Detonando igrejinhas e intelectuais
Zeca Corrêa Leite
Curitiba
Fábio Cabral/DivulgaçãoUlisses Tavares: ...muitas pessoas poderiam ser leitoras de poesia e só não são porque não sabem que poesia é legalPoesia concreta: o que é isso? Essa história de misturar palavras, espalhar sílabas pela página, repetir a mesma coisa, tornar ilegível o que seriam versos são chatices que o poeta Ulisses Tavares detonou na entrevista concedida à Folha2 em Faxinal do Céu. Ele foi um dos convidados para dar oficina à primeira leva de professores que se dirigiram até aquele centro de treinamento, durante uma feira de livros.
Tavares é um poeta best seller brasileiro. Correndo na raia da produção marginal, nos anos 70, vendeu 120 mil exemplares de Pega Gente. Irreverente, criou um cartaz batizado de Iniciativa Privada, que foram colados em 30 mil banheiros do País. A brincadeira valeu um prêmio do Instituto de Criação de São Paulo, como a peça mais criativa do ano.
Certo dia, contando história ao filho pequeno, achou de gravar a narrativa. Surgia aí o escritor infanto-juvenil, autor de ficção e poesia para crianças e adolescentes. São dele sucessos editoriais como Caindo na Real, pela Editora Brasiliense e Aos Poucos Fico Louco, pela Globo, títulos que ficaram meses a fio entre os mais vendidos.
Seus versos entraram em novelas da TV Globo e foram parar nas páginas das revistas Capricho e Carícia, entre outras. O lançamento mais recente chama-se Viva a Poesia Viva, pela Editora Saraiva (custa R$ 7,90). Com 44 livros na bagagem, Ulisses Tavares não vive apenas de sua escrita, embora para ele o ganha-pão seja estritamente a palavra.
Professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo, publicitário, escritor de ficção, treinador de criatividade aplicada o poeta ainda encontra tempo para dar palestras a platéias variadas. Num dia fala para gente ligada à política no Piauí, no dia seguinte para professores em Faxinal do Céu, no Paraná, provando a eles que poesia também se faz na escola.
Essa multiplicidade do que faço só dá confusão vista de fora. Vista de dentro, do meu periscópio pessoal, faço sempre a mesma coisa, trabalho sempre com a mesma matéria-prima, que é a palavra, disse ele para a Folha2. A matriz é a mesma, nunca deixei de ser poeta. Estou sempre fazendo poesia.
Você é um dos poucos autores que tem na mira o público jovem. Este segmento da literatura é um bom negócio?
Ulisses Tavares - Acho um barato escrever para o adolescente. Faz parte da missão do escritor. A gente sente isso como missão, porque temos alguma coisa a passar. Não é justo que visemos as mesmas pessoas de sempre. Temos que sair dessa igrejinha.
Quer dizer que seu interesse é o público?
Ulisses Tavares - Eu sempre quis ser lido. Na década de 70 muitos não me consideravam escritor, eu era hostilizado pelos acadêmicos da USP. Até hoje sou, mas é por que não sou acadêmico, sou um escritor que está na vida. Sempre escrevi para ser lido, para acabar com a minha solidão. Que graça tem eu escrever e ser leitor de mim mesmo? Qual a farra disso? Minha solidão aumenta como pessoa e como alguém que tenha alguma coisa a dizer para o mundo.
Como é falar para o adolescente e para o adulto em poesia?
Ulisses Tavares - É a mesma coisa, só muda o vocabulário. No resto é exatamente igual. Tem coisas que o adulto consegue entender porque teve mais tempo para sua formação cultural, então é uma questão de linguagem, não de conteúdo. Nas minhas poesias falo de morte, de dor, da solidão, de sexo, de tudo que falo nos mesmos livros para adultos. São todos temas recorrentes da poesia e vai ser sempre assim, ao longo dos tempos. Só que a linguagem que uso é apropriada ao adolescente. Mas não tenho tanta certeza se é tão adequada... Caindo na Real tinha uma página em que o leitor podia destacar e escrever ao poeta. Mais de 80 por cento das cartas que chegaram foram de adultos. Para mim foi uma bruta surpresa. Aí vi que muitas pessoas poderiam ser leitoras de poesia e só não são porque não sabem que poesia é legal. Há um mito de que ela é uma merda, é chata. E não é.
Quem alimenta o mito de que a poesia é chata?
