Desvalorização do real obriga produtores de cinema a rever orçamentos
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segunda-feira, 01 de março de 1999
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 02 (AE) - A desvalorização do real, no início do ano, pegou os produtores de cinema brasileiros de surpresa e eles se esconderam como se estivessem no meio de um tiroteio. Passado o susto, todo mundo volta a organizar-se e a trabalhar dentro de uma nova realidade, sem otimismo, mas também sem alardear catástrofes.
A imagem é de Mariza Leão, produtora de "Guerra de Canudos", a maior bilheteria de 1997, e que, agora, cuida de dois novos filmes: "Possíveis Amores", que será dirigido por Sandra Werneck, e "Quase Memória", baseado no livro de Carlos Heitor Cony, que terá direção de Ruy Guerra.
Mariza teve de rever seu orçamento nos dois casos, porque parte dos gastos, que são em dólar, praticamente duplicaram. Os negativos, equipamentos de luz e som são importados e os serviços de sonorização e finalização são geralmente feitos no exterior. São itens que representam cerca de 30% do orçamento. Este, porém, não foi o único problema. Se 1996 e 1997 foram anos em que a captação de recursos por meio da Lei do Audiovisual praticamente dobrou, no ano passado houve uma queda da ordem de 30%, fato que foi agravado pelo aumento do número de projetos que disputam o dinheiro das empresas dispostas a investir no cinema.
"Eu tinha dois caminhos: ou esperava o ano 2000 para começar os filmes ou refazia os projetos", explica Mariza. "Fiquei com a segunda opção". No caso de "Possíveis Amores", orçado em R$ 2 milhões, a solução foi filmar em 16 milímetros e não em 35 - como vinha fazendo - para começar a rodar em julho, com um cronograma de seis semanas. Para "Quase Memória", um filme de época com orçamento de R$ 3,5 milhões, Mariza está procurando parcerias no exterior. "Felizmente, esse não é um filme de grandes gruas e sim de detalhes, de closes, o que facilita essa adaptação", diz Mariza, que pretende começar a filmar, no máximo, no fim do ano. Outros caminhos - O produtor Bruno Stroppiana teve de buscar caminhos diferentes. Atualmente, ele está filmando "Estorvo", baseado no livro de Chico Buarque e dirigido pelo mesmo Ruy Guerra, e "O Xangô de Baker Street", de Miguel Faria. "Estorvo" custa R$ 3,5 milhões e as filmagens já haviam terminado quando o dólar subiu. Mas os negativos devem ir para os Estados Unidos, onde vão passar por um tratamento especial, orçado em US$ 50 mil. "Como a captação é em real, preciso ir atrás de R$ 100 mil", conta Stroppiana.
"O Xangô de Baker Street", uma superprodução de R$ 6,5 milhões, tem situação mais complicada. As filmagens no Brasil terminaram no início do ano, mas falta ainda uma parte em Londres, com custo de US$ 500 mil, ou seja, R$ 1 milhão, a partir da alta do dólar. "Vou ter de captar o dobro do previsto inicialmente e já sei que a finalização do filme terá de ser feita aqui e não no exterior", prevê Stroppiana. Cidade dos Beatles - Se a filmagem fosse em Liverpool, Stroppiana teria mais facilidades. A cidade dos Beatles e do craque Owen dá uma ajuda de custo aos filmes que são rodados lá e Joaquim de Carvalho, produtor de "Mauá", cinebiografia do magnata brasileiro do 2.º Império dirigida por Sérgio Resende e orçado também em R$ 7 milhões, aproveitou a oportunidade. "Recebemos 50 mil libras esterlinas (cerca de R$ 160 mil) da prefeitura de Liverpool e começamos a filmar para dar o tom da produção e não correr o risco de ter de cancelar essa parte", conta Carvalho. "Felizmente, a alta do dólar pegou o filme praticamente pronto".
Luiz Carlos Barreto vive situação idêntica. Ele terminou as filmagens de "Senhorita Simpson", dirigido por Fábio Barreto, em janeiro e, além disso, tem parcerias com a Globofilmes e com a Columbia. Mas Luci Barreto, que cuida da parte financeira da produtora, sabe que seus próximos projetos terão de ser reavaliados ou buscar sócios no exterior.
Mas a produtora vê um lado positivo na crise. "Como os salários aqui são em real, houve uma redução para produções estrangeiras que buscam a excelência de nossos profissionais a um custo menor", diz Luci. "Já vejo gente de fora sondando o mercado aqui e isso deve trazer mais trabalho e dinheiro para o setor".
A questão do salário e dos equipamentos é, para Mariza Leão, o lado em que a produção cinematográfica vai se ajeitar para continuar a crescer. "Acho que não precisaremos diminuir as folhas de pagamento, mas quem contava com um aumento terá de se contentar com o que recebia no ano passado", explica a produtora. Quanto aos equipamentos, Mariza não vê motivo para uma alta proporcional à do dólar. "Quem tem uma câmera ou uma grua para alugar não tem despesa em dólar e, se quiser aumentar o preço, vai ficar sem cliente para seu equipamento, pagando o preço de deixá-lo ocioso".


