Antônio Mariano Júnior
Entre todos os seres vivos coexiste a morte e a vida. Uma tensão entre duas forças contrárias que é sentida de forma angustiante e figurada com traços assustadores. Tais palavras foram extraídas do texto, assinado pelo artista gráfico Cláudio da Costa e o poeta e dramaturgo Maurício Arruda Mendonça, que integra o projeto ‘‘O Devorador dos Devorados’’. São, na verdade, infopoemas - recurso em que se utilizam imagens digitalizadas e, claro, poemas. No caso dos dois artistas, percebe-se que as obras vêm com certa linguagem publicitária.
Em palavras mais simples, ‘‘O Devorador dos Devorados’’ trata a morte de maneira lírica. No total, 9 trabalhos medindo 1,20 m por 80 centímetros que demoraram quase seis meses para ser produzidos. A idéia partiu de Cláudio da Costa que, em 96, fez uma exposição de infografia em que manipulou cromaticamente imagens, através do computador, e acrescentou-lhes fragmentos de textos.
Desta vez, o artista gráfico optou por interferir pouco nas imagens. Ou seja, as fotos, tiradas por ele, receberam apenas uma película colorida sem que isso, no entanto, beirasse a simplicidade gráfica. As imagens escolhidas foram de animais mortos - cachorro, gato, frango assado (uma forma de expressar ironia), peixe, pássaros e porcos. Por que bichos e não o homem? A resposta é enigmática: ‘‘O homem é o único bicho que come todos os outros bichos, inclusive metaforicamente’’- diz o artista gráfico.
Apenas dois trabalhos de ‘‘O Devorador dos Devorados’’ não envolvem animais irracionais - um é de um osso fêmur humano e outro com filmes fotográficos. À medida que a parte gráfica ia ficando pronta, Costa as remetia para Maurício Arruda Mendonça. Por sua vez, o poeta e dramaturgo, criou frases poéticas através das imagens e motes (impressos) sugeridos pelo parceiro.
Por exemplo: as fotos digitalizadas de pés de porco foram com os seguintes dizeres: ‘‘Todo pé de porco pede um porco.’’ Ao que o poeta e dramaturgo manuscreveu: ‘‘Pérolas, pra quê te quero?’’
Já sobre o fêmur humano o artista gráfico intuiu a seguinte indagação: ‘‘Se a vida é tão bela por que queremos acabar com ela?’’ Da outra parte, Maurício Arruda Mendonça tascou: ‘‘Narcisos leprosos arrancam seus olhos.’’ ‘‘Sentia e escrevia, sem mistério, sem ficar pensando muito’’- revela o poeta.
Vistas nuas e cruas as fotos até causam má impressão, como a do corpo de um cachorro estraçalhado pelas rodas de um automóvel. Manipuladas através do computador, a imagem ganhou, digamos, um tratamento visual mais delicado, mas não menos impactante, das mãos de Cláudio Costa. Maurício Arruda Mendonça fez sua parte e o resultado é um instigante infopoema.
Sim, ‘‘O Devorador dos Devorados’’ é composto por obras de forte impacto visual e dispara também conotações poéticas. Para que não ficassem restritas apenas aos navegadores da Internet, Cláudio da Costa resolveu reproduzi-las através de papel com laminação e plotagem eletrostática para que um público maior pudesse conhecê-las.
E isso quase aconteceu. Porém, faltando 15 dias para a estréia, Cláudio da Costa resolveu desistir de levar sua instalação a uma prestigiada galeria de Londrina. Segundo ele, a curadora não teria aceitado fazer algumas alterações no espaço.
Para expressar toda proposta estética embutida no projeto seria necessário que a galeria fosse iluminada apenas por uma luz negra (para dar um efeito holográfico nas obras), música na volume máximo e direto (o tema escolhido foi ‘‘Rain’’, de Ryuichi Sakamoto, remixada e que serviu de trilha sonora para a produção de Cláudio), spots de luz sobre todos os infopoemas e que uma das paredes fosse pintada de verde (miticamente representando a cor da morte).
‘‘Não adianta adaptar o espaço porque perderia o clima’’- diz o artista gráfico salientando que para sua instalação seria necessário um espaço de pelo menos 60 metros quadrados. ‘‘É preciso abrir os olhos para certos trabalhos diferenciados’’- reforça Maurício Arruda Mendonça.
Entretanto, ‘‘O Devorador dos Devorados’’ deve ser visto pela primeira vez pelo público de Campinas (SP). É que, de acordo com Cláudio Costa, há dois espaços que se mostraram interessados em abrigar a instalação. Os contatos foram iniciados na semana passada.O artista gráfico Cláudio da Costa e o poeta e dramaturgo Maurício Arruda Mendonça criam infopoemas de grande impacto visual
Reprodução‘‘Eis por que/ tantas pessoas nos parecem/ subitamente transparentes’’Reprodução‘‘Abandonar a consciência precária/ que nos aponta as incertezas das trilhas’’Reprodução‘‘Quem sabe, um dia,/ equívocos sejam critérios’’Reprodução‘‘O coração, caverna/ A alma, ventania/ A mente, inefável armadilha’’Milton DóriaMaurício Arruda Mendonça e Cláudio da Costa: os criadores dos infopoemas

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