Autor de 11 livros, o rabino Nilton
Bonder fala de ética, modernidade,
compreensão e transgressão das leis

DivulgaçãoNilton
Bonder:
‘‘quem transgride
cumpre aquilo
que Deus espera
da gente’’
Zeca Corrêa Leite

Desconfie daquele que segue a lei sem desviar-se um milímetro sequer da linha desenhada. Olhe com bons olhos para o transgressor - esse traz em si a coragem não só de transformar a tradição, como de moldar-se às situações, conforme elas se apresentam. Afinal, ‘‘o ser humano é diferente dos animais pela sua natureza transgressora. Faz parte da regra do jogo fazer o que não deve’’, observa o rabino Nilton Bonder.
Membro da Congregação Judaica do Brasil, do Rio de Janeiro, autor de 11 livros - entre eles ‘‘A Cabala do Dinheiro’’ e ‘‘O Segredo Judaico de Resolução de Problemas’’ - Bonder acaba de lançar ‘‘A Alma Imoral’’, em cuja obra o autor discorre sobre a imprescindível imoralidade da alma.
Ele esteve em Curitiba para uma palestra - seguida de sessão de autógrafos - onde definiu espiritualidade como sendo ‘‘o desejo de obedecer e desobedecer, para desta maneira melhor obedecer’’. Complicado? Nem tanto. É da condição humana a tendência a novos caminhos. Se por um lado o corpo é rígido, a alma vai além, atrás de outros destinos. ‘‘O corpo se molda, a alma não. Ela enxerga a imortalidade’’, argumenta o rabino. E mais: ‘‘Os verdadeiros sonhos que o indivíduo tem são todos eles transgressores.’’
Abaixo, a entrevista que o rabino Nilton Bonder concedeu à Folha2:
A ética não vem do corpo?
A ética vem da tensão entre o corpo que propõe boas éticas, e do outro elemento, que é o transgressor. Nenhum dos dois detém o que é em si positivo, o que é ético. Ela é a construção da tensão resultante dessas duas partes. Vejamos: o ser humano é ao mesmo tempo responsável pela procriação, pela continuidade da espécie, como de certa forma também por algum elemento de mutação em si mesmo. A sobrevivência do homem não está só em se reproduzir, mas além disso, em alguma dimensão também mutar a si mesmo.
Quer dizer que o homem é fruto de uma luta constante?
Sim, de uma luta constante que é pela preservação e pela modificação ao mesmo tempo. Esse equilíbrio é que lhe permite a sobrevivência.
A transgressão traria em si o risco do desconhecido?
Ela traz e pode ser extremamente negativa. Você pode tomar decisões transgressivas que, inclusive, coloquem em xeque a sobrevivência da civilização. Mas tem aquilo que diz na Bíblia - ‘‘crescei e multiplicai-vos’’ - e que não serve para o mundo de hoje, onde estamos com problemas de superpopulação. É interessante pensarmos que talvez a melhor maneira de fazer cumprir essa lei seja não tendo filhos. Na verdade, o fundamento dela diz ‘‘procriem porque vocês têm obrigação de sobreviver’’, mas em melhores condições. Outra opção é diminuir bastante a quantidade de filhos, que é uma maneira de fazer cumprir a lei, desobedecendo-a profundamente. Essa é uma questão moral para nós e está modificando toda estrutura da cultura que estamos vivendo.
Seria este procedimento uma espécie de humanização das leis?
Humanização e compreensão de que as leis vêm para proteger a sobrevivência, a vida, a saúde. Elas não vêm para se garantir a si mesmas; elas são instrumentos da nossa existência, e então estão preocupadas com a melhor maneira de incentivar, de proteger a própria vida.
E as leis jurídicas, que seguem a tradição do Código Romano? Seguí-las à risca seria obtuso? É obtuso aquele que as cumpre?
À risca, com certeza é. Tanto que as usamos como base para nossa jurisprudência, mas estamos constantemente modificando nossas leis...
...que muitas vezes são modificadas visando o interesse dos poderosos.
Esse é um outro processo, é a outra face da lei: quando ela não está promovendo a vida, mas o bolso, os interesses de alguns indivíduos.
A transgressão também é dual? Pode pender para o bem como para o mal?
Não há dúvida; como o cumprimento e a obediência também. O descumprimento pode ser para o bem e o mal, e o cumprimento também. Mas o que se vê no Brasil é um desenvolvimento cuja tendência é a de eliminar o que em certo momento foi absolutamente perverso. Porque as leis eram manipuladoras e iam de encontro aos interesses de determinados grupos. Mas ainda assim a sociedade veio se organizando de tal maneira que hoje você lida melhor com essa questão. Estamos muito melhor hoje que há 100 anos atrás.
E a sociedade, mundialmente falando, caminha para onde?
A sociedade está vivendo neste momento transições impressionantes. Se a gente parar para pensar que um direcionamento profundo dentro de nós é a procriação e que o mundo nos propõe que procriar talvez seja uma maneira de nos destruir, tudo isso coloca o ser humano num lugar onde ele perdeu o chão. Onde ele tem que reestabelecer os parâmetros de sua vida. Isso está acontecendo em inúmeras áreas, e você se vê colocando em xeque instituições que são instituições-células da sociedade. Coloca em xeque a lei, a família, as relações humanas. Acho que o ser humano está num momento de grande indecisão, de grandes transformações, com todo esse impacto tecnológico que está criando desemprego, que está gerando toda uma nova ordem de inseguranças pelo mundo.
Esse impacto é positivo ou negativo?
Acredito que seja um processo positivo, onde a gente vai encontrar formas de equilíbrio, onde o ser humano conseguirá ter controle. Acredito que depois de um certo tempo ele estará novamente organizado. A força maior do ser humano é para o bem, é para uma compreensão ética, de responsabilidade. O que está em jogo para nós - e existem vários relógios correndo contra a gente - é se estamos andando com a velocidade necessária, antes de sermos atropelados por um processo sem controle, que venha a depor contra a nossa própria sobrevivência. Como a poluição, a pobreza, a instabilidade social, etc.
Também a guerra, a insatisfação de um povo contra o outro?
Num momento que se tem massas inteiras de pessoas desempregadas, sem perspectivas de futuro, você passa a entender a guerra de outra maneira. Não será um país versus outro país. Houve um momento em que você montava um exército e se protegia. Só que na instabilidade de agora, você vai lutar contra quem? Contra seu vizinho? Acho que a instabilidade gera outra compreensão de segurança e com certeza vai gerar outro nível de responsabilidade para os seres humanos. Enquanto ele está protegido com seu exército, enxerga as suas responsabilidades de uma determinada forma. Quando perