Destruição no centro da Via Láctea
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de maio de 1997
Eduardo Castor Borgonovi Agência Estado 
A descoberta de uma estranha área no centro da nossa galáxia, onde matéria e antimatéria se encontram e se aniquilam mutuamente, foi anunciada no mês passado por cientistas da Nasa em Williamsburg, Virgínia, EUA. Esse processo de aniquilação mútua dá àquela região a aparência de uma fonte, lançando imensos jatos a partir do centro da Via Láctea e por isso foi batizada de fonte de aniquilação pelos cientistas que a descobriram.
A antimatéria é composta das mesmas partículas que a matéria, porém com cargas elétricas de polarização oposta. Por exemplo, um elétron, partícula da matéria, é polarizado negativamente, enquanto um antielétron, partícula de antimatéria, é polarizado positivamente. Quando essas partículas se encontram, destroem-se mutuamente.
Na fonte de aniquilação é isso o que acontece: matéria e antimatéria encontram-se e destroem-se. Desse processo de autodestruição resultam gases quentes, que jorram do centro da galáxia e que formam a fonte avistada pelo observatório da Nasa.
O anúncio da descoberta envolve também outro fato importante: a confirmação da eficácia do telescópio de infravermelhos Compton, lançado em 1971 pela Nasa. Ele foi lançado para resolver um dos mais sérios problemas de observação do nosso Universo: os gases e poeira existentes no Universo impedem a observação através de telescópios normais, mesmo como o famoso e potente Hubble. Através da captação e análise de raios infravermelhos, como acontece no caso do Compton, é possível observar distâncias muito maiores no espaço.
Foi o que aconteceu no caso da observação da fonte de aniquilação , que fica no centro da Via Láctea, a nada mais nada menos que 25 mil anos luz da Terra. Sem um telescópio de infravermelhos ela não poderia ter sido observada. Depois de ter anunciado a descoberta, os cientistas apresentaram a sua maior dúvida: de onde vem a antimatéria que provoca os jorros da fonte? Eles ainda não sabem a resposta. De certo modo, porém, acham que a fonte é uma espécie de pira funerária de estrelas mortas que estiveram queimando nos últimos cem mil a um milhão de anos.
Outra fonte possível dessa antimatéria seria um buraco-negro que se acredita existir no centro da Via Láctea. Ele estaria lançando jorros de antimatéria que, ao se encontrarem com a matéria, provocariam o processo de autodestruição. Nada, porém, é certo. Além da existência da fonte de aniquilação, o único dado exato é a sua localização no centro da galáxia, que ela mede cerca de 4 mil anos-luz e que seus jorros estendem-se por 3.500 anos-luz de distância.


