Nova York - De barbeiro a médico, o preço de serviços aumentou, em 1996, mais do que a inflação oficial, de 9,2%, anunciada como a menor desde os anos 50.
Uma análise cuidadosa de O Estado de S. Paulo mostra que a educação aumentou em 26,67%, saúde em 18,08%. Ainda assim há decréscimo em 1996 em relação a 1995. Esses setores são regulados pelo governo, mas é no que concerne ao próprio Estado que houve um aumento real.
Transporte, que tinha subido 16,03% em 1995, aumentou 20,01% em 1996. A culpa é da P-e-t-r-o-b-r-á-s. Gás e energia elétrica saltaram de 19,74% para 28,74%. Responsável é a Eletrobrás, que ameaça o Brasil de blecaute e não supre o País de energia essencial ao desenvolvimento econômico.
O redator da análise do Estado reconhece que onde há importações não houve aumento, ainda que cite outros fatores de estabilidade, em setores de iniciativa privada nacional. Mas inequívoco é que despesas do governo são o maior agente inflacionário no Brasil.BRAÇOS ABERTOS
Entre 1990 e 1994, Nova York recebeu 596 mil imigrantes legais. Pensei que um terço fosse de brasileiros, outro de paquistaneses e os restantes de porto-riquenhos. Ledo engano. O Brasil nem está entre o 1% de imigrantes legais. Dois mil se mudaram para aqui no período, cerca de 400 por ano. Moram, em grande parte, em Astoria Queens, esta uma das regiões da cidade, a par de Manhattan, Bronx, Brooklyn e Ilha de Staten. Outros moram no Upper East Side, que é a parte mais rica de Manhattan, onde quase todo mundo trabalha.
Maior número de imigrantes é da República Dominicana, 110.140. Dez por cento são chineses, 10,6% da ex-URSS. Imigração é um dos sinais de riqueza. Nos meus tempos de garoto existia considerável imigração de portugueses. Hoje, praticamente cessou. Estão todos na Europa Ocidental, onde a economia que predomina é de mercado. Vai-se fazer negócio no Brasil? É exatamente improvável que alguém pobre vá tentar a vida na nossa terra, a menos que tenha relações com a nomenklatura que dirige a economia do País. Pelos meus cálculos amadores, cerca de 30% da população de Nova York é imigração recente. Poucos falam inglês. Têm alguns hábitos considerados estranhos no Ocidente. Os brasileiros, na minha observação de orelhada, refletem à perfeição as divisões de classe e renda no Brasil.
PRETTY BABY
JonBenet Ramsey, seis anos de idade, foi estuprada, estrangulada e lhe quebraram a cabeça. Seu pai, John Bennett Ramsey, tem US$ 1 bilhão. A família morava luxuosamente em Boulder, Colorado, num refúgio interiorano de 75 mil pessoas, gente rica.
Os pais até agora não depuseram diretamente à polícia. Se cercaram de advogados. Depuseram na CNN. Disseram o que ela queria, o que é praxe nessa rede de televisão, que, na guerra do Golfo, fazia propaganda mundial de Saddam Hussein, em troca de um satélite.
A menina era conhecida como Pequena Senhorita Real, Little Miss Royal. Ficamos sabendo que há toda uma rede de desfiles infantis de meninas, nos EUA, na verdade miniconcursos de miss. Cerca de 250 mil meninas disponíveis. Renda do negócio: US$ 5 bilhões anuais. Só vimos na televisão um tipo em que essas crianças aparecem pintadas e coquetes, vestidas. Estou informado de que também desfilam de maiôs de duas peças, o que não foi mostrado. Há o registro de um telefone 911, o número que se chama em qualquer parte do país para socorro policial imediato, mas não foi concluído. Há histórias de festas animadas na casa dos Ramsey, com JonBenet (que se pronuncia ‘‘jonbenei’’) co-anfitriã, toda arrumada como mulherzinha.
Uma das raras declarações violentas de Jesus Cristo, registrada pelos evangelistas, é quando fala de Quem Molesta Crianças. A polícia de Boulder, Colorado, se gaba de ter resolvido 13 dos 15 homicídios acontecidos na cidade, desde 1990.


