DESTAQUE - A arte do futebol na TV
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segunda-feira, 01 de novembro de 2004
Luiz Carlos Merten<br> Agência Estado 
Nos anos 1960, não é despropositado pensar que muitos espectadores iam ao cinema, no Brasil, só para ver o cinejornal de Carlos Niemeyer. Cria de Jean Manzon, Niemeyer fez do Canal 100 a alegria dos torcedores. Antes do filme, propriamente dito, e como aperitivo, as salas exibiam aquele complemento sensacional - os jogos da semana, anunciados sempre pela trilha sonora que era hino do futebol brasileiro, ''Na Cadência do Samba'', de Luís Bandeira.
Se você alguma vez viu o Canal 100 deve estar até hoje com a música na cabeça - tãtãtã-tãtã. Pois ela vai voltar. A partir do dia 20, o Canal Brasil, da Net/Sky, vai exibir uma série de 8 programas de 20 minutos cada, retraçando a importância do Canal 100, como precursor dos Gols da Rodada de hoje. O primeiro episódio a ser mostrado chama-se Centenário do Flamengo e abre a programação do canal dedicada ao mês de aniversário do Mengo, do Rio. A seguir, serão exibidos - A Volta do Glorioso a General Severiano, O Maracanã Visto pelo Torcedor, Fluminense Campeão, O Torcedor Como Ele É, Vasco Supercampeão, O Rádio no Futebol e Botafogo Campeão Brasileiro. Aguenta, coração.
Os críticos não se cansam de dizer que o cinema nasceu documentário e realista, com os primeiros experimentos dos irmãos Lumière. Foi, mais tarde, com Georges Méliès que o cinema aprendeu a sonhar, sem nunca perder sua vocação realista. Em todo o mundo, o cinejornal esteve sempre presente, como gênero, ajudando a registrar a história e os costumes do século 20. No Brasil, Jean Manzon fazia cinejornais em cima de eventos e personalidades da vida pública. Seu discípulo Carlos Niemeyer, seguindo a trilha do mestre, concentrou seu foco no futebol. Não que o Canal 100 não exibisse outras imagens, mas as que ficaram na lembrança do cinéfilo, como do fã de futebol, foram as de jogos.
Carlos Niemeyer e sua equipe inventaram uma maneira de filmar o futebol. Colocando as câmeras no fosso, ao redor do campo, e dirigindo a teleobjetiva para as pernas dos jogadores eles criaram um estilo que marcou época e até hoje pode ser identificado em muitas transmissões esportivas. Como dizia o dramaturgo Nelson Rodrigues, que também foi cronista de futebol, ''foi a equipe do Canal 100 que inventou uma nova distância entre o torcedor e o craque, entre o torcedor e o jogo, grandes mitos do nosso futebol, em dimensão miguelangelesca, em plena cólera do gol.'' E Nelson Rodrigues prosseguia - ''Suas coxas plásticas, elásticas, enchiam as telas.'' Era fácil para o espectador identificar as pernas tortas do alvinegro Mané Garrincha. Foi assim que o Canal 100 mostrou tudo o que o futebol brasileiro tem de lírico, dramático, patético, delirante.
Porque não havia só os atletas em campo. O Canal 100 também dirigia suas câmeras para as arquibancadas, individualizando e humanizando a figura do torcedor. Era emocionante ver aqueles rostos crispados, radinho colado na orelha, explodindo de alegria na vibração dos gols. Pois essa lembrança do Canal 100 volta, inicialmente, como uma homenagem ao rubro-negro. Na sequência, o Canal Brasil exibe uma Mostra Fla-Cinema, destinada a celebrar a glória do Clube de Regatas do Flamengo. Ela vai culminar com o documentário sobre Zico. O esporte e a arte, a arte do esporte, tudo convergia no lendário Canal 100.


