Divulgação‘‘A única razão pela qual esse disco está sendo lançado é que, com o passar do tempo, eu passe a gostar dele e também porque algumas pessoas cujas opiniões são importantes para mim ficaram entusiasmadas’’, diz HerbertA melhor definição é dada pelo proprietário do disco: ‘‘É de uma simplicidade quase espartana’’. Quem diz é Herbert Vianna ao comentar o seu segundo trabalho solo - ‘‘Santorini Blues’’ (Emi) - em que interpreta dez canções (entre elas, a instrumental ‘‘Tweety’’) acompanhado apenas por violões, guitarras e uma discretíssima percussão (pandeiro, na verdade) aqui ou ali. E da simplicidade fez-se o agradável.
O formato musical não é nenhuma novidade. Muitos já utilizaram o expediente. Alguns se deram bem. Outros apenas contribuíram para experimentos musicais que servem, no máximo, para vaca dar mais leite e tomates crescerem maiores e mais vermelhos. ‘‘Santorini Blues’’ se encaixa na primeira categoria por um motivo bastante particular: a despretensão não fica relegada ao relaxo ou trivial.
Isso se dá porque Herbert Vianna faz maravilhas com violões e guitarras, tirando dos instrumentos sonoridades interessantes. Em outras palavras, ele não se limita apenas a tocar, tocar, tocar e, para impressionar, tascar solos mirabolantes. Quer dizer, Herbert faz tudo isso mas de uma forma inteligente. ‘‘Speed Racer’’ (dele com Fernanda Abreu e Fábio Fonseca) a batida do violão faz as vezes da outra leitura chacoalhantemente dance.
É por essas e outras que não se pode dizer que se trata de um disco retilínio, bocejante. Claro, há baladinhas de naná como ‘‘A Palavra Certa’’(em parceria com Paula Toller e George Israel) em que o pandeirinho come em dó maior. Há também letras recheadas de clichês. ‘‘Luca’’ é o melhor (ou pior exemplo). Manjem só um trecho: ‘‘Abre os olhos pra ver o mundo/Tudo é novo para os teus olhos novos/filho, pai, mãe, orvalho da manhã/tudo é novo para os meus olhos velhos’’.
Picuinhas. Picuinhas que não comprometem a delicadeza que reveste o disco. São facilmente esquecíveis ou digeríveis quando se ouve, por exemplo, Herbert tocar e cantar ‘‘Annie’’ (Eric Clapton-Lambert-Lane), ‘‘Uns Dias’’ (dele) ou a deliciosa ‘‘Por Siete Vidas’’ (Fito Paez). Sem muito blá-blá-blá e nhenhenhem: ‘‘Santorini Blues’’, antes de despretensioso ou simples, é um verdadeiro exercício de sensibilidade.
A toque de caixas ‘‘Santorini Blues’’ (referência a uma ilha grega) foi gravado de supetão, mais exatamente nos dias 12 e 13 de junho do ano passado, em Los Angeles (‘‘um lugar sem graça pra caramba’’). Diz Herbert que a intenção inicial era fazer uma fita demo. Coisa caseira. Uma espécie de mania que ele cultiva. Pois bem, no lugar sem graça pra caramba, aliás, em Los Angeles, onde os Paralamas estavam mixando o disco ‘‘Nove Luas’’, nos dias de folga acabou por entrar num estúdio O’ Henry, acompanhado do ‘‘fiel escudeiro’’ Carlos Savalla (que co-assina a produção do disco) e do engenheiro de som Jerry Napier.
Era apenas gravar e reproduzir a versão violão e voz de ‘‘Dos Margueritas’’ que ele cantou, certa feita, numa rádio chilena. Daí, o entusiasmo tomou conta e outras músicas que já rondavam a cabeça de Herbert foram sendo gravadas e gravadas. Disso resultou, um ano depois, ‘‘Santorini Blues’’. ‘‘A única razão pela qual esse disco está sendo lançado é que, com o passar do tempo eu passe a gostar dele e também porque algumas pessoas cujas opiniões são importantes para mim ficaram entusiasmadas’’ - diz Herbert.
O disco foi gravado a toque de caixas - no primeiro dia, Herbert e cia se trancaram dos estúdios das 7 à uma da manhã e, no segundo, das 11 horas até a meia noite. Tamanho empenho, no entanto, faz com que o cantor e compositor aponte algumas ‘‘imperfeições’’, tais como acordes, vozes que poderiam ser dobradas e etc. etc. etc. e tal.
Tais imperfeições são quase imperceptíveis. Coisas de músico exigente. ‘‘A graça é que hoje em dia é refrescante ouvir um disco que contenha imperfeições. Podem dizer: tá desafinado? Ora, deixa, faz parte. Em quantas músicas os Rolling Stones não atravessam ou desafinam?’’ - indaga.
Talvez seja por isso que a palavra despretensão tenha sido tão usada por Herbert para falar ou definir o trabalho. Não bastasse isso, ele deixa a impressão - falsa - de que o disco é tão pessoal que se vender uma ou um trilhão de cópias, tanto fez como tanto faz. Hum!!
Uma coisa Herbert deixa bem claro: o fato de ter uma carreira paralela em nada abalou (ou abala) a formação dos Paralamas do Sucesso, que está na estrada há 15 anos numa longevidade artística feita mais de altos do que baixos. ‘‘E olha que muitas vezes nos declararam clinicamente mortos. Mas temos várias avenidas para explorar ainda’’ - diz.
Silencioso RobertoCoincidentemente, a gravadora de Herbert está colocando simultaneamente no mercado a versão masterizada de ‘‘Ê Batumar钒, primeiro disco solo, lançado em 92. Vendeu, de acordo com o cantor e compositor, cerca de 20 mil cópias. Pouquíssimo. Quase nada. Herbert atribui a pouca aceitação a colloridos fatores econômicos da época. Gravado numa garagem, em Londres, ‘‘Ê Batumar钒 possuía uma qualidade sonora questionável.
Apostando na época de vacas gordas que os Paralamas vivem, a gravadora decidiu colocar o produto novamente no mercado agora com devida maquiagem sonora. ‘‘Eu acredito que esse disco possa, agora, a ter um pouco mais de repercussão porque estamos (Paralamas) numa posição melhor no mercado e também por ter muitas músicas minhas gravadas por diversas pessoas. Isso até pode despertar o interesse, a curiosidade das pessoas’’ - analisa.
De fato isso pode ajudar, principalmente pelo fato de que Herbert Vianna vem sendo cada vez mais requisitado e respeitado como compositor. Suas músicas já foram gravadas por cantores e cantoras dos mais diferentes naipes - de Marina a Fernanda Abreu, passando por Sandra de Sá e até mesmo ungidas por divindades como como Zizi Possi, Gal Costa e Nelson Gonçalves.
Falta alguém que ele gostaria ter uma canção gravada? Herbert pensa, repensa e antes de soltar um ‘‘não sei, sei lᒒ ele conta uma história interessante. Fez o que pôde para que uma música sua - ‘‘Nem Um Dia’’ - chegasse às mãos de Roberto Carlos. Está sentado até hoje tentando adivinhar se ao menos saber o tal ‘‘rei’’ ouviu ou simplesmente recebeu.
‘‘Roberto é uma coisa difícil... Não sei se realmente a música chegou, se ele gostou ou se o papel em que estava embrulhada a fita era marrom...’’ - ironiza. A música acabou caindo nas graças de Zizi Possi que, como sempre, fez maravilhas no seu mais recente disco ‘‘Mais Simples’’. Azar de Roberto!!

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