São Paulo, 11 (AE) - Ian McKellen é gay. O fato, em si, não teria maior importância se o ator de "Deuses e Monstros" não fosse militante. Ele considera "Shakespeare Apaixonado" uma fantasia hetero e, por isto, invalida o belo filme que estréia amanhã (12). "Deuses e Monstros" também estréia amanhã. Não é um mau filme, mas é um tanto confuso, principalmente se considerando a militância do intérprete. Fica meio difícil saber o que ele e o diretor Bill Condon quiseram dizer, com certeza.
A história baseia-se em incidentes da vida de James Whale. Quem é cinéfilo sabe que se trata do diretor de "Frankenstein" e "A Noiva de Frankenstein", dois clássicos de terror dos anos 30. Whale era gay. Quando o filme começa, ele já tem 60 anos e está afastado do cinema. Tem uma fixação no jardineiro interpretado por Brendan Fraser. Brincam de gato e rato. Fraser finge que não sabe o que o outro quer e se escandaliza quando a amante garçonete, interpretada por Lolita Davidovich, sugere que Whale tem intenções libidinosas em relação a ele. Travam o melhor diálogo do filme: "Mas ele é um velho", diz Fraser. "Os velhos não pensam em outra coisa", retruca Lolita.
Na verdade, "Deuses e Monstros" é um filme sobre fantasias destrutivas que povoam o imaginário homossexual. Whale, o deus que criou monstros na tela, vive entre esses extremos na realidade. Numa cena, quase força o jardineiro a matá-lo. O fime é visto da perspectiva de Fraser, que sobrevive para contar a história. McKellen e Condon sugerem que existe uma certa banalização na, digamos, "normalidade".
O filme não poupa os mitos de Hollywood. Outro diretor cultuado, George Cukor - do musical "My Fair Lady" e das antigas comédias com Katharine Hepburn e Spencer Tracy -, é entregue como companheiro de orgias de Whale. Há um ressentimento entre os dois quando se reencontram numa recepção em homenagem à princesa Margareth, da Inglaterra. Não falta a própria noiva de Frankenstein, Elsa Lanchester, que na vida real era casada com Charles Laughton, outro dos mais notórios gays da história de Hollywood.
Poderia ser um bom e até grande filme. Mas teria de ser muito mais denso e forte. É como se "Deuses e Monstros" não tivesse coragem de ir fundo em assunto algum. Roça em diversas superfícies e não vai além disso. McKellen concorre ao Oscar de melhor ator. Não leva jeito de ganhar o prêmio e nem merece, por mais que o seu retrato de Whale se equilibre entre a nostalgia e o humor, com momentos indiscutivelmente sinceros. Lynn Redgrave concorre ao Oscar de coadjuvante por sua criação como a governanta do velho diretor. Irmã de Vanessa e filha de sir Michael, Lynn Redgrave já foi indicada para o Oscar de melhor atriz. Foi nos anos 60 e o filme chamava-se "Georgy, a Feiticeira", de Silvio Narizzano.
Diversos críticos americanos consideram a candidatura de Lynn "imbatível". Devem estar loucos. Basta comparar a interpretação dela com a de Judi Dench como a rainha Elizabeth I de "Shakespeare Apaixonado", de John Madden. Se Lynn bater Judi, a academia deveria ser fechada para exame da cabeça de seus integrantes.

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