DEUS E O SENSO DE HUMOR
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2
Há duas semanas, e-mail da assessoria de imprensa da distribuidora LumiSre avisava aos jornalistas espalhados pelo país que a estréia de Dogma no Brasil tinha sido adiada para esta segunda quinzena. No mesmo dia, horas depois, outra mensagem informava que a decisão da empresa não tinha ocorrido por nenhum tipo de pressão externa, e sim por ajuste no cronograma de lançamentos. O fato é que uma barulhenta e inutil polêmica, protagonizada de um lado pela jurássica TFP e de outro pela esperta LumiSre, acabou atuando a favor de uma ampla divulgação de Dogma.
Uma longa fila, em grande parte sob ardente sol mediterrâneo. E muita expectativa, quase ansiedade. No Festival de Cannes do ano passado, poucos filmes, entre tantos na programação, foram mais esperados e previamente incensados do que este quarto longa-metragem de Kevin Smith, prodígio indie de 29 anos lançado em 94 com o ótimo O Balconista e confirmado em 97 com o interessante e já então provocativo Procura-se Amy.
De volta à primeira exibição de Dogma em Cannes. Ao final, apenas meia platéia remanescente, e parte dela perplexa: o que poderia ter sido uma estimulante sátira teológica, uma divertida releitura subversiva de certos cânones da Bíblia, acabou numa confusa trívia pop-cultural que constantemente abdica da sutileza e da inteligência em favor de uma variedade de inócuas profanações o alvo, como ninguém ignora a esta altura, é o repertório de dogmas da Igreja Católica.
A eterna batalha entre o bem e o mal tem seu mais recente round localizado em Nova Jersey, neste crepúsculo de século 20. Um cardeal encabeça uma campanha para trazer de volta à Igreja rebanhos de fiéis desgarrados. Para isso, ele propõe a troca do crucifixo por um outro símbolo, mais popular...Dois anjos renegados, ou anjos caídos, Bartleby (Ben Affleck) e Loki, o responsável por Sodoma e Gomorra (Matt Damon), pretendem dar um jeito em todo o sistema cosmológico... Bethany (Linda Fiorentino), a heroína de Dogma, é uma mulher católica relapsa que pratica abortos e considera suas preces não atendidas. Enquanto descansa em seu quarto, o anjo Metraton (Alan Rickman) aparece de repente e a declara salvadora em potencial da humanidade...Este repentino encontro conduz Bethany a uma misteriosa jornada povoada por personagens celestiais. No meio do caminho ela encontra outro mensageiro enviado dos Céus, um apóstolo (Chris Tucker), um demônio, dois profetas (um deles o próprio diretor), uma musa celestial (Salma Hayek) que faz strip-tease e até Deus, na pele (mas não na voz) da cult Alanis Morrisette.
O diretor-roteirista Kevin Smith, que se auto-proclama católico praticante, pretendeu questionar e quem sabe resolver seus conflitos íntimos com a Igreja aplicando literalmente os ensinamentos católicos àquilo que ele vê no mundo contemporâneo. Para isso foi ao mesmo tempo ladino e sarcástico. E foi a sua danação. Há cerca de meia dúzia de idéias interessantes pairando sobre o roteiro, mas nunca descem à terra firme como deveriam. Longe de ser sacrílego ou iconoclasta, apesar das aparências que somente enganam e enfurecem os cripto-católicos, Dogma é um filme que carrega até um certo ranço de caretice. Na verdade, Smith está mesmo é reforçando profissão de fé, particular e pública. Em confronto com A Última Tentação de Cristo, que Martin Scorsese exorcizou em 1988, Dogma é de uma inconsistência a toda prova. E como comédia, posta ao lado do genuinamente irreverente A Vida de Brian, que os alucinados do Monty Phyton cometeram em 1979, a experiência independente perde qualquer conotação de objeto provocador.





