Francelino França
De Curitiba
Longe dos refletores, a Folha2 promoveu o encontro de dois grandes atores presentes ao Festival de Teatro de Curitiba. Berta Zemel e Guido Correa falaram de sua arte e ofício
A dinâmica do Festival de Teatro de Curitiba nem sempre propiciou encontros e trocas de informações entre os artistas presentes no evento. Importantes contatos, vitais para a sobrevivência de produtores, atores e diretores, deixaram de ser feitos. Durante o 9º FTC, a Folha2 promoveu um encontro entre dois atores – Berta Zemel e Guido Correa – que atuaram nos espetáculos-solo ‘‘Anjo Duro’’ e ‘‘A Terceira Margem do Rio’’, respectivamente. Hospedados em hotéis diferentes, fazendo espetáculos em teatros em pontos equidistantes de Curitiba, certamente, seus destinos não iriam se cruzar.
São duas gerações desvendando o mundo obscuro de personagens intrigantes. Berta Zemel começou no teatro em 1956, depois de se formar pela Escola de Artes Dramáticas de São Paulo, estreando ‘‘Hamlet’’, com Sérgio Cardoso. Correa iniciou a carreira teatral em 1984, aos 16 anos, em Goiânia.
O teatro de Berta Zemel foi recebido calorosamente na estréia curitibana. As cartas para Spinoza serviram de alavanca para elucidar o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira, personagem do monólogo. Já a encenação de Guido Correa, literalmente, foi um retrato fiel do conto de Guimarães Rosa, com intenso trabalho de expressão corporal.
O jovem ator, de 36 anos, desconhecia o passado teatral e televisivo de Berta. Ao se conhecerem, identificaram em seus trabalhos muitos pontos em comum. Premiada no teatro, com reconhecimento de público pelas novelas e teleteatro na TV, Berta também realizou uma importante trajetória mambembe pelo País. Suas apresentações sempre eram seguidas de debates. Voluntariamente abandonou os palcos durante 25 longos anos. ‘‘Eu estava me repetindo’’, avalia. Outros diretores tentaram persuadi-la a voltar à cena. Após uma corte de quase 20 anos, o diretor Luiz Valcazaras conseguiu convencê-la a encarar o desafio de levar a insanidade zen de Nise da Silveira aos palcos.
Uma das primeiras observações feitas pela atriz se refere ao conto de Guimarães Rosa, ‘‘A Terceira Margem do Rio’’, presente na memória emotiva da atriz como um conto encantador e misterioso. ‘‘Que nome bem achado esse que Guimarães Rosa escolheu para o conto’’, destacou Berta. A seguir, trechos da conversa entre os dois, minutos depois de se conhecerem, no saguão de um hotel, mais precisamente às 12h30, no dia 20 de março. (Após a entrevista, os dois atores eram vistos como velhos amigos, cúmplices da loucura de encarar um monólogo).
Guido - Você sentiu medo quando resolveu aceitar o desafio para compor Nise da Silveira?
Berta - Não. Foi como se tivesse voltando para casa. Foi um período muito criativo, às vezes, nem percebia o tempo passar. Descobri uma criatura múltipla, um caleidoscópio. Tudo o que ela pensou, colocou em ação. Nise, inclusive, teve a colaboração de Fauzi Arap e Rubens Corrêa, duas importantes figuras do teatro nacional.
Guido - Na ‘‘Terceira Margem do Rio’’, descobrimos os sons das palavras e isso corresponde a um gesto. No espetáculo, a gente dança a palavra. Quis juntar o trabalho pop do Grupo Quasar com o sertanejo de Guimarães Rosa. Uma curiosidade sobre a psiquiatra, ela foi uma mulher briguenta?
Berta - Sempre. Duas frases mais usadas pela Nise eram: ‘‘cachorro de rua não é gordo, mas tem liberdade’’. A outra era ‘‘coleira, não’’.
Guido - Esse tema da loucura é extremamente sensível, você sentiu dificuldades?
Berta - Tive algumas dificuldades, principalmente quando o Luiz Valcazaras me apresentava momentos novos para o espetáculo. Talvez, a terceira margem do rio, ou seja, o limite do meu trabalho, se deu quando aquele elemento apresentado pelo diretor ia se transformando em outra coisa. Não é só porque se faz um monólogo que se está sozinha no palco.
Guido - No meu caso, o ‘‘anjo’’ que espera o pai (personagem de Guido), compartilha demais da vida dele. O personagem acaba sendo duro com ele mesmo, no momento em que se doa demasiado para o pai. No começo, ele não percebe a vida passar. Quando a gente compartilha muito dessa loucura, acaba ficando dependente demais. No processo de criação, trabalhei com a arte-terapia, com argila e pintura.
Berta - Olha a coincidência. Um dia o diretor me colocou na frente de uma tela em branco. Eu que não faço nenhum tipo de desenho. (Segundo Valcazares, Berta trabalhou nesses desenhos com o lado direito do cérebro, vendo luz e sombra de ponta cabeça).
Guido - A gente vai aceitando tudo, no processo de criação do personagem. Aí a gente tem a entrega.
Berta - Você não se permite esse processo de entrega durante a vida, mas quando se permite é um achado.
Guido - Berta, você tem momentos de catarse durante a apresentação?
Berta - Catarse pra mim é a peça toda.
Guido - Eu jogo com toda a minha fragilidade, coloco todos os meus fantasmas nas apresentações.
Berta - Como a platéia reage com a sua catarse?
Guido - A platéia, por exemplo, espera para tossir nos momentos de blecaute.
Berta - Num texto denso como ‘‘Anjo Duro’’, é preciso dar um tempo para reflexão para o público.