SOCIALISMO
O socialismo morreu, como idéia, em 1914, quando o Partido Social-Democrata Alemão, o maior partido socialista do mundo, votou em massa pela concessão de créditos ao Kaiser para fazer a 1ª Guerra: a crença positivista de que as massas são capazes de evoluir para um internacionalismo fraterno, proletário, ruiu por terra. Lenin, que pregava a ditadura total de uma minoria de intelectuais, desde ‘‘O que fazer’’, em 1905, se tornou a alternativa do socialismo democrático, o socialismo de Kautsky, Bernstein e Rosa Luxemburgo. Lenin e os bolcheviques arruinaram a Rússia, com a guerra civil contra os anticomunistas e uma idiotice chamada ‘‘comunismo de guerra’’, o que o próprio Lenin reconheceu (ver atas do Décimo Congresso do PCUS) ao abrir, em parte, a economia soviética, em 1921. Economia russa que, segundo Marc Ferro, já em 1900, se aberta ao mercado, tinha recursos suficientes para superar a Inglaterra e Alemanha. Até hoje, neca dulcineca, o que é sorte do Ocidente, porque a Rússia é a maior produtora de petróleo, urânio e ouro do mundo. A burrice é subestimada como determinante histórico.
HISTÓRIA
DA INTELIGÊNCIA
Uma nova edição de ‘‘A História da Inteligência Brasileira’’, em sete volumes, de 1550 a 1960, de Wilson Martins, pela T. A. Tavares de São Paulo. As piadas são inevitáveis. Inteligência? É ficção? É certamente uma obra indispensável, que, longe de restrita à análise de escritores e intelectuais, o que assusta os filisteus, é também um grande ensaio histórico. Basta que se leia o que Wilson escreve sobre a Inconfidência Mineira, ou suas considerações sobre Portugal indiferente às anexações dos holandeses (Maurício de Nassau, et al.), sobre a emergência do brasileiro, como tipo específico, ou à própria descoberta (só em 1540, 40 anos depois do evento, os portugueses saíram do seu torpor e começaram a colonização). Wilson nunca aceitaria o hermetismo letal de Derrida, de que nada há fora do texto. Literatura para ele é componente da vida social, da mentalité de um país.
Sua crítica surpreendente de ícones da nossa literatura, como Machado de Assis ou Guimarães Rosa, faz dos livros uma fonte inestimável e insuperável de conhecimento e de referência, sem falar do simples prazer de se ler um crítico humanista, inimigo do jargão, polêmico, que não aceita vacas sagradas de espécie alguma, que expressa sempre uma opinião fundamentada. Já ouvi de gente medíocre e preguiçosa críticas a certas omissões de Wilson Martins. Sem dúvida devem existir, numa obra dessa extensão e escopo, ainda que eu só tenha encontrado, algumas vezes, do que discordar de WM, e não da sua suficiência de informações e de análise. Mas citem uma obra que sequer tenha abordado tamanho campo da nossa cultura. Como Wilson é um liberal, independente, muito crítico da direita cruel, como da esquerda idiota, esta, cuja influência na mídia é inteiramente desproporcional à sua visão da realidade e rentabilidade política, patrulha o nosso melhor crítico literário. Faz de conta que Wilson não existe. Leitor amigo, não verás um país como este, e Wilson Martins abrirá os teus olhos para o que a nossa Inteligência deu até hoje, os seus limites, e suas possibilidades, suas realizações, em suma, em realidade, sem o mau-caráter diluído em eufemismos vagos que a maioria dos nossos intelectuais produz.

NOVA YORK POR AÍ
q São oferecidas aos tablóides de Nova York fotos de Bill Clinton nu em pêlo. Não parecem colhidas de surpresa. Vi algumas. Comparei Clinton a uma vitela faisandée.
q Pobres mulheres. Terem de aguentar isso. Minha solidariedade. q É pena que o livro de Gore Vidal, ‘‘Dubuque’’ não tenha feito o sucesso que merecia, porque antecipou o presidente dos EUA como figura de comercial de televisão, dizendo aquilo que o público, ou a mídia, quer ouvir, uma imagem que aparece no vídeo alguns segundos, dá seu recado e desaparece. Vidal queria gozar Reagan, mas este tem um lugar destacado na história dos EUA. Foi o líder de uma revolta contra o intervencionismo do governo que até hoje influi na vida política dos EUA. E sem dúvida foi o fator decisivo no desmembramento da URSS e fim do comunismo. O que é Clinton? A única frase sua citável é: ‘‘Fumei (maconha) mas não traguei.’’ Troca de posição à menor indicação de uma pesquisa favorável a qualquer besteira. Interveio afinal na Bósnia e no Haiti não por convicção ou estratégia, mas porque as três maiores redes de televisão insistiam nisso diariamente nos seus jornais. Teve mais da metade dos votos de 48% do eleitorado. É presidente real de 25% dos americanos que, em 72%, o acham frágil de caráter, digamos assim.
