Devoção explícita ao deus do rock
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de outubro de 1998
Antônio Mariano Júnior 
Sai com as mãos vazias. Logo em seguida, entra com as mãos abarrotadas de materiais e materiais que são depositados na mesa de centro da sala. O vaivém parece interminável.
- Eu não consigo entrevistá-la!
- Silmara, vem aqui que ele quer conversar com você, grita Jeferson, o marido, enquanto vai repassando algumas informações sobre Ele. Ah, sim, no videocassete rola um dos shows que Ele fez. Silmara volta à sala. Com as mãos cheias de pastas e materiais, obviamente. Outro dilema: o casal quer porque quer mostrar um trecho especial contido na fita de vídeo. E manda fita para frente, manda a fita para trás. Para frente, para trás. Stop. Finalmente chega no ponto desejado.
Ele vai para o canto do palco, cumprimenta a platéia. De repente, Ele desce do palco e, ao som de Love me Tender, vai beijando as fãs. Acho que já mataram a charada: Ele é Elvis Presley, o eterno Rei do Rock, idolatrado pela professora Silmara Renata Pinheiro Inácio, 28 anos, e pelo funcionário público Jeferson Luiz Inácio, 31 anos, de Londrina. Ambos idolatram o ídolo a ponto de resolverem montar um fã-clube londrinense - o Taking Care And Loving Elvis (Tomando Conta e Amando Elvis), o TCLE, fundado em janeiro deste ano.
É impressionante a idolatria que Silmara e Jeferson nutrem por Elvis Presley. Quando recomeçam a falar sobre o que os levou a montar o fã-clube, os olhos se voltam quase como uma coreografia ao vídeo. Elvis ainda continua cantando Love Me Tender quando, de repente, uma fã mais exaltada sobe ao palco o agarra e tasca-lhe um beijo daqueles.
Arquivo PessoalSilmara junto ao túmulo de Elvis, no Meditation Garden- Olha aqui, Júnior, diz Silmara mostrando os pêlos do braço eriçados. Um dia eu estava assistindo a esse especial e cheguei a contar quantos beijos ele deu nas fãs. Foram mais de quarenta.
Jeferson, por sua vez, continua maravilhado diante do vídeo. Para o casal londrinense, Elvis Presley não morreu. O que morreu foi a matéria, a lembrança não - diz Silmara. Bem, o amor pelo Rei do Rock atingiu primeiramente Silmara. Tudo começou quando ela era criança. O pai dela virava e mexia colocava um disco - de coletâneas - de Elvis Presley. Mas a música que ele mais gostava era Its Now or Never. Em volume altíssimo, já que tinha problemas de audição.
Obrigatoriamente, Silmara e os irmãos ouviam. Cada um de nós admirava o Elvis com respectiva intensidade - lembra. Mas foi ela, justamente ela quem Mister Presley pegou de jeito. Foi a partir da morte do cantor, em 16 de agosto de 77, aos 42 anos, é que Silmara, aos 7 anos, comovida, passou a ter uma admiração ainda maior por Elvis. A veneração foi tomando tamanha forma ao ponto de ela, como boa tiete, começar a colecionar tudo o que saiu sobre o ídolo em revistas, discos, etc. E nunca mais parou.
Em 89, ela começou a namorar Jeferson. Que por sua vez conhecia apenas três músicas do ídolo da amada. Para mim, até então, ele era só um cara de topete e que era roqueiro. Nunca fui apegado a ídolos, a artistas- lembra-se Jeferson. Quando começamos a namorar ela não demonstrou muito que era fanática por Elvis. Mas aos poucos fui vendo o quanto ela gostava de Elvis e passei a admirá-la- complementa ele.
Silmara confirma que no início do namoro não deixou bem claro o que sentia por Elvis. Ela explica o porquê: Eu queria que o Jeferson descobrisse por si o valor de Elvis. O namoro engrenou. Virou casamento. Mais que marido de Silmara, Jeferson Inácio acabou se tornando mais um fã de carteirinha de Elvis. Sabe tudo sobre o ídolo. Quando tem dúvidas, pergunta à esposa. E vice-versa. Às vezes parece um jogral. Bacana mesmo!
ReproduçãoJeferson encarna o ídolo, num truque da tecnologiaBem, como devotos dessa entidade musical, que vendeu, segundo eles, mais de 2 bilhões de discos mundo afora, tinham que ir à meca. Ou seja, a Memphis, Tennessee (EUA), mais precisamente na Graceland, a mansão que o Rei do Rock morou e que foi transformada em museu. A primeira vez foi em agosto 96. Era um sonho que eu tinha há 19 anos- conta Silmara. Ela começou a chorar no avião- relembra Jeferson.
A mais recente foi em agosto deste ano. Em ambas as oportunidades - onde fãs do mundo inteiro se reúnem durante a Elvis Week, semana inteira dedicada ao Rei do Rock e que culmina sempre no dia 16 de agosto, data de sua morte - visitaram a Graceland, pousaram os olhos sobre as preciosidades lá contidas e, de quebra, trouxeram vários souvenirs.
Entre as curiosidades - para o casal, raridades - estão, além de pôsteres, bottons, pins, camisetas, dois fios de carpet verde devidamente arrancada da Jungle Room, uma das salas da mansão.
Silmara e Jeferson - cuja maior frustração foi não terem visto nenhum show do ídolo - chegaram ao cúmulo de adquirir lembranças como um litro de água mineral da marca Mountains Valley Spring, que Elvis tomava durante os shows, e um frasco do perfume Jovan Musk, um dos preferidos de Elvis.
Mas algo originalmente pertencente ao Rei do Rock o casal não tem. É que, quando há eventuais leilões, objetos que pertenciam ao Rei do Rock são disputados quase a tapas e por milhares de dólares. Para mim, um daqueles lenços que ele jogava já me deixaria inicialmente satisfeita - diz Silmara.
Ah, claro, na casa dos Inácio não se toca outra coisa a não ser músicas de Elvis Presley. E o gosto pelo ídolo certamente será repassado aos três filhos do casal. Eu não me canso nunca de ouvir as músicas dele. Mas quando sinto que o pessoal está começando a se cansar, eu mudo só o gênero- diz Silmara. E, obviamente, os dois têm uma música que serve de trilha sonora para o casamento. É Make The World Go Away (Faça o Mundo Ir-se Embora). Que por sinal ajudou a reconciliação após uma dessas briguinhas comuns a casais. Prova de que Elvis tem voz ativa dentro da casa dos Inácio.


