Diálogo com a dramaturgia
Jackeline Seglin
De Londrina
Cinco anos depois de deixar Londrina para seguir a carreira artística em São Paulo, o ator Adriano Garib está de volta à cidade. Desta vez, não para atuar. Ele será o diretor da nova montagem da Escola Municipal de Teatro (EMT), com estréia prevista para março do ano 2000. O texto a ser apresentado em Londrina é A Visita da Velha Senhora, escrito em 1956 pelo autor suíço Friedrich Durrenmatt. O convite surgiu recentemente, em um momento em que Garib entra em uma nova fase de trabalho.
O ator morou dois anos em São Paulo e, depois de assinar um contrato com a Rede Globo, teve de se mudar para o Rio de Janeiro. Por três anos ele esteve ligado à emissora carioca. Atuou na novela Salsa e Merengue, em cinco episódios do programa Você Decide, dois do seriado Mulher e duas vezes em Malhação, além de fazer uma pequena participação na minissérie Chiquinha Gonzaga. Com o vencimento do contrato, o ator decidiu investir no trabalho fora do palco e atrás das câmeras.
Aos 34 anos, Adriano Garib criou uma companhia de teatro no Rio de Janeiro, da qual é diretor. Além disso, divide seu tempo como professor de interpretação. Seu objetivo, agora, é dar continuidade a um novo projeto: a dramaturgia. Para o ano que vem, Garib está preparando um texto chamado O Golpe do Milênio, uma farsa sobre o mundo da mídia.
Em entrevista à Folha2, por telefone, ele conta como foi a mudança na carreira, a experiência na televisão, os projetos e a montagem da EMT.
Você está voltando a trabalhar em Londrina depois da experiência em São Paulo e no Rio de Janeiro. Como foi essa trajetória?
Eu tinha a intenção de ficar em São Paulo, mas o contrato com a Rede Globo acabou me tirando de lá prematuramente. Eu tenho uma paixão muito grande por aquela cidade. E eu estava trabalhando, fazendo vários projetos, como um espetáculo do Ulysses Cruz, além de projetos meus, dublagens, gravações de comerciais. Num tempo relativamente rápido, já estava superbem encaixado no mercado. A necessidade de mudar para o Rio rolou em decorrência do contrato que já expirou, no final de maio. Não sou mais contratado da TV Globo.
Então na televisão...
Obviamente eles me conhecem e quando precisarem vão estar me chamando, como já aconteceu. Eu gravei um Mulher que entrou no ar recentemente, só que não estava mais contratado. Chegaram a me chamar para outras coisas, mas quando se deram conta que eu não era mais contratado, voltaram atrás. Agora eles estão com uma política de trabalhar basicamente com os contratados. Faz parte das medidas da economia, final de milênio... Esse conceito de empresa enxuta e eficiente é o que está se fazendo valer agora. Isso dificulta em termos de mercado. Mas eu estou dando aulas, vou começar a fazer montagens com os alunos. Assim como acabo de abrir uma empresa (uma companhia de teatro). Eu e mais dez ex-alunos meus. É o Oqueoguruviu Confraria de Teatro. Começamos a nos reunir no final do ano passado e acabei compondo um texto para eles, chamado Sexta 31, uma brincadeira sobre o último dia do milênio. Agora eu estou assumindo esta condição de líder e diretor do grupo, estamos partindo para um mercado e entrando nas leis de incentivo para o nosso projeto que vai estrear no ano que vem.
Nada como ator?
Estou atuando basicamente como autor, diretor e professor. A coisa de ator, pra mim, está bem reclusa. Talvez eu tenha me decepcionado comigo como ator. Não no sentido de não me achar um bom ator, mas de achar que deveria ser muito mais do que o ator que eu sou. Se eu não puder, prefiro não ser ator nenhum. Prefiro ser honesto comigo. Aí eu comecei a descobrir a minha verve dramatúrgica, que é o que tem mais me surpreendido nesse momento da minha vida. Escrever para teatro.
Você já teve essa experiência antes?
Já, muito antes, inclusive em Londrina. Trabalhos como Mágica Matemática, Clinch, Rosana nas Alturas, Mentiras e Maldaras trabalhos de autoria e direção. Só que há uma grande diferença entre esses textos e os que eu venho compondo atualmente. É uma maturidade muito mais sólida. A minha grande descoberta tem sido isso. A questão da direção decorre em função de uma possibilidade de autoria. Em Londrina eu vou montar A Visita da Velha Senhora, um clássico do século 20. Casos como esse, em que eu vou dirigir um texto que eu não compus, são mais esporádicos. É a primeira vez que eu vou dirigir um grande clássico. Por isso aceitei o convite.
Como vai ser o trabalho com a Escola de Teatro?
Começo a trabalhar com eles em dezembro. Nas duas semanas antes das festas de final de ano vou definir a escalação de elenco. Eles saem com os papéis e o texto definido. Na volta, em janeiro, já começamos a ensaiar, para estrear no dia 9 de março, no Circo da Funcart.
O fato de você dirigir um clássico acrescenta algo na nova fase do seu trabalho?
Acrescenta a perspectiva puramente diretiva. Eu sou obrigado a dialogar com outro dramaturgo, extremamente sofisticado, que tem uma linguagem familiar já que é considerado um dos grandes influenciadores da dramaturgia moderna. Dialogar não só como encenador, mas também como dramaturgo. Estou me achando muito mais dramaturgo do que qualquer outra coisa nesse momento. Claro que tenho muito o que crescer nesse sentido. Não vou deixar de atuar. Mas fiquei deveras desiludido, sobretudo tendo em vista o fato que eu estava num meio complicado, onde o que se exige do ator não é bem o que eu gostaria. Na medida em que eu não tenho isso, prefiro me retirar desse meio, por enquanto. Prefiro ter a minha companhia. Não posso mais me submeter a ninguém, não tenho mais idade para isso.
Quando você se remete a esse meio, está falando exclusivamente da televisão?
Não, é o meio do ator de maneira geral, tanto no teatro como na TV. É claro que o meio televisivo determina muita coisa. Pra mim, foi importantíssimo ter essa vivência e continuar tendo. Só que isso não me motivou, francamente, a investir em mim como ator, a acreditar na minha carreira como ator, exclusivamente. Para atuar, ou você tem um grupo que realmente possibilite o seu crescimento ou vai ter que estar passando de obra comercial para obra comercial. Eu devo ter muito mais dificuldades perseguindo o meu caminho do que utilizando esse mercado. Acontece que é uma roleta. Na televisão, o cara vem, te paga, você faz e acabou. Se exige mais que isso de televisão, você tá louco. E se acha que através de algum papel numa novela vai crescer como ator, também está louco. A não ser que seja um grande papel, numa grande novela e seu papel tenha um grande desenvolvimento, coisa raríssima de acontecer hoje em dia. Tudo isso coloca o ator numa situação: ou ele está fazendo uma novelinha pra se sustentar ou está fazendo um espetáculo com alguém que nem sabe quem é. Na realidade, é uma grande piada de mau gosto. É uma vidinha muito miserável, onde você é títere demais. Hoje em dia, ou você busca uma certa autonomia ou está ralado.