q No fim da semana passada, saiu um livro de seu mentor, Dick Morris. Escreve que convenceu Clinton a passar suas férias em montanhas ou fazendo piqueniques no campo, porque é o que a maioria dos americanos faz, em férias, e ver o presidente acompanhá-los poderia levá-los a votar em Clinton. O presidente preferia jogar golfe, mas, Morris notou, golfe é um hobby republicano.
q O interessante dessa história é o desdém que essa gente tem pela inteligência do americano médio. É uma queda abissal nas pressuposições de James Madison, Thomas Jefferson e outros ‘‘autores’’ dos EUA.
q Um leitor amável me sugere outras palavras para o que chamo de ‘‘trabalho de sopro’’. Boquete, que é engraçada. Talvez a graça de ‘‘trabalho de sopro’’ só seja percebida por gente da minha geração. Ríamos às bandeiras despregadas com os tradutores de cinema. Quando estreou, por exemplo, ‘‘The men’’, cujo atrativo era o jovem Marlon Brando, representando um paraplégico, baixa de guerra, dirigido por Fred Zinneman, o Rio inteiro, o nosso Rio, compareceu en masse ao Cine Ipanema. Uma casa de segunda, mas se ia atrás do melhor. Brando era sensacional no paraplégico, parecia mais paraplégico do que os paraplégicos empregados pelo estúdio, mas o cinema desabava de gargalhadas com a tradução de legendas. ‘‘I apologize’’ era ‘‘Peço-lhe apologias’’. Quem será a pessoa que, tendo de traduzir ‘‘blow job’’, escolheu ‘‘trabalho de sopro’’? É tradução literal das palavras, bem entendido, mas, waal...
q Ivan Lessa achava que esses tradutores eram um bando de velhos centenários, morando numa comuna de aluguel controlado na Park Avenue, que se divertia com esse vocabulário. Um deles aparecia, dizendo aos colegas: ‘‘Achei uma frase nova: É da pontinha.’’
q Jodie Foster, uma gracinha, não tem namorado, que se saiba. Uma escritora de thrillers policiais, Patrice Cornwell, procurou-a para lhe propor um filme. Jodie não gostou do que viu do projeto e tirou o corpo fora. Patrice a persegue desde então. Procurou uma professora de Jodie, na Universidade Yale, para lhe pedir auxílio, uma certa Irene Brafstein, que, ao conhecer Patrice, se recusou a auxiliá-la. Patrice disse à imprensa que tem um jeito irresistível de se insinuar na vida do próximo. Vendo sua fotografia, acredito. Jodie escapou de Hinckley, que, supostamente, atirou em Reagan, em 1981, para impressioná-la.
q Um novo Oscar Wilde, no cinema. Arrumaram um viadão imenso para representá-lo, Stephen Fry. Pode até ser bom, porque ele é um ator de talento, ainda que irresponsável.
q Houve dois filmes sobre Wilde, mais do que razoáveis, um com Peter Finch, outro com Robert Morley. Finch era um notório homme à femme. Wilde usava roupas estranhas à moda da época, era um dândi, mas nada tinha de efeminado. Pouco se sabe da sua vida conjugal, mas teve dois filhos. A sabedoria convencional é que Wilde se arruinou pela companhia de Alfred Douglas, que foi seu amante. Mas já tinha deixado de ser, havia muito tempo, por ocasião do processo. O pai de Douglas, o marquês de Queensberry, inventor das regras do boxe moderno (Quensberry rules) deixou um cartão no clube de Wilde, onde escreveu que Wilde ‘‘posava de sodomita’’ (sic). Wilde, normalmente, zombaria dele. Mas bateu-lhe uma neura autodestrutiva, fundamentada, acho eu, no seu ressentimento das esnobadas que levava de nobres como lorde Curzo. Processou o marquês. Daí o advogado de Queensberry fez Wilde tropeçar verbalmente no banco de testemunhas, e o que era um processo de difamação se converteu num processo criminal contra Oscar Wilde por ‘‘atos de grande indecência’’. Wilde poderia ter fugido para a França, sem que o escândalo irrompesse. Ficou curiosamente lerdo e enfrentou o julgamento. Foi condenado a trabalhos forçados. Desmoralizado, cumpriu sentença, mudou-se para Paris, onde morreu de sifílis em 1900.
q Hollywood está num processo de enlouquecimento coletivo. Michael Ovitz, um agente de atores que foi contratado pela Disney, terminou demitido da empresa levando US$ 90 milhões de indenização, mais 3 milhões de ações da Disney. Está todo mundo rindo, nos meios financeiros, rindo da Disney, e Hollywood, em breve, será bloqueada, como não-saneada, pelos principais bancos.
q ‘‘Questi, che mai da me non fio diviso.’’ Paolo, no inferno com Francesca, falando do seu amor imortal, em Dante.

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