DEUS E O DIABO EM CONFRATERNIZAÇÃO
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de agosto de 2001
Marcos Losnak<BR>De Londrina<BR>De Londrina 
Muitas pessoas desejam alcançar Deus. Sonham com a possibilidade de vê-Lo frente a frente e, se possível, tocá-Lo com as mãos. Mas quem seria capaz de se aventurar sentir Seu cheiro?
Vó Inácia Micaéla, personagem do novo romance do escritor mineiro Roberto Drummond, trilhou seus últimos anos de vida nessa direção. Para ela, se tudo possuia um aroma determinado, Deus também teria um cheiro específico. Após perder a visão, aos 60 anos de idade, passou a acreditar que sentir o cheiro de Deus era um dom reservado aos cegos.
No início de sua busca, imaginou que o cheiro de Deus seria parecido com os aromas da natureza. Algo como o cheiro da chuva ou das flores de café. Com o tempo percebeu que o cheiro de Deus era parecido com o aroma dos homens. Algo como o cheiro de suor dos amantes ou da loucura dos angustiados de paixão.
A história de Vó Inácia está em O Cheiro de Deus, que acaba de ser lançado pela Editora Objetiva. Roberto Drummond dedicou onze anos na confecção da obra. Ao longo desse tempo, realizou 23 versões manuscritas do livro. O resultado é um romance que parte da história familiar do próprio escritor para entrar no campo da ficção, do fantástico. Com forte referência ao realismo fantástico, ele avança em direção ao que começa a ser chamado de realismo sobrenatural.
Em O Cheiro de Deus, o autor narra a trajetória do clã Drummond, descendentes de imigrantes escoceses que se fixaram numa região situada na divisa entre os Estados de Minas Gerais e Espírito Santo. A matriarca da família, Vó Inácia (que se casou com o próprio tio, Vô Old Parr), se empenha em segurar as rédeas do poder na pequena cidade de Cruz dos Homens. Vive em constante guerra com um certo Coronel Bim Bim, que possui uma legião de jagunços mandando e desmandando no lugar.
Todos andam armados na cidade. Além da desavença familiar, há também a briga política entre Vó Inácia e Coronel Bim Bim. As origens da inimizade remete a um passado nebuloso. O sonho de Bim Bim é pendurar a cabeça de Inácia na parede de seu casarão, como um troféu. O sonho de Inácia é encher de chumbo o peito de Bim Bim. Nem quando Inácia se muda com a família para Belo Horizonte, o conflito conhece trégua.
O clã dos Drummond possui a mania de registrar os filhos homens com nome de marca de uísque. Assim, além do Vô Old Parr, aparecem os filhos White House, Red Label, Black Label, Johnnie Walker. Mas o grande fantasma que assombra a família é o incesto. Existe uma tendência de tios se apaixonarem por sobrinhas, sobrinhas por tios, irmão por irmãos, irmão por irmãs, netos por netas, netas por netas e assim por diante. Alguns são devorados pela paixão, outros se entregam à ela de braços abertos.
Misturando realidade e ficção, a fauna de personagens apresentados por Roberto Drummond em O Cheiro de Deus é vasta e exótica. Existe a tia que cultiva um lombriga na barriga como se cuidasse de um animal de estimação, o tio que vira lobisome em noite de lua cheia e devora as rosas dos jardins, a neta que é negra ou branca dependendo das condições climáticas, o tio que inventa um método para materializar fantasmas, o neto que percorre a maratona de fazer sexo com todas as mulheres do mundo, o filho que tenta estabelecer contato com índios do tamanho de um maço de cigarro, a neta que pela sua beleza está condenada à virgindade, etc. A lista é imensa.
Embora narre a saga de uma família por três gerações (pais, filhos e netos) de maneira fantástica e imaginativa, o autor deixa evidente que seu objetivo maior é unir polaridades. Nesse sentido, o ódio pode ser uma espécie de amor, a vingança um espécie de paixão, o conflito uma espécie de estabilidade, o medo uma espécie de coragem, o bem uma espécie de mal e vice-versa. Enfim, Deus e o diabo numa grande festa de confraternização
A narrativa utilizada por Drummond no romance dá a sensação que, a cada página, está sempre se voltando ao mesmo ponto. Não que ela seja circular, mas pautada pela repetição. Uma repetição que vai sendo engravidada de novos acontecimentos e estados de espírito. Nesse processo, a própria noção de tempo se estilhaça para se recompor no espaço seguinte. Tudo isso pode causar dois movimentos antagônicos no leitor: ser completamente absorvido pela narrativa ou exilar-se dela.
Durante as décadas de 70 e 80 Roberto Drummond foi uma referência obrigatória dentro da literatura brasileira. Na década de 90 caiu no esquecimento. Ficou quase dez anos sem publicar um livro. Sua sorte mudou há alguns anos quando seu romance Hilda Furacão foi transformado em minissérie de televisão. Agora a Editora Objetiva dá início ao projeto de republicação de todas suas obras. A primeira a ser editada será A Morte de D. J. em Paris- livro de contos que em 1971 ganhou o Concurso de Contos do Paraná e, na sequência, o Prêmio Jabuti. Depois virão O Dia em Que Ernest Hemingway Morreu Crucificado, Sangue de Coca-Cola, Quando Fui Morto em Cuba, Hitler Manda Lembranças, Ontem à Noite era 6 Feira, Hilda Furacão, Inês é Morte e O Homem que Subornou a Morte.
Em O Cheiro de Deus Drummond reuniu, com bom senso, todas as características de sua literatura. Se por um lado valorizou o fantástico como parte da realidade, por outro desvalorizou elementos da cultura pop e as questões políticas. Um equilíbrio que revela como o escritor, nos últimos dez anos, não deixou sua literatura enferrujar.
O Cheiro de Deus, de Roberto Drummond, Editora Objetiva, 408 páginas, R$ 32,90.


