A retratação das novidades na medicina nas novelas virou uma epidemia de alguns anos para cá. Desde que Glória Perez começou a abordar a tecnologia na medicina através de suas novelas, em ''Barriga de Aluguel'', na Globo, há 21 anos, a autora não só virou referência no assunto ao retratar diversas doenças e inovações genéticas e clínicas, como também passou a despertar a atenção dos demais autores para o tema. Basta observar, por exemplo, as histórias com personagens que fazem inseminação artificial, sofrem com algum tipo de doença ou passam por procedimentos avançados explicados nas produções, como engenharia genética, testes de DNA e transplante de órgãos.
Em ''Fina Estampa'', o autor Aguinaldo Silva trata da fertilização ''in vitro'', valorizando as questões emocionais das mulheres que decidem ter filhos com idade mais avançada, como é o caso da personagem Esther, vivida por Júlia Lemmertz. Ao saber que o marido não pode gerar filhos, ela recorre à médica Danielle Fraser, vivida por Renata Sorrah, e descobre que também não pode ser mãe com seus óvulos já maduros. Com isso, passa por um procedimento de inseminação ''in vitro'' com o óvulo de outra mulher fecundado em sua barriga. ''Estou muito surpresa com esse avanço da Medicina. Estudei muito sobre o tema, visitei clínicas e é muito bom poder mostrar o progresso contemporâneo de uma mulher poder ser mãe, mesmo não tendo um filho biológico'', analisa Renata Sorrah. ''Isso acontece muito com as mulheres adiando cada vez mais o momento de interromper a carreira para gerar um filho'', observa Aguinaldo.
Já em ''A Vida da Gente'', a autora Lícia Manzo também aborda o tema da inseminação artificial, questionando os valores familiares e a ética nesse procedimento. Afinal, Lorenzo, papel de Leonardo Medeiros, vende seu sêmen para o irmão Jonas, que fez vasectomia. Jonas, papel de Paulo Betti, decide fecundar artificialmente sua mulher Cris, interpretada por Regiane Alves. ''O Jonas compra o sêmen do irmão e isso complica a relação familiar do Lorenzo, que vira tio e pai do seu sobrinho. Essa questão ética é importante demais ser ressaltada'', avalia Leonardo Medeiros. ''Temos de explorar esses assuntos de forma responsável, com uma equipe de pesquisadores e consultores médicos'', ressalta Lícia.
Esmiuçar e explicar alguns procedimentos médicos e inovações tecnológicas faz com que as novelas possam difundir informações relevantes e esclarecedoras para grande parte do público, que muitas vezes se envolve com os temas. Prova disso foi quando Glória Perez fez uma campanha através de ''merchandising social'' para a doação de órgãos na novela ''De Corpo e Alma''. Na história, a personagem Betina, de Bruna Lombardi, morre em um acidente de carro e seu coração é transplantado para a jovem Paloma, de Cristiana Oliveira. Na semana de estreia da novela, o InCor - Instituto do Coração, em São Paulo -, que estava há dois meses sem receber doações de órgãos, teve nove doações em poucos dias. ''Sempre inovei mostrando esses avanços. Quando apresentei a sinopse de 'Barriga de Aluguel' na Globo, a trama foi engavetada por seis anos porque acharam que era 'ficção científica'. Fiquei triste e fui para a Manchete'', lembra Glória.
Foi na Manchete que a autora novamente decidiu abordar outro tema polêmico na Medicina na trama ''Carmem'', exibida em 1987: a Aids. Neste período, da década de 1980, ainda se sabia muito pouco sobre a doença. Para não cair na armadilha de associá-la aos homossexuais, como era comum na época, a autora escolheu uma personagem dona de casa e pacata para contrair o vírus em uma transfusão de sangue. Através da personagem, mostrou que o portador não precisava ser isolado da sociedade e que a doença só era transmitida através do sangue ou contato sexual. Glória também assinou a polêmica trama ''O Clone'', que falava sobre clonagem humana logo após médicos especializados apresentarem ao mundo a ovelha Dolly, primeiro mamífero a ser clonado com sucesso através de uma célula adulta. ''Queria falar de algo inovador e sobre o que os avanços da Medicina trazem para a humanidade. Eu que introduzi o 'merchandising social' nas novelas'', observa Glória.
Em ''Vidas em Jogo'', na Record, a autora Cristianne Fridman também fala sobre a Aids em um casal onde a mulher é contaminada e o marido não. Trata-se de Andréa e Lucas, de Simone Spoladore e Marcos Pitombo. ''Hoje em dia, podemos mostrar que uma pessoa soropositiva pode viver mais tempo com os tratamentos. A Andréa vai querer ter filhos com o Lucas controlando sua carga viral. Vou discutir se uma pessoa portadora do vírus HIV pode ter filhos com os avanços da Medicina sem passar o vírus para o feto'', explica Cristianne.

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