Diálogos saborosos salvam "Garotas de Futuro"
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quarta-feira, 19 de abril de 2000
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 20 (AE) -Em "Garotas de Futuro", o diretor Mike Leigh volta-se de novo para sua temática preferencial, a complexidade das relações humanas. As garotas do título são Hannah (Katrin Cartlidg) e Annie (Lynda Steadman), amigas durante o tempo em que compartilharam de uma casa, depois separadas pela vida e que finalmente se reencontram para discutir o passado e avaliar o que estão fazendo no presente.
É bom que se diga de entrada: esse filme não tem a mesma química de Segredos e Mentiras", com o qual Leigh ganhou o Festival de Cannes e comoveu muita gente. Talvez o distanciamento maior, que existe em Garotas de Futuro", mas não existia em Segredos e Mentiras", se deva ao tom escolhido. Neste, predominava um certo realismo, embora Leigh fosse suficientemente teatral para deixar uma câmera parada e esperar, com paciência, que os atores fizessem o seu trabalho. Naquele, a chave é quase expressionista, com as garotas apresentando tiques que beiram a caricatura. Você precisa de um tempo para se habituar a elas.
Se esse tempo passar e for suportado com alguma dose de paciência, o filme poderá tornar-se mais receptivo. Essa tonalidade, tanto interpretativa quanto afetiva, é opção de Leigh. Representa o desafio de tocar a emotividade sem o recurso fácil do naturalismo, o mais corrente no cinema contemporâneo. É um risco também, o de trabalhar em uma linguagem que causa certa resistência inicial. O que de início não é problema. O cineasta não tem por que confrontar-se a cada vez com a ditadura do gosto médio.
A dificuldade de "Garotas de Futuro é outra e consiste em não conseguir superar a estranheza inicial ao longo do seu desenvolvimento. Quer dizer, não tem êxito em cativar o espectador a ponto de fazê-lo entrar no jogo. Pelo menos entrar inteiramente. O filme só não fracassa porque Leigh continua um afiado diretor de atrizes e porque os diálogos são ótimos.
É difícil, no cinema atual, encontrar falas de atores tão saborosas quanto as que aparecem nos trabalhos de Leigh. E essa arte do diálogo não se esgota em si mesma. Está a serviço de uma posição do cineasta. Humanista, Leigh procura compreender seus personagens. Sabe que eles não são marionetes. Expressam algo de muito real, mas de apreensão difícil, que é a natureza humana e suas contradições. Só por isso o filme já vale. Serviço - Garotas de Futuro. Drama. Direção de Mike Leigh. Duração de 87 minutos.


