DEUS E DIABO NA TERRA BRASILIS
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terça-feira, 21 de agosto de 2001
Nelson Sato<BR>De Londrina 
De todos, ele é o maior. No cinema nacional, nenhum outro artista alcançou a importância de Glauber Rocha, que parece ainda intimidar estudos críticos com objetivos desmistificadores. Vinte anos depois de sua morte, sua figura controvertida continua acolhendo reverências, sacramentada por contemporâneos e por quem veio depois.
Alguns de seus filmes estão entre os mais significativos da história do cinema mundial, sendo idolatrados por cineastas como Martin Scorcese, que elegeu ''Terra em Transe'' como um de seus favoritos. Che Guevara também foi um entusiasta, chegando a afirmar que ''Deus e o Diabo na Terra do Sol'' está para a América Latina como Dom Quixote para a Espanha''.
Glauber foi o principal responsável pela projeção do cinema brasileiro no exterior, onde ganhou prêmios em festivais e polemizou com deus e o mundo. Ao lado dos companheiros do Cinema Novo, ele apontou a possibilidade de um cinema brasileiro que não fosse meramente comercial, e que atuasse como componente político a serviço da transformação social.
O movimento, do qual foi líder, propunha um cinema de reflexão imediatamente ligado às contradições e urgências de uma sociedade periférica, à margem do sólido sistema produtivo da grande indústria cinematográfica internacional. Para combater o colonialismo cultural, como se dizia na época, os filmes precisavam ser didáticos para ultrapasssar os limites da elite mas sem abdicar do experimental seguindo a formulação de que não há vanguarda sem ousadia estética.
Para Glauber, era necessário romper com o realismo e as convenções da narrativa clássica de começo-meio-fim, que ele chamava de ''cinema tipo papai e mamãe''. A limitação de recursos, ao contrário de ser um empecilho, era incorporada ao projeto criativo, como elemento indissociável da linguagem final do filme.
''Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça'', frase atribuída a Glauber, era o estandarte daquela fase heróica, quando os cineastas participavam das grandes discussões nacionais. Da euforia dos anos JK ao bode do período pós-AI 5, a pulsação do país encontrava seu melhor termômetro no baiano de Vitória da Conquista, que ia da esperança revolucionária de ''Deus e o Diabo na Terra do Sol'' (1963) ao desespero de ''Terra em Transe'' (1967).
Mas, de filme a filme, Glauber radicalizou a tal ponto o conceito de descontinuidade que acabou provocando rejeição até em seus simpatizantes de primeira hora, embora hoje em dia o experimentalismo especialmente da obra-testamento ''Idade da Terra'' (1980) obtenha raro entusiasmo entre as novas gerações.
Mais do que um cineasta, porém, Glauber era um pensador indomesticável, que incomodova a direita e deixava a esquerda perplexa. Na biografia ''Glauber Rocha Esse Vulcão'', publicada há quatro anos pela editora Nova Fronteira, o autor João Carlos Teixeira Gomes chega a escrever que não basta assistir aos filmes de Glauber para conhecer sua obra.
É preciso também ler seus textos, mergulhar nas idéias que deixou em livros, artigos e cartas. O ensaísta é tão importante quanto o cineasta, afirma ele. Ficou famosa, a propósito, a intervenção de seu biografado durante o processo de abertura política, quando elogiou os generais e chamou o ministro Golbery do Couto e Silva, o estrategista do regime militar, de ''gênio da raça''.
Na época, foi chamado de louco por alguns, traidor por outros e debochado pelos que tentavam contemporizar. A declaração desconcertante é emblemática de toda sua trajetória, encerrada no dia 22 de agosto de 1981, quando seu coração parou de bater vitimado por uma septcemia.


