DIA DO FOLCLORE - Folclore brasileiro vai muito além do saci
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local
Quem nunca ouviu falar de saci pererê, lobisomem ou mula-sem-cabeça? Mistura de fatos reais, históricos e fantasias para passar alguma mensagem, o folclore brasileiro é rico. Porém, infelizmente, essa cultura popular - que reserva muitas outras histórias, costumes e mitos - tem sido pouco explorada. Geralmente passadas de geração para geração, ao longo das últimas décadas, foram perdendo a força, sobretudo pelo processo de desenvolvimento urbano do País. No último dia 22 de agosto foi comemorado o Dia do Folclore e pode-se afirmar que os personagens vão muito além destes nomes.
Em Londrina, a Vila Cultural Flapt atua no campo da educação não-formal, valorizando a cultura popular brasileira. Idealizada e coordenada por doze anos pela professora doutora em Antropologia Social Elena Maria Andrei (que faleceu há duas semanas), a vila tenta resgatar os principais folguedos (festas ou manifestações populares), bem como realizar importantes pesquisas nas áreas de cultura afro-brasileira e educação escolar. Por meio desse conteúdo, incentivam o empoderamento e mudança social de crianças e adolescentes. A Vila Cultural funciona, atualmente, no Conjunto Aquiles Stenghel, região norte, com várias atividades, incluindo lúdicas, arte e dança, em sede própria e na Associação de Moradores.
Arte-educadora na vila, Vanessa Nakadomari explica que, com o uso da literatura no Clube do Livro, ela introduz algum tema da cultura popular às crianças de forma lúdica, ampliando seus conhecimentos e levando a uma reflexão sobre seu papel na sociedade e o respeito ao outro. "Tentamos desmistificar alguns conceitos reforçados pela imposição de padrões e estereótipos sociais. Muitos folguedos são fruto de costumes de um povo, e, no Brasil, devido à quantidade de imigrantes, a influência é vasta. Existem inúmeros folguedos e personagens que compõem o folclore brasileiro", explica. Primeiramente, ela faz uma exposição oral do tema para, em seguida, ser desenvolvido algum trabalho como dança, teatro ou produção de texto.
Em 2015, a equipe da vila dividiu o ano em quatro eixos de trabalho: Maracatu, Boi de Mamão, Pastoril e Moitará. "No caso do Maracatu, por exemplo, exploramos o contexto histórico com a utilização de textos e imagens, mostrando que se trata de uma celebração. Apresentamos os personagens desse folguedo, que fazem referências aos orixás e aos reis e rainhas africanos que são coroados nessa festa. Mostramos ainda que possui um ritmo característico proveniente de alguns instrumentos." O resultado foi a montagem da representação de um cortejo de maracatu que foi apresentado durante o Carnaval de rua em fevereiro deste ano, com direito a roupas e tambores típicos.
Grande parte dos acessórios e cenário são produzidos pelas próprias crianças após o primeiro contato com o tema. "Neste cortejo as crianças também desfilaram com as famosas 'maricotas', aquelas bonecas grandes com longos vestidos e braços, que fazem parte do folguedo do Boi de Mamão, tema que norteia todos os nossos trabalhos", complementa a arte-educadora.
Agora, as crianças estão aprendendo sobre o Pastoril, folguedo que celebra o nascimento de Jesus. É uma manifestação realizada no Natal, junto com a Folia de Reis e Queima da Lapinha. O Pastoril chega ao Sul vindo do Nordeste e os personagens variam de acordo com a região. "Aqui, as personagens femininas, as Pastorinhas, ganharam mais visibilidade, com destaque para a cigana, o anjo da estrela e a borboleta." Depois de aprenderem sobre esses personagens, as crianças desenvolveram um texto para teatro, que será apresentado em setembro e, agora, estão no processo de fabricação de todo o cenário. "São todos versos autorais. Será um casamento caipira."
Apoio pedagógico
Apesar de haver duas leis (10.639/03 e 11.645/08), que preveem a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileiras e dos povos indígenas, a abordagem nas escolas ainda é superficial. Para auxiliar o trabalho de professores, a vila cultura disponibiliza um material de apoio no desenvolvimento das atividades curriculares. "Ajudar instituições e professores com esses conteúdos é um dos objetivos da vila", enfatiza Vanessa.
O material em questão foi desenvolvido sob orientação da professora Elena e está acessível na página do Facebook da vila. "Este material é direcionado aos educadores para que apliquem em suas aulas os conteúdos das leis. Os professores que tiverem interesse também podem participar conosco das oficinas realizadas com as crianças", reforça.