Ulisses Tavares - Os acadêmicos. Eu tenho profunda raiva dos acadêmicos que não só tornaram a poesia mais inacessível ainda, como tornaram a coisa um entojo. Haroldo de Campos é maravilhoso, mas duvido que pulse mais forte o coração de alguém ao ler um poema dele. Pode pulsar a cabeça, que é outra coisa. Assim mesmo só a cabeça de pessoas que buscam outro tipo de estética, não a emocional, mas a estética literária. Ela tem seu valor, mas isso não amplia nem um pouco o gosto pela poesia. Por isso que ela se tornou uma coisa antipopular. Ela se fechou. A poesia já era uma coisa no alto do pedestal, já era inacessível, fora do alcance. Depois os acadêmicos jogaram a pá de cal que faltava no cadáver. Agora cabe a nós todos tentar ressuscitar essa coisa bonita que ficou escondida lá dentro, na cova. Como se a beleza e a emoção fossem atributos exclusivos para serem curtidos pelos intelectuais. Isso é um profundo pedantismo, pretensão, e não é verdade.
A corrente concretista, experimentalista que se encontra por aí, representou o que na poesia brasileira?
Ulisses Tavares - Foi, sem dúvida, o AI-5 da poesia. Cassou da poesia a possibilidade dela ser algo realmente democrático. O que eles (os concretistas) fizeram foi dar uma pedrada na palavra, como se a palavra já tivesse esgotado seu percurso, enquanto que ela mal começara o seu percurso. Eles enterraram a coisa viva, enquanto a coisa era apenas um bebê tentando ser, mais para a frente, algo admirado, um ser perfeito, um ser de luxo. Foi isso que eles fizeram em nome da estética, mas que eu chamo, e muita gente pensa assim, de puro pedantismo.
Apesar dessa visão contrária, tem a ala dos que aplaudem...
Ulisses Tavares - Acontece que vivemos num País que tem um cortiço cultural. A Folha de São Paulo, por exemplo, é um cortiço cultural. Ninguém, que tenha uma literatura pra valer, vai entrar na Folha de São Paulo. Porque aquela curriola de acadêmicos não deixa. Só entram eles. Poetas bons são aqueles que os resenhistas-poetas da Folha de São Paulo dizem que são bons. E eles só dizem isso dos amigos deles. Para obterem um aval para a própria mediocridade.
Você não entra na Folha de São Paulo?
Ulisses Tavares - Entro de vez em quando, mas como notícia de alguma coisa que eu faça que seja impossível eles ignorarem. Não tenho nada contra a Folha; como publicitário eu fiz o case do jornal. Eu que lancei o ClassiFolha Veículos, o Clube Folha. Trabalhei para o jornal chegar ao primeiro lugar. Peguei-o em terceiro. Adoro ele mas detesto as pessoas que, em nome de passar uma boa literatura, passam simplesmente uma chatice. É simplesmente isso.
A partir da Folha de São Paulo: a mídia pertence aos chatos?
Ulisses Tavares - A mídia não pertence aos chatos, pertence a quem tenha algum tipo de poder. Acha-se que o poder do conhecimento está nas universidades, quando todo mundo sabe a deterioração que são as universidades brasileiras. Elas são hoje o pré-primário do conhecimento humano. Não há nenhum sociólogo - e está aí um no poder - que tenha um pingo de sangue nas veias, um coração pulsando dentro do peito. É isso que falta. Temos somente universidades desfibradas, universidades formais - elas são conservadas em formol. Elas são as detentoras do saber e eu pergunto: que saber é esse que não traz benefício a ninguém? Uma faculdade de sociologia tem que estar no meio da favela. Uma faculdade de literatura devia incentivar que os textos saíssem para fora da faculdade. Eles fazem ensaios sobre eles mesmos. Sempre foi assim: Tu me citas, que eu te cito. É o cortiço literário brasileiro, é uma coisa odienta. É uma coisa que afasta as pessoas dessa coisa bonita chamada literatura.
Nesta história quem sai mais prejudicado: o autor ou o leitor?
Ulisses Tavares - Quem perde com isso é a leitura e o leitor. Quero lembrar que a Folha de São Paulo, assim como a grande imprensa, durante dois anos, sistematicamente, atacou o senhor Paulo Coelho, até que ele fosse consagrado pelo público. E lhe deram uma coluna diária. No começo a Folha dizia, literalmente, que ele não era comandante de seus próprios peidos, para depois se render ao sucesso.
O brasileiro está lendo mais?
