Se o desgastado rótulo ''maldito'' ainda valer para dignificar espíritos transgressores, convém economizá-lo para uns poucos eleitos. O poeta paulistano Roberto Piva é uma das exceções que ainda encarnam o figurino. Tema de dossiê da nova edição da revista londrinense ''Coyote'', ele é destaque também na TV Cultura, que exibe hoje o documentário ''Assombração Urbana''.
O programa vai ao ar às 21 horas, com direção de Valesca Dias. O vídeo aborda a obra e o pensamento visionário do poeta incluindo depoimentos do crítico Davi Arrigucci Jr. e do grupo D'Collage um coletivo de rapazes ligados em poesia surrealista. Piva é autor dos livros ''Piazzas'', ''Paranóia'', ''Abra os Olhos e diga Ah'', ''Coxas'', ''20 Poemas com Brócolis'', ''Quizumba'' e ''Ciclones''.
Singular no panorama da poesia contemporânea brasileira, sua obra arrebata o leitor combinando surrealismo, beat, xamanismo, anarquia e homoerotismo. Em 1985, a editora L&PM publicou uma antologia do autor pela coleção Olho da Rua. Agora, a editora Globo anuncia a reedição de todos os seus títulos. Aos 67 anos, tratando-se do mal de Parkinson, o poeta prepara na moita o volume inédito ''Estranhos Sinais de Saturno''.

POEMA DE ROBERTO PIVA
vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas
coxas imberbes & brancas.
vou dilapidar a riqueza de tua
adolescência. vou queimar teus
olhos com ferro em brasa.
vou incinerar teu coração de carne &
de tuas cinzas vou fabricar a
substância enlouquecida das
cartas de amor.

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