Detonautas retornam com álbum poético


Caroline VicentiniReportagem Local
Caroline VicentiniReportagem Local

Um álbum contemplativo e poético. É desta forma que Fábio Brasil, baterista dos Detonautas Roque Clube define ‘‘O Retorno de Saturno’’, quarto disco da banda brasileira. O trabalho marca o retorno do grupo aos estúdios de gravação após a morte do guitarrista e compositor Rodrigo Netto, no dia 04 de junho de 2006, após uma tentativa de assalto enquanto dirigia seu automóvel, no Rio de Janeiro.
Segundo Brasil, as músicas deste novo trabalho começaram a ser compostas ainda durante a turnê do álbum anterior ‘‘Psicodeliaamorsexo&distorção’’. ‘‘Estávamos na estrada e aí ocorreu este fato trágico com o Netto. Nos vimos de ‘pernas cortadas’, sentimos um vazio enorme. Mas precisávamos seguir e neste trabalho deixamos falar a voz do coração e o que sentimos no estúdio foi uma paz interior maravilhosa, que refletiu em um disco mais ‘canção’, amadurecido’’, relembra o músico.
Pela primeira vez, todas as 11 canções foram compostas pelo vocalista Tico Santa Cruz e musicalizadas pelo grupo. Rodrigo Netto dividiu as composições com Tico nos trabalhos anteriores. ‘‘O Retorno de Saturno’’, que chegou às lojas este mês, é dedicado ao amigo. A terceira faixa do álbum, ‘‘Verdades do Mundo’’, é especialmente dedicada a Netto – ‘‘Te encontro nas ruas/Até de olhos fechados/Sinto tua presença e a lembrança/Que eu tenho de você/Me faz querer te abraçar/Querer te encontrar’’.
O carro-chefe do CD é a música que dá nome ao projeto e que abre o repertório. ‘‘Escolhemos ‘O Retorno de Saturno’ como música de trabalho porque ela é ‘astral’, tem um refrão bacana, e acreditamos ser uma canção feliz e interessante para o momento’’, defende Brasil. Se a produção aposta em hits em alguns momentos, aposta também em canções mais difíceis de serem assimiladas pelo mercado. É o caso de ‘‘Ensaio Sobre a Cegueira’’, título do livro de José Saramago, que, em meio aos seus aproximadamente oito minutos de duração – um tempo fora dos padrões comerciais das emissoras – abre espaço para o poeta Edu Planchêz recitar o que é a sua forte poesia ‘‘Filhos da Morte Burra’’. ‘‘Esta música é um exemplo claro de que para ser pesada não precisa ter guitarra, barulho’’, aponta o baterista.
O ativismo político e social que também se tornou uma marca do grupo não ficou de fora do disco. Em duas faixas, a classe política brasileira sai ridicularizada. ‘‘Enquanto houver’’ é mais direta (‘‘Meu amor/ Enquanto isso no Congresso/ Eles roubam o País’’). Já ‘‘Eu Vou Vomitar em Voc꒒ é cáustica a ponto de escrachar no título e ao longo da canção, com o refrão dos Titãs, de ‘‘Aa Uu’’, citado incidentalmente. Tico Santa Cruz fundou há mais de um ano o Voluntários da Pátria, grupo integrado por artistas de diversas áreas, que se dedica à militância em defesa dos direitos humanos.
De acordo com Brasil, o público fiel dos Detonautas não sentirá tanta diferença entre este álbum e o anterior. ‘‘O ‘Psicodelia...’ foi uma explosão de experimentalismos, mais barulhento. Em o ‘O Retorno de Saturno’ não estávamos com paciência para tanto barulho e a banda procurou não interferir tanto instrumentalmente, dando mais apoio e cor à melodia’’, compara o músico.
Primeira banda brasileira a se formar na internet (os integrantes se conheceram em uma sala de bate-papo do UOL), os Detonautas disponibilizaram todas as faixas do trabalho no site de relacionamentos My Space. ‘‘Houve um atraso na fábrica e a nossa inquietação nos levou a procurar a internet. Em oito dias tivemos oito mil acessos. Isso é bacana, porque significa que muitos estão ouvindo sem depender dos outros’’, ressalta Brasil.
Em junho a banda deve lançar a turnê do novo álbum. Criada há 11 anos, atualmente o grupo é composto por Fábio Brasil (bateria), Tchello (baixo) DJ Cleston (percussão, scratches e efeitos), Renato Rocha (violão e guitarras) e Tico Santa Cruz (violão e vocais).

Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito

Últimas notícias

Continue lendo