Desonestidade: 'autores' que escrevem com IA invadem as livrarias
Escrever, assinar e publicar textos feitos com IA cria uma nova categoria na literatura: a de "autor cara de pau"
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sábado, 01 de agosto de 2026
Escrever, assinar e publicar textos feitos com IA cria uma nova categoria na literatura: a de "autor cara de pau"

Em 2022, o primeiro livro infantil escrito por IA foi amplamente criticado, sobretudo por autores reais. Tratava-se de Alice and Sparkle, "escrito e ilustrado" por Ammaar Reshi em apenas 72 horas.
O tempo passou, a IA entrou em nosso cotidiano para múltiplas tarefas e no campo da criação literária as regras foram afrouxadas a ponto de, hoje, a IA copiar o estilo de autores consagrados, sendo que quase ninguém identifique a cópia. É fácil: basta colocar um prompt na ferramenta e pedir para escrever um poema como Hilda Hilst ou um conto como Domingos Pellegrini.
A falta de ética invadiu as artes, o jornalismo e até e-mails pessoais que, pasmem, os remetentes escrevem com IA como se fossem incapazes de expedir sozinhos uma ordem de compra.
E o que as big techs estão fazendo sobre isso? Nada. Se antes se limitavam a produzir um texto no estilo de um autor famoso, hoje se limitam a informar que o poema foi "inspirado" na obra de Hilda Hilst ou Clarice Lispector. Como se a "inspiração" redimisse a cópia.
Fiz um teste, pedi à IA que escrevesse um poema como se fosse Hilda Hilst. Veio a fórmula:
"Tece-me de noite,
quando a carne já não sabe se é prece ou vertigem.
Chama-me de longe, sem o teu nome,
que de nomes inventamos a gaiola e o medo."
O poema lembra os que se encontram na obra "Do Desejo", de HH, na seção "De Noite". Lembra, mas não tem a plenitude erótica nem filosófica de Hilda, mas é suficiente para quem deseja "ser poeta a qualquer preço" fazer o arremedo e publicar o poema assinado.
A criação por IA já não provoca nenhum constrangimento aos seus "autores." Ao contrário, existe um deslumbramento pela tecnologia a ponto de muitos dizerem "fiz com IA" , como se isso fosse a sua maior conquista: saber usar uma ferramenta. A maioria sequer comunica que produziu um texto através de inteligência artificial e recebe prêmios, passando pano na desonestidade intelectual.
Quando a inteligência artificial começou a escalar minha profissão - o jornalismo - e também o território da criação literária, fiz o mesmo teste que apresento aqui com um poema de Carlos Drummond de Andrade e disse na matéria o quanto o resultado era ruinzinho.
Hoje, a IA até melhorou sua performance, como neste poema produzido "no estilo de Hilda Hilst". O que não muda é a falta de ética de quem aproveita a onda para fingir autoria.
Há evidências de que um grande número de romances vendidos hoje são feitos por IA. Matéria do jornal O Globo, desta semana, informa: "uma equipe analisou uma amostra aleatória de 14.419 romances autopublicados lançados na Amazon entre janeiro de 2023 e março de 2026. O estudo concluiu que, em 2.168 desses livros, mais de 50% do texto havia sido gerado por IA, e que 970 romances tinham mais de 90% do conteúdo produzido por IA."
Na semana passada, o premiado escritor Cristóvão Tezza declarou ao Estadão: "Se escrever é o maior prazer da minha vida, por que iria terceirizá-lo à IA?"
Acho sensacional observar que autores autênticos escrevem por prazer, por paixão, e por isso não há satisfação em usar IA para criar um texto, muito menos para assiná-lo sabendo que, no máximo, inseriram informações num programa para depois publicar e vender um romance.
Quem usa IA é o que chamo de "autor cara de pau", uma nova categoria na literatura.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


