Chico Nogueira/DivulgaçãoMarcelo Munhoz e Guta Borges, em cena de ‘‘O Processo’’Um pacato cidadão, com certa influência na comunidade pelo posto que ocupa na sociedade - é procurador de um banco - chega em sua casa e é abordado pela polícia. Está sendo preso sem saber o porquê; pior que isso é não ter como sair das amarras que o prendem. ‘‘O Processo’’, adaptação da obra de Franz Kafka para o teatro, é a peça que está em cartaz no Guairinha, em Curitiba. O ator Marcelo Munhoz vive Joseph K., a vítima e alter ego do autor.
O projeto Kafka não se prende apenas ao espetáculo. O escritor tcheco estará sendo discutido numa série de palestras semanais no teatro, às 16h, com entrada franca. A primeira acontece hoje, com Fernando Kinas, mestre em Estudos Teatrais, pela Sorbonne, que discorrerá sobre ‘‘Kafka: Teatro Completo’’
Dia 17 o professor Paulo Astor Soethe, mestre e doutorando em Língua Alemã, da USP, falará sobre ‘‘Kafka: Corpo, Espírito e Consciência do Irredutível’’ e dia 19 a professora Elvira Horstmeyer, mestre em língua alemã da USP, discorrerá sobre ‘‘Um Kafka Contextual’’.
Este é o primeiro trabalho profissional de Marcelo Munhoz, que durante cinco anos trabalhou com o Grupo Resistência de Teatro. Íntimo dos palcos e com alguns prêmios levantados em festivais nacionais, faz sua estréia ao lado de alguns dos principais nomes do teatro curitibano: Enéas Lour, Ênio Carvalho, Marly Gott e Tupaceretan Matheus. A direção é de Luiz Roberto Meira.
Enéas Lour e o diretor Luiz Roberto Meira são os responsáveis pela adaptação do texto. Sobre a encenação o diretor comentou que o desafio maior recaiu sobre que caminho tomar, entre os múltiplos permitidos pela obra. Descoberta a trilha, tudo ficou mais fácil.
Viver KafkaEsse não foi o único desafio enfrentado. O ator principal, Marcelo Munhoz, teve sua prova de fogo ao deixar temporariamente o Grupo Resistência, que até então era seu referencial no tablado. Ali o tempo é outro, cada encenação exige um longo período de oficinas, as atividades pertencem a todos os integrantes.
‘‘Pela primeira vez descobri que tenho um trabalho individual e sou responsável unicamente pela minha função. É outra coisa, totalmente diferente. Reconheci a figura do diretor e a minha responsabilidade como ator. Está sendo um aprendizado fora de série’’, disse.
Marcelo encantou-se com Kafka, lendo ‘‘O Processo’’. ‘‘Botei-o no altar, ele modificou minha vida’’. Tamanha admiração transformou-se em novo obstáculo a ser vencido, porque a literatura é fantástica, mas como passar à platéia, em gestos e voz toda a gama de sentimentos e sensações explicitados na narrativa? ‘‘Fiquei com medo de algum desvio de minha interpretação. Agora as coisas estão resolvidas’’.
DramaJoseph K., na visão do ator, é um personagem cujos sentimentos são os mesmos das pessoas aprisionadas. Cai sobre ele uma situação surreal sendo preso, julgado e condenado sem uma única razão aparente. Incapacitado para livrar-se da imobilidade que o leva em direção ao fim, tem aí o verdadeiro drama.
Fora da pele dos fracassados, as soluções são simples. Basta agir, rebelar-se. Sob a pele deles, o mundo tem outra cor. ‘‘Kafka era um desafiador. Sua obra traz humanidade, nada é estereotipado. Não há condenação de ninguém; por maiores que sejam os absurdos, tudo tem que ser vivido’’, completa Munhoz.
• O Processo - adaptação da obra de Franz Kafka. Direção de Luiz Roberto Meira. Com Marcelo Munhoz, Enéas Lour, Tupaceretan Matheus, Ênio Carvalho, Fábio Silvestre, Marly Gott, Guta Franzzolin. No Guairinha, de quinta a domingo às 21h, até 21 de setembro. Ingressos: R$ 15,00, R$ 10,00 (bônus), R$ 7,00 (estudantes, classe artística e terceira idade).

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