É incrível em nossa sociedade como o artista é visto neste (não) lugar que fica entre trabalhador e vagabundo. Por sorte. Senão a atividade artística já teria sido rotulada, marcada e delimitada em seus espaços de atuação, como qualquer outra profissão, que hoje comemora o Dia do Trabalho, com folga. A sociedade especializada, fragmentada, separou o ócio do trabalho, criando um abismo entre a plenitude e a obrigação de cada pessoa na execução de seus compromissos do dia-a-dia. Trabalha-se mais por obrigação do quer por prazer. O resultado fomenta a insatisfação geral.
Mas qual seria a possibilidade de viver um outro estado de coisas? Um estado de arte onde tempo livre e tempo ocupado fossem parte de um só momento? Talvez, até pela própria indefinição que se acerca do papel da arte, ela possa apontar alguns caminhos neste debate. Podemos pensar, primeiramente em um estado de arte sem arte. Quer dizer, onde arte e vida sejam fundidas na existência como uma só percepção do mundo. Sem obras. Sem resultados qualificativos, sem resíduos, somente processos de continuidade e possibilidades de diálogos e trocas.
Se daria na fundação de um lugar e de um momento específico para cada ocasião potencializando relações, criando envolvimentos e comprometimentos com as causas mantenedoras dos modos de vida que cada um, que cada grupo está sujeito em seu contexto cultural. Sem tirar nada do lugar. Sem roubar o tempo de ninguém. Uma estética do desapego em direção ao Nada, pode ser. Ao Nirvana do qual falam os iluminados.
Um Estado de arte sem arte exige que o nada deixe de ser funcionalizado. Como o que é feito com o direito de descanso ao trabalhador. O direito ao lazer. O direito de acesso ao lúdico. Oferecer uma ocupação ao trabalhador em seu horário de descanso, não deixa de ser uma perversidade, não? O Dia do Trabalho poderia se tornar também uma reflexão sobre a necessidade do trabalho. Ninguém diz, mas não é a religião, mas o trabalho o ópio do povo! Tá dito.
Para nossa sociedade judaico-cristã o ócio é um pecado, mas o negócio e o ócio sagrado, o sacerdócio, estes estão livres e abertos para o comércio. Dizem que o ócio desestabiliza a economia. Mas vivemos sob a diretriz dos economistas e trabalhamos tanto para no fim constatar que justamente a economia anda desestabilizada... Destruimos flora, fauna, matamos rios e lagos e culturas e nações, sujamos o ambiente, alteramos o clima do planeta, pra quê? Pelo direito ao cafezinho no horário de trabalho? Férias remuneradas? Pelo bingo, o jogo de damas, o dominó, o jogo de xadrez na aposentadoria? É pouco!
O nada é maior. Um Estado de arte sem arte onde a cultura estivesse a favor da vida jamais dividiria o tempo de seus cidadãos entre horas de trabalho e horas de folga. Isto seria uma só coisa. Mas nesse caso, o nada não seria passivo da ação, seria parte do movimento, onde o nada fazer fosse também fazer.
Se pudermos usar o Dia do Trabalho para questionar não só o trabalho, mas os valores cultuados em nossa sociedade, entenderemos que a separação entre o ócio e o trabalho é parte de uma dinâmica em que o trabalho nos foi imposto quase como uma ordem divina e o ócio só é permitido para uma pequena elite tolerada pelo Estado pai-patrão, espaço este ocupado geralmente pelos chamados ‘‘artistas’’, sem vínculos com a realidade, mas instrumentalizados e funcionalizados para exercerem o ócio, separados dos mortais comuns com uma capa escrito ‘‘gênio’’ no peito. O que acaba sendo um desrespeito à própria noção da arte enquanto forma de perceber o homem como parte indivisível do mundo e também ao mundo do trabalho, que vira uma coisa chata, ao invés de algo prazeroso. Unir arte e vida, de fato, essa vem a ser a grande arte. E não termos mais dia do trabalho para ser comemorado. Tudo será comemorado.
[email protected]

mockup