DIA DE CAMPO - Biodiversidade na prática
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segunda-feira, 03 de abril de 2006
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
As fotos antigas de ex-funcionários estão espalhadas pelo antigo barracão de café. Além desses personagens, fotografias do processo do plantio e colheita do que já foi chamado de ''ouro verde'' do Paraná chamam a atenção dos alunos do terceiro ano do Ensino Médio do Colégio Estadual Rafaela Jorge de Oliveira, de Florestópolis (73 km ao norte de Londrina), que recentemente participaram de uma visita monitorada na Fazenda Binimi, em Rolândia (25 km a oeste de Londrina) como parte da aula de biodiversidade tema transversal que foi trabalhado pela escola. A fazenda pertence à família desde 1936, quando os primeiros integrantes chegaram à cidade refugiando-se dos horrores da Segunda Guerra Mundial. O nome da fazenda faz referência a um poema de Heinrich Heine que considera ''Binimi'' como ''a fonte da eterna juventude''.
A visita começa pelo barracão, em um exercício prático de reflexão. A partir das imagens os alunos são convidados a perceber o quanto o processo de desenvolvimento está atrelado ao esforço individual de cada pessoa que passou pela fazenda. Depois do bate-papo, é hora de sair a campo.
Logo de cara, o ambientalista Daniel Steidle dá as primeiras recomedações. Tomar cuidado com o sol e mosquitos fazem parte dos cuidados básicos. Não tocar nas folhas também, já que algumas espécies de plantas podem causar alergia, como a ''pessegueiro bravo'', explicou Steidle, acompanhado pelos filhos pequenos, que atentamente seguiam as orientações do pai, e pela sua mãe, Ruth Steidle, 68 anos.
Na entrada da mata, os alunos são novamente convidados a exercitar os recursos sensoriais. ''Que cheiros vocês conseguem perceber?'', ''Quais os sons que sabem identificar?'', ''Qual a temperatura ambiente dentro da mata?'', questionou Steidle. E para a turma acostumada com o ambiente urbano pareceu ser uma grande novidade o exercício de percepção. Diferente do ambiente escolar, o espaço natural colabora para aguçar os sentidos.
O que causou espanto foi perceber que a mata, com tanta diversidade de vegetação, é resultado de reflorestamento. O espaço há 13 anos era usado como pasto, mas a mudança de atividade e empobrecimento do solo incentivaram a família a investir na recuperação da região. E valeu a pena. Nem parece que a mata não é nativa tamanha é a beleza de tantas variedades de plantas.
''Paramos de interferir nos 20% de mata nativa que havia e a área toda foi se regenerando naturalmente. Sem a interferência humana, voltou a ser floresta outra vez'', destacou Steidle.
Pelo caminho, os alunos puderam provar de uma fruta chamada araticum, que lembra pinha, fruta muito comum no Nordeste. Um dos alunos chegou a comentar que deveria ter trazido a avó para o passeio. ''Ela teria adorado'', comentou.
Depois da caminhada, os alunos se depararam com uma grande rocha natural de basalto próximo a um rio. Brincando de ''Indiana Jones'', os alunos foram alertados a não pisarem nos trechos de terra sobre a rocha. ''Observem as marcas que estão na terra. São pistas dos animais que passaram por aqui'', lembrou Steidle, citando que poderiam haver pegadas de lobo-do-mato, jaguatirica ou capivara.
Num exercício lúdico, os alunos foram convidados a desenhar o cenário que estavam visitando. Steidle os instigava a perceber o que o ''ambiente tem de vida''. ''Observem a biodiversidade que existe aqui. Sempre descubro coisas novas quando visito esse lugar'', afirmou. Os seus filhos Endi e Erê (cujos nomes são de origem indígena) se divertiram ao pisar nas pequenas poças de lama que se formavam pelo caminho. ''A criança não se importa de se sujar, de pôr a mão na lama... formas de aprender o que desaprendemos quando viramos adultos'', observou.
A padronização que muitas vezes o próprio sistema formal de educação impõe também foi questionada ao serem observados os desenhos que os alunos produziram, muito semelhantes entre si.
Com uma lupa, um vidro com água e uma peneira os alunos puderam observar na prática a biodiversidade que existe em um pequena quantidade de barro que foi peneirada e colocada no vidro. Entre os bichinhos avistados, as ''pulgas d'água'' chamaram a atenção dos alunos. ''Se tivesse só um bicho aqui, a água seria pobre, não haveria biodiversidade'', disse Steidle.
Como tarefa de casa, os alunos foram estimulados a fazer um catálogo dos bichos que existem em Florestópolis e a observar a qualidade da água dos rios da cidade. ''Quando a gente percebe a riqueza local, é natural que façamos um esforço para preservar. Cuidamos daquilo que nos é precioso'', ressaltou.
Outro momento divertido foi acompanhar a soltura de um filhote de cobra que foi capturado próximo à casa do ambientalista. No verão, ele contou que é comum as cobras procurarem o piso frio da sua casa para se refrescarem, mas que aprendeu técnicas de capturá-las e assim proteger a família sem ter que matar o animal. Só no ano passado, foram seis jararacas capturadas.
Com olhos atentos, os alunos escutaram as explicações de que normalmente o pulo das cobras é de um terço do tamanho delas e que a língua é o sensor para perceberem calor e umidade. Outro recado importante foi que em caso de picada de cobra não se deve fazer torniquete devido ao perigo do veneno se concentrar e acabar causando a degeneração das fibras musculares. E foi inevitável uma certa sensação de medo ao virem o filhotinho tão esperto se rastejar em direção ao rio e sumir rapidamente. Uma lição prática também de sobrevivência.