Ulisses Tavares - Felizmente está lendo mais. Um pouco na porrada, um pouco por injunção comercial, porque as editoras lucram com a leitura obrigatória na escola, mas de algum jeito o brasileiro está lendo mais. Está mais interessado em ler. Sinto que nos últimos anos, de certa forma, o desemprego e a mudança econômica favoreceram a literatura, porque o cidadão percebe que ele não pode mais só ler as coisas relacionadas ao trabalho dele. Ele não pode mias ser só um engenheiro, só um médico. Ele tem que ser mais amplo, e para isso tem que ler mais. É uma democratização da literatura.
O que as pessoas devem ler?
Ulisses Tavares - Acho que temos que, definitivamente, abandonar a pretensão de que as pessoas devem ler isto ou aquilo. Elas vão ler aquilo que gostam, naquele estágio da vida delas. O que me irrita na postura acadêmica é que eles são vetores do que as pessoas devem ler ou não. A não ser que se ponham numa postura crítica, o que não acontece. Eles se põe numa postura de fofoqueiros. Assim como se fossem estilistas de moda tendo chilique porque uma mulher resolveu usar roupa rasgada, até ver que isso caiu no gosto popular e eles fazem também. É mais ou menos assim que se comportam a crítica literária brasileira e as pessoas incumbidas de tratar a literatura no Brasil.
Nesta história toda, como ficam os editores?
Ulisses Tavares - Não poupo os editores - eles continuam com um esquema feudal de edição de livros no Brasil, principalmente nas áreas de ficção e poesia. Em geral lançam o escritor. Se der certo uma parte do mérito é deles, se der errado tudo bem, lançam mais 50 títulos ao mesmo tempo. Pelo menos um vai dar certo. Este é o critério. Por outro lado falta profissionalização das editoras, falta marketing. Com raríssimas exceções, o livro é lançado sem verba para propaganda. Não existe isso no mundo, é uma aberração. Isso é primitivo, é marketing do tempo dos dinossauros.
Mas a literatura infanto-juvenil vive ótimos dias...
Ulisses Tavares - Por que a literatura infanto-juvenil está dando certo? Porque está sendo encarada com profissionalismo, como ela é. A leitura é um negócio como outro qualquer. O livro é um produto para ser tratado com todos os cuidados comerciais.
De um lado está esse tipo de tratamento das editoras, de outro os acadêmicos nos suplementos literários. Entre essas duas realidades fica o escritor. Como está a literatura brasileira?
Ulisses Tavares - Tenho visto muita coisa boa, muita gente nova aparecendo e conquistando seus espaços. Mas ainda é muito pouco. E não adianta a gente se iludir - a situação vai continuar do jeito que está porque a Educação ainda não ocupou o espaço que merece. Acho abominável um sociólogo na presidência da República e uma dona Ruth Cardoso posando de protetora dos pobres, como se fosse um Getúlio Vargas de saia, arrotando regras como deve ser a transformação social. Esquecem o País em que estão, numa completa insensibilidade social. É como se a violência não atingisse - como não atinge - o Palácio do Planalto. Estão só preocupados com o poder. Eu acho isso simplesmente nojento. A Educação não recebe investimentos, tem professores em vários Estados com salários atrasados, todos ganhando uma merda mesmo. É terrível. As professoras estão na triste situação de serem hoje sacoleiras das grandes editoras infanto-juvenis.
Literatura e Educação estão no mesmo barco?
Ulisses Tavares - O governo investe pouquíssimo em Educação. O problema não é investir em leitura; quanto mais se investir em Educação, mais leitura você vai ter. Não vai ter solução para a leitura e produção de livros no Brasil enquanto não houver uma solução clara, não paternalista, para a Educação, que está em frangalhos. As pessoas estão saindo das escolas analfabetas, e, pior, analfabetas para a vida, sem preparação nenhuma. Esse é um problema muito sério.
Para o poder, ler é uma arma?
Ulisses Tavares - Tenho certeza de uma coisa: os políticos morrem de medo das pessoas que lêem. Se elas começarem a ler muito, elas vão comparar muito, e se compararem muito vão racionar muito. Se raciocinarem muito não botam esses caras no poder, nunca. Elas deixam de ser escravas. A única maneira do homem ser livre hoje, é lendo. Não existe outra maneira.
Então existe uma saída?
Ulisses Tavares - Vejo uma saída pela pressão social. Não acho que devemos esperar isso do governo. Acho que a sociedade organizada consegue obrigar na marra o governo e a elite nacional a se voltarem para a Educação.





