Sai com as mãos vazias. Logo em seguida, entra com as mãos abarrotadas de materiais e materiais que são depositados na mesa de centro da sala. O vaivém parece interminável.
- Eu não consigo entrevistá-la!
- Silmara, vem aqui que ele quer conversar com você, grita Jeferson, o marido, enquanto vai repassando algumas informações sobre ‘‘Ele’’. Ah, sim, no videocassete rola um dos shows que ‘‘Ele’’ fez. Silmara volta à sala. Com as mãos cheias de pastas e materiais, obviamente. Outro dilema: o casal quer porque quer mostrar um trecho especial contido na fita de vídeo. E manda fita para frente, manda a fita para trás. Para frente, para trás. Stop. Finalmente chega no ponto desejado.
‘‘Ele’’ vai para o canto do palco, cumprimenta a platéia. De repente, ‘‘Ele’’ desce do palco e, ao som de ‘‘Love me Tender’’, vai beijando as fãs. Acho que já mataram a charada: ‘‘Ele’’ é Elvis Presley, o eterno Rei do Rock, idolatrado pela professora Silmara Renata Pinheiro Inácio, 28 anos, e pelo funcionário público Jeferson Luiz Inácio, 31 anos, de Londrina. Ambos idolatram o ídolo a ponto de resolverem montar um fã-clube londrinense - o Taking Care And Loving Elvis (‘‘Tomando Conta e Amando Elvis’’), o TCLE, fundado em janeiro deste ano.
É impressionante a idolatria que Silmara e Jeferson nutrem por Elvis Presley. Quando recomeçam a falar sobre o que os levou a montar o fã-clube, os olhos se voltam quase como uma coreografia ao vídeo. Elvis ainda continua cantando ‘‘Love Me Tender’’ quando, de repente, uma fã mais exaltada sobe ao palco o agarra e tasca-lhe um beijo daqueles.
Arquivo PessoalSilmara junto ao túmulo de Elvis, no Meditation Garden- Olha aqui, Júnior, diz Silmara mostrando os pêlos do braço eriçados. Um dia eu estava assistindo a esse especial e cheguei a contar quantos beijos ele deu nas fãs. Foram mais de quarenta.
Jeferson, por sua vez, continua maravilhado diante do vídeo. Para o casal londrinense, Elvis Presley não morreu. ‘‘O que morreu foi a matéria, a lembrança não’’ - diz Silmara. Bem, o amor pelo Rei do Rock atingiu primeiramente Silmara. Tudo começou quando ela era criança. O pai dela virava e mexia colocava um disco - de coletâneas - de Elvis Presley. Mas a música que ele mais gostava era ‘‘It’s Now or Never’’. Em volume altíssimo, já que tinha problemas de audição.
Obrigatoriamente, Silmara e os irmãos ouviam. ‘‘Cada um de nós admirava o Elvis com respectiva intensidade’’ - lembra. Mas foi ela, justamente ela quem Mister Presley pegou de jeito. Foi a partir da morte do cantor, em 16 de agosto de 77, aos 42 anos, é que Silmara, aos 7 anos, comovida, passou a ter uma admiração ainda maior por Elvis. A veneração foi tomando tamanha forma ao ponto de ela, como boa tiete, começar a colecionar tudo o que saiu sobre o ídolo em revistas, discos, etc. E nunca mais parou.
Em 89, ela começou a namorar Jeferson. Que por sua vez conhecia apenas ‘‘três músicas’’ do ídolo da amada. ‘‘Para mim, até então, ele era só um cara de topete e que era roqueiro. Nunca fui apegado a ídolos, a artistas’’- lembra-se Jeferson. ‘‘Quando começamos a namorar ela não demonstrou muito que era fanática por Elvis. Mas aos poucos fui vendo o quanto ela gostava de Elvis e passei a admirá-la’’- complementa ele.
Silmara confirma que no início do namoro não deixou bem claro o que sentia por Elvis. Ela explica o porquê: ‘‘Eu queria que o Jeferson descobrisse por si o valor de Elvis.’’ O namoro engrenou. Virou casamento. Mais que marido de Silmara, Jeferson Inácio acabou se tornando mais um fã de carteirinha de Elvis. Sabe tudo sobre o ídolo. Quando tem dúvidas, pergunta à esposa. E vice-versa. Às vezes parece um jogral. Bacana mesmo!
ReproduçãoJeferson ‘‘encarna’’ o ídolo, num truque da tecnologiaBem, como ‘‘devotos’’ dessa entidade musical, que vendeu, segundo eles, mais de 2 bilhões de discos mundo afora, tinham que ir à ‘‘meca’’. Ou seja, a Memphis, Tennessee (EUA), mais precisamente na Graceland, a mansão que o Rei do Rock morou e que foi transformada em museu. A primeira vez foi em agosto 96. ‘‘Era um sonho que eu tinha há 19 anos’’- conta Silmara. ‘‘Ela começou a chorar no avião’’- relembra Jeferson.
A mais recente foi em agosto deste ano. Em ambas as oportunidades - onde fãs do mundo inteiro se reúnem durante a ‘‘Elvis Week’’, semana inteira dedicada ao Rei do Rock e que culmina sempre no dia 16 de agosto, data de sua morte - visitaram a Graceland, pousaram os olhos sobre as preciosidades lá contidas e, de quebra, trouxeram vários souvenirs.
Entre as curiosidades - para o casal, raridades - estão, além de pôsteres, bottons, pins, camisetas, dois fios de carpet verde devidamente arrancada da ‘‘Jungle Room’’, uma das salas da mansão.
Silmara e Jeferson - cuja maior frustração foi não terem visto nenhum show do ídolo - chegaram ao cúmulo de adquirir lembranças como um litro de água mineral da marca ‘‘Mountains Valley Spring’’, que Elvis tomava durante os shows, e um frasco do perfume Jovan Musk, um dos preferidos de Elvis.
Mas algo originalmente pertencente ao Rei do Rock o casal não tem. É que, quando há eventuais leilões, objetos que pertenciam ao Rei do Rock são disputados quase a tapas e por milhares de dólares. ‘‘ Para mim, um daqueles lenços que ele jogava já me deixaria inicialmente satisfeita’’ - diz Silmara.
Ah, claro, na casa dos Inácio não se toca outra coisa a não ser músicas de Elvis Presley. E o gosto pelo ídolo certamente será repassado aos três filhos do casal. ‘‘Eu não me canso nunca de ouvir as músicas dele. Mas quando sinto que o pessoal está começando a se cansar, eu mudo só o gênero’’- diz Silmara. E, obviamente, os dois têm uma música que serve de trilha sonora para o casamento. É ‘‘Make The World Go Away’’ (‘‘Faça o Mundo Ir-se Embora’’). Que por sinal ajudou a reconciliação após uma dessas briguinhas comuns a casais. Prova de que Elvis tem voz ativa dentro da casa dos Inácio.

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