Diálogo emperrado
WILMAR KLEIN
Diálogo emperrado
ReproduçãoUmberto Eco: correspondência com o cardeal Carlo Maria Martini deu origem a livroUns engenham-se em fazer crer que crêem, e não crêem; os outros, a maioria, persuadem a si mesmos e não sabem o que seja crer. Tal opinião de Montaigne - muito lúcida, como de hábito neste meu filósofo de cabeceira - bem poderia servir de epígrafe ao pequeno livro Em que Crêem os que não Crêem, lançado recentemente pela editora Record e, até onde posso entre depreender e intuir, satisfatoriamente traduzido por Eliana Aguiar. São seus autores o bem conhecido Umberto Eco - autor, entre outras obras, de Apocalípticos e Integrados, Obra Aberta e do inesperado best seller O Nome da Rosa- e Carlo Maria Martini, cardeal do Vaticano. Entre 1995 e 96, os dois, atendendo a convite da revista italiana Liberal, trocaram correspondência cujo objetivo confesso era o de estabelecer um diálogo entre o mundo laico e o mundo cristão. O objetivo inconfesso - suponho - era o de propor questões incômodas para a Igreja e verificar como um seu representante, não menos erudito do que Eco, se sairia.
Ao longo dessa correspondência (oito cartas ao todo), Eco formula questões como a possibilidade de cristãos, ateus e agnósticos compartilharem uma noção de esperança (e de responsabilidade) em relação ao amanhã, num mundo que a crença condena a um Juízo Final e a descrença, por outros meios não menos eficazes, talvez condene a um mesmo resultado. Sem esta esperança, argumenta o escritor, seria justo que, mesmo sem pensar no fim, aceitássemos que ele se aproxima, nos instalássemos diante da televisão (sob a proteção de nossas fortalezas eletrônicas) e esperássemos que alguém nos divertisse, enquanto as coisas seguiriam como estão. E ao Diabo os que virão. Acrescente-se ser esta uma atitude cada vez mais adotada em nossos dias, consequência por certo de uma degradação de valores (não apenas religiosos, mas também éticos e existenciais) que outrora asseguravam a estabilidade do mundo. Degradação que conduz ao tédio e à indiferença finimilenares.
O cardeal Martini - é forçoso reconhecer - é um interlocutor bem apetrechado, porém o seu arsenal de argumentos - respaldados aqui e acolá por inevitáveis citações das Escrituras e dos escolásticos - não se expande além do que os dogmas da fé e a postura oficial do Vaticano circunscrevem. Acresce a isso o fato de que Martini é um homem demasiado sisudo, de uma sisudez que espelha-se em seu texto, arrastado e sem brilho. Ou seja, exatamente o oposto do que Eco oferece ao leitor ao provocar - polidamente, mas com boa dose de ironia - o circunspecto cardeal. Este, em alguns momentos, parece aderir a um diálogo mais aberto, como quando concorda com o escritor que não há, sob o ponto de vista doutrinal, nenhuma razão que justifique a exclusão das mulheres da prática do sacerdócio. Mas, logo em seguida, volta a decepcionar, aferrando-se à tradição para tentar justificar o que, em primeira instância, admite ser injustificável.
Tais problemas - os dogmas e demais limitações da crença ou da simples convenção - impedem que a Igreja, representada por Martini, possa responder de modo satisfatório a questões como a do aborto, do controle da natalidade, do homossexualismo, entre outras que o interlocutor laico levanta ao longo da correspondência. Com isso, o diálogo é comprometido e, em relação a certos assuntos, até inviabilizado. Salva-se, como disse, a habilidade e a graça expositivas de Eco - razão suficiente para justificar a leitura do livro. Por outro lado, não há que menosprezar o fato de a obra refletir um estágio de aproximação entre Igreja e sociedade secular que, no portal de um novo milênio, ainda é incapaz de gerar frutos apreciáveis no que tange à tolerância e à revogação dos velhos preconceitos.





