo é quando.’’ Vinícius de Moraes, citado por José Lino Grunewald, que editou ‘‘Pedras de Toque‘‘, 178 págs., Nova Fronteira, Rio, antologia de versos e frases, de poetas intelectuais e de grandes letristas, com Noel, Lamartine e Sinhô.

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