Acostumada a lidar com o preconceito racial no seu dia a dia desde a infância, a professora de matemática Celiana Lucia da Silva, de 48 anos, faz questão de tratar o tema como prioridade na sua rotina escolar, variando a forma de trabalhar o assunto a cada ano. Ciente do seu poder de mediação junto aos alunos, ela vê a escola como o espaço ideal para se aprender a lidar com as diferenças. Se o respeito deve ser aprendido em casa, na escola o tema deve ser ampliado. "Hoje há pouco diálogo na família e a escola precisa promover situações onde isso aconteça", afirma.
Aproveitando a proximidade do Dia da Consciência Negra, celebrado no dia 20 de novembro, em referência à data da morte do líder negro Zumbi dos Palmares, há dois meses ela vem trabalhando a temática do racismo de forma mais ampliada com os seus alunos do sexto e nono ano do Colégio Estadual Marcelino Champagnat, envolvendo também o estudo dos direitos humanos e direitos civis.
"É preciso ampliar o leque dessa questão porque, no fundo, tudo isso envolve um único objetivo de que todos possam viver em paz independente da cor, da religião e da condição social. É preciso estar ciente de que o racismo deve ser desconstruído; não é só a questão do negro que está envolvida", defende, lembrando de situações conflitantes que abarcam o terrorismo, a miséria e a discriminação de modo geral.
O trabalho ainda incluiu seminários sobre pesquisa biográfica de lideranças e pacifistas internacionais como Martin Luther King, Nelson Mandela, Madre Teresa de Calcutá, Mahatma Gandhi, Herbert José de Souza, o Betinho, e a jovem ativista paquistanesa Malala Yousafzai, de 17 anos - premiada este ano com o Nobel da Paz, ela se tornou símbolo da luta pelo direitos humanos das mulheres e do acesso à educação após sobreviver a um atentado terrorista há dois anos.
Vídeos sobre essas personalidades foram exibidos, semana passada, no auditório do colégio, e houve debates com os alunos. Para esta semana, ainda está prevista a leitura mais aprofundada sobre a trajetória do Zumbi dos Palmares.
"Os alunos se surpreenderam com a história de vida dos personagens pesquisados e até se emocionaram. Outros chegam a dizer que não imaginavam o que os negros passaram e passam", conta a professora. "É importante que percebam que cada um pode fazer a diferença e lutar pelo bem comum. Na matemática, menos um mais menos um não é zero, é menos dois", comenta.

Racismo cibernético
Aluna do quarto ano do curso de Direito da Faculdade Arthur Thomas, em Londrina, recentemente Celiana passou por mais uma situação lamentável de racismo, em que alguns alunos da sua turma postaram fotos e cometários racistas em referência a ela, pela rede social WhatsApp.
Um boletim de ocorrência foi registrado e o caso já está sendo investigado pelo Ministério Público, que prevê prazo de aproximadamente 40 dias para encaminhar denúncia ao juiz. "Tem horas que cansa um pouco, dá vontade de se isolar e desistir. Mas quando a gente observa a história de luta dos outros, fica com mais força e energia. O acesso à tecnologia não pode servir como ferramenta para atacar, ofender e humilhar as pessoas, aflorando assim o preconceito. Já houve melhorias quanto às políticas públicas voltadas ao negro, mas isso é muito recente e há um longo caminho pela frente em prol da igualdade", admite.

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