Desobediência hilária
O espetáculo de abertura do Filo 99 aconteceu com a mais internacional de nossas atrizes de teatro, a endiabrada Denise Stoklos. De seu repertório, ela nos brindou com o alucinante espetáculo Desobediência Civil, uma compilação do texto de Henry Thoreau, com suas rebeliões internas, traduzidas como Teatro Essencial. Desobediência Civil é o último discurso do milênio, proferido a 7 minutos para o ano 2000. É para ficar registrado na memória do teatro.
Com sua inventividade, Denise psicanalizava muito bem os metros de palco do Cine-Teatro Ouro Verde. Se valendo do ofício de visionários, a atriz mais uma vez defende um discurso pela descolonização do Brasil e da alma humana. No palco, ela se desdobra em mil, se multiplica. Denise Stoklos é um elenco. A platéia, sem perceber, vai se livrando da fúria domesticada, se tornando uma só, inebriada pelo humor e entrega física da atriz.
O teatro de Denise Stoklos é fundamentalmente o verbo. A palavra é o caminho mais rico, mais denso e mais complexo em Desobediência Civil. O verbo é a própria ação. Quando ela se reporta para a infância, emergem da imaginação do espectador situações familiares, patéticas e ternas.
A fuga para o bosque, proposta por Thoreau/Stoklos, é o ponto de partida para reflexões. É a volta ao primitivo. No entanto, há o perigo iminente de se deparar com uma selva escura e descobrir que lá também não existe nada, nada do que se pensava encontrar. Num ponto escuro da nossa consciência, lateja a pergunta O que foi feito de tudo o que a gente sonhou?
Em Desobediência Civil, há momentos em que a atriz fica uma oitava abaixo, com as tiradas escatológicas, arrancando por vezes um riso nervoso do público. Mas na maior parte do espetáculo Denise estava uma oitava acima, era pura sublimação. Suas máscaras cômicas são caricaturas do cotidiano. Debocha da nossa condição de civilizados ao se refastelar e dizer eu desconfio de mim mesma. Ou então que vontade de sentir ciúmes.
Desobediência Civil é um espetáculo que funciona como um desbloqueador das percepções. Denise, como ninguém, sabe alternar momentos ternos, hilários, filosóficos e críticos. Com ela no palco, nossos sentidos se ampliam. Relaxado, o público fica mais receptivo para refletir sobre a mesquinhez a qual se submete diariamente. Tudo se encaixa até que todos estejam sintonizados na mesma linha imaginária de Thoreau/Stoklos. Assim fica fácil desacomodar os sentidos e resgatar a auto-estima.
Dentro da proposta do Teatro Essencial criado pela atriz, a ética está amalgamada. E isso fica claro, quando ela profere em alto e bom som que toda notícia tem de ser para iluminar quem a recebe. Toda notícia tem de levantar a cabeça de quem a recebe. Desobediência Civil, lança a metáfora de fugir para a floresta e escutarmos a natureza, para redimensionar nossa civilidade. Viver é missão, e custa.Denis Leão/ DivulgaçãoDenise Stoklos em cena: emocionando o público com espetáculo baseado em discurso de ThoreauFrancelino França





