Deu laranjada na praia
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 1998
Ranulfo Pedreiro 
Oliveira contempla o mar como se fosse o próprio menino do Rio
Laranja é laranja em qualquer canto. Mas, no litoral, as contingências se multiplicam, provocando verdadeiros quiproquós. Entre biquínis minúsculos, caipirinhas e camarões, tem sempre alguém pronto para dar baixaria. O Pinheiro é um exemplo. Chegou há pouco ao litoral, jogou as malas no quarto do hotel, vestiu o calção no corredor e quando deu por si já estava deitado na areia observando formas fartas. Ainda deslumbrado com o choque - há algumas horas estava no escritório -, Pinheiro saca uma cerveja em lata com sal e limão.
No sol escaldante ele vê uma sereia se aproximando. Ela está quase nua. Vem para o seu lado, com gestos suaves. Se abaixa, lânguida. Pinheiro a toca para ver se é real. As consequências são trágicas: a garota, que havia se aproximado para pegar uma bola de borracha, grita. Seu namorado se zanga. Pinheiro culpa o sol. A garota mostra a marca do beliscão. O namorado rosna. Pinheiro culpa a cerveja. A garota chora. Pinheiro volta para o hotel com o olho roxo.
É importante ressaltar que os nomes utilizados aqui são fictícios, mas os fatos narrados nem sempre. É hora de acompanhar outro descuidado:
Lima, como é conhecido na firma, chegou ontem ao litoral e nem desceu a bagagem. Parou no bar. Ali consumiu caipira aos montes. Não se sabe como encontrou o hotel, mas o fato é que ele está de volta ao bar com uma ressaca tremenda e um apetite de tubarão.
- Hoje eu só vou comer coisa do mar. Não quero nem saber de bife com ovo.
Seu desejo foi realizado. Como um paxá, Lima apreciou do bom e do melhor. Camarão, lula, ostras, caranguejos e mariscos circularam pela mesa. Uma combinação capaz de assustar o caiçara mais faminto. Quando martelava a última pata de caranguejo, a coisa começou. Lima ficou verde. Manchas esquisitas se espalharam pelo corpo. Sentiu falta de ar. A visão ficou turva. Foi levado ao hospital. De lá, ligou para a esposa:
- Não sei o que acontece, meu bem, mas é só pisar na praia que eu passo mal.
Tem aqueles que estão no litoral há dois dias, mas sentem-se verdadeiros ratos depraia. Aqui está um exemplar: Oliveira contempla o mar como se fosse o próprio menino do Rio - o diferencial está na barriga, desenvolvida no balcão do bar em frente ao escritório. Ele vibra porque sente a brisa marítima e está prestes a desafiar águas revoltas firme como uma rocha.
Ele entra no mar sem saber onde está nadando. Não o interessa se as ondas estão quebrando com violência, se a bandeira está vermelha ou se há plaquinha com caveira no local. Preocupado em impressionar as garotas da praia, o nosso herói ignora também o capote, uma defesa que as ondas possuem para certos tipos de banhistas.
Vamos acompanhar a cena: Oliveira atravessa as primeiras ondas. O lugar é perigoso. A água já bate no ombro quando as pernas são deslocadas por uma espécie de rasteira provocada por uma forte corrente, ao mesmo tempo em que uma onda enorme se precipita. O resultado é catastrófico. Da praia, só se vê rodopios. Às vezes um pé. Nunca a cabeça. Quando o capote termina, o laranja está no raso com o calção cheio de areia.
Outra situação constrangedora passou o Almeida. Lateral direito, resolveu bater uma pelada com os caiçaras. O jogo foi bem até a primeira dividida. Sabem como é, o Almeida não é um especialista em cortar as unhas dos pés que, no momento da disputa, atingiram a canela de um dos adversários.
Briga em futebol de praia parece arrastão. Tem gente que pula na água, que se defende com guarda-sol, que rola na areia com o centroavante, que chuta a sunga do goleiro ou que se preocupa em salvar os chinelos - usados como traves. No caso do Almeida, a sunga rasgou durante o corpo-a-corpo, e ele foi obrigado a voltar para o hotel vestindo a canga da esposa.
Já o Carvalho levou a filha para dar uma volta na areia. Acomodou-se na toalha enquanto a criança brincava com um kit de plástico. Mas, impulsionado pela caipirinha, pela brisa e o barulho das ondas... Dormiu. Quando acordou estava um verdadeiro pimentão, enquanto a garotinha mais parecia um tatuí, fartando-se com um banquete de areia que ela mesmo preparara. É bronca da mulher na certa.
Outro problema comum a carentes de desconfiômetros refere-se ao cão. Que na praia só dá dor de cabeça. O bicho transita entre a areia e a água, ganhando a aparência de um bife à milanesa. É nesse momento que ele começa a correr entre os banhistas que estão tomando sol. Se o cachorro for pequeno, o dono corre o risco de levar uns cascudos.
A lista de situações desagradáveis no litoral provocadas por absoluta falta de bom senso é enorme. O Silva, por exemplo, foi nadar perto dos surfistas e levou uma pranchada na testa. Tem o Ferreira, que passou um bronzeador feito em casa e perdeu todos os pêlos do corpo; o Duarte, que foi pescar no meio dos banhistas e fisgou o boné do salva-vidas; o Silveira, que nunca fez cooper na vida e teve uma distensão correndo na praia; e o Gonçalves, que se aventurou a passear de caiaque e voltou sem barco, sem salva-vidas, sem boné e sem sunga.
Mas o pior mesmo aconteceu com o Esponja - apelido recebido após uma maratona de bebedeiras, ou Mara-Toma, como o evento foi chamado. Ele já desceu a serra pensando em fórmulas etílicas.
- Rum com contreau fica bom? - perguntava aos amigos. O Esponja pensava em beber desde cerveja a pingas curtidas com siri e outros bichos. Começou preparando caipiras no sol escaldante, ignorando os efeitos do limão. Recusou chá gelado ao saber que não misturavam álcool. Na barraquinha que vendia coquetéis ouviu o conselho:
- Beber assim na praia dá pepino.
- Dá nada. Extou muito acoxtumado com o litoral. Nado trêx quilômetrox por dia.
- Duvido.
- Vou daqui naquela ilha com um braxo xó.
- Duvido.
Era provocação demais. O Esponja entrou na água com copo e tudo. Mesmo bebum, chegou até a ilha - que ficava apenas a uns 100 metros da praia - sem perder o drink. O problema foi a volta. Já cansado, não conseguia alcançar a quebra das ondas, e a correnteza o arrastava de volta para a ilha. Gritou por socorro.
Os amigos não acreditaram quando viram o Esponja na televisão, sendo resgatado de helicóptero, gritando impropérios para o dono do quiosque em rede nacional.


