Detentos encenam "O Auto da Compadecida" em São Paulo
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quarta-feira, 11 de agosto de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 12 (AE) - Um elenco formado por 11 presidiários do Centro de Observação Criminológica (COC), do Carandiru - cujas penas variam de 4 a 30 anos de detenção - apresenta amanhã e depois, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, a peça "O Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna, sob direção do monitor de educação e ator Jorge Spínola.
O espetáculo integra o projeto Teatro nas Prisões, desenvolvido pela Secretaria da Administração Penintenciária, com apoio da Fundação Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel (Funap). Os ingressos custam R$ 10 e a renda do espetáculo será revertida para o Fundo Social da Solidariedade.
Spínola começou a trabalhar no COC em março do ano passado. Primeiro dirigiu uma oficina teatral com 25 detentos realizando exercícios e jogos, muitos deles inspirados no método do Teatro do Oprimido, criado por Augusto Boal. "O mais difícil era modificar o comportamento psicológico e corporal dos participantes, acostumados a andar de mãos nas costas, cabeça baixa e dizer só o permitido", conta Spínola. "Exercícios que trabalhavam com auto-imagem ajudaram a desenvolver a confiança e o toque físico entre os integrantes do grupo."
A oficina levou à formação do grupo e à escolha do texto que conta a saga de João Grilo. Interpretado por Valdenilson R. de Souza, o personagem é um herói popular que apronta mil confusões como convencer alguém a comprar um gato capaz de defecar dinheiro. Depois de driblar com suas artimanhas vários poderosos, entre eles o padre, o bispo e um perigoso cangaceiro, João Grilo morre e, no julgamento final, enfrenta o diabo, para enfim, ser perdoado pela mãe de Jesus, a compadecida.
Spínola foi obrigado a realizar algumas adaptações no texto, entre elas, eliminar os personagens femininos. "Todo o mérito desse espetáculo é do grupo, que foi extremamente corajoso ao enfrentar o preconceito dentro da prisão e fazer pouco caso de zombarias do tipo lá vão eles para o balé", lembra Spínola. Habilidoso, o diretor evitou mais um problema ao elenco. Assim, Maria faz-se representar pelo Anjo Gabriel que transmite sua mensagem.
A resistência inicial da população carcerária transformou-se em orgulho e aplausos quando o espetáculo foi apresentado no presídio. Depois de fazer apresentações em outros presídios e no Teatro Tuca, da PUC, o grupo chega ao palco do Teatro Sérgio Cardoso provando que o investimento em cultura é a melhor forma de resgatar a dignidade humana.
"Quando comecei o trabalho nas prisões tentei a via da educação, mas percebi que a sala de aula era um caminho longo e árido ao passo que a comunicação pelo teatro era mais rápida e provocava uma transformação mais profunda." Além da "qualidade excepcional" do grupo ele destaca o precioso apoio da direção do COC, da Funap e de Ivete Halasc, psicóloga que dirige o Centro de Reabilitação do COC, como fundamentais para a realização do trabalho. E já ensaia A Pena e a Lei, também de Suassuna, próximo espetáculo do grupo, desta vez com um elenco ampliado para 20 detentos.
Serviço - "Auto da Compadecida". Comédia. De Ariano Suassuna. Direção de Jorge Spínola. Com 11 presos-atores do Carandiru. Hoje e amanhã, às 21 horas. R$ 10,00 (a arrecadação será doada ao Fundo Social de Solidariedade). Teatro Sérgio Cardoso. Rua Rui Barbosa, 153, em São Paulo, tel. (11) 288-0136. Apoio: Secretaria da Administração Penitenciária, Funap, Centro de Observação Criminológica, Fundo Social de Solidariedade, Teatro Sérgio Cardoso. Até sábado.


