DESTAQUE - Boa mistura de sotaques musicais
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sexta-feira, 08 de agosto de 2003
Ana Setti Rosa<br> Reportagem Local 
Depois de arrebatar este ano dois importantes prêmios nacionais, na categoria música erudita, com o CD ''Imagens Brasileiras'', a Orquestra de Câmara ''Solistas de Londrina'' chamou a atenção da cidade, despertando a curiosidade para seus dois organizadores, o casal Evgueni Ratchev e Irina Ratcheva. Eles vieram da distante Bulgária, país localizado no sudeste do continente europeu, às margens do mar Negro, há 15 anos. Com graduação e mestrado pela Academia Superior de Música de Sófia e especialização em violino, regência orquestral e como camerista, realizada com renomados professores da Alemanha e da Itália, Evgueni foi convidado a vir ao Brasil, em 1987, pelo governo do estado do Pará, com o objetivo de formar o Quarteto de Cordas de Belém. Um ano depois de estabelecido na capital paraense, onde também viria a atuar como regente e spalla na Orquestra de Câmara do estado e a ministrar aulas de violino no Conservatório Carlos Gomes, Evgueni considerou que já era tempo de voltar à Bulgária, para buscar a esposa. Começava assim um produtivo e amoroso relacionamento com um país no qual o casal de músicos europeus intuía conseguir ''criar alguma coisa''.
Eles haviam se conhecido na Bulgária, em 1982, quando Irina concluía seus estudos na Academia Superior de Música, com graduação e mestrado em piano, e Evgueni, já um músico conceituado, procurava ''um pianista acompanhador''. Irina passou no teste e desse primeiro contato profissional, propiciado pelo interesse comum em relação à música erudita, veio o namoro e o casamento, em 1988, quando ele a trouxe para o Brasil. Ambos estranharam um pouco o calor e a umidade da região norte, mas se adaptaram rapidamente, graças em especial ''à receptividade das pessoas'', como se recorda Irina, ''que faziam de tudo para que não nos sentíssemos perdidos, fora de casa''. Aprenderam com facilidade o idioma, ''ouvindo muito'', principalmente Irina, que ficou 6 meses calada, absorvendo tudo o que pudesse, para, só então, ter coragem de falar português. ''Era essencial essa condição de saber falar e escrever bem o idioma'', ressalta, ''porque, para nós, não se tratava de uma aventura em um país distante''. Tanto não era uma aventura que quiseram formar aqui a sua família. Seus dois filhos - Acea, hoje com 12 anos, e Nikolau, com 10 - são brasileiros e, naturalmente, seguindo os passos dos pais, já estudam música.
Mas Belém do Pará não estava destinada a ser a única morada de Evgueni e Irina em terras brasileiras. Tendo conhecido Londrina em 1991, quando foi convidado a atuar como professor de violino no Festival da Música, Ratchev pareceu pressentir aí uma paixão futura. ''Adorei a cidade'', relembra, ''e até comentei com Irina que, se precisássemos sair de Belém por qualquer motivo, iríamos para Londrina''. A profecia se realizou 4 anos depois, com a dissolução do grupo musical no qual atuavam em Belém. Como não havia dúvida para onde ir, estabeleceram-se na cidade a partir de 1996 e, logo, estavam integrados à intensa vida cultural local. Ingressaram na Orquestra Sinfônica da UEL, ele como spalla e, durante um período, como maestro adjunto, e ela como pianista, ambos também atuando, em paralelo, em outras atividades ligadas à música.
Além de somar, trazendo o conhecimento e a tradição cultural européia para as cidades onde residiram, voltou-lhes, em 1998, o desejo ''de criar alguma coisa''. Surgiu, assim, por causa dessa antiga aspiração, a Orquestra de Câmara ''Solistas de Londrina'', composta por treze instrumentistas e que, a exemplo de outras orquestras de câmara no mundo, tem como concepção artística atuar sem regente. Evgueni e Irina estão entre os ''solistas''. Ele, no violino. Ela, no cravo. Mas acumulam funções, sendo Irina a coordenadora e Evgueni, além de spalla, o diretor artístico da orquestra. Contudo, uma idéia nova e de projeção mais ampla, nem sempre é compreendida e aceita de imediato. ''Foi preciso lutar muito para provar que, em Londrina, cabia mais uma orquestra'', comenta Evgueni, rememorando a reserva e a desconfiança que cercaram o nascimento da Orquestra de Câmara.
Quando percebiam seu desapontamento em relação a essa fria receptividade do meio cultural da cidade, os amigos de Evgueni lhe perguntavam por que, então, ele havia escolhido justamente o nome ''Solistas de Londrina''. E ele respondia: ''Esperem, que logo vocês vão entender o porquê''. Lá no fundo, sabia que, mais cedo ou mais tarde, o reconhecimento viria e, com ele, o esclarecimento de que a Orquestra ''era uma conquista de todos os músicos'', como frisa Irina, e que ''os benefícios viriam para Londrina'', conforme faz questão de dizer Evgueni. Este ano, cinco depois de estruturada, a Orquestra de Câmara ''Solistas de Londrina'' obteve seu primeiro reconhecimento nacional, com a conquista do Prêmio TIM de Música Brasileira, categoria erudito, para o CD ''Imagens Brasileiras'', que é uma homenagem, com sofisticação européia, à música erudita brasileira. Antes, o mesmo CD havia conquistado o Prêmio Saul Trumpet, em Curitiba. O que virá depois? Sejam quais forem os desdobramentos a partir de agora, uma fato é inegável: Londrina estará sempre junto e será projetada em amplitudes cada vez maiores pela música que não mais se esquece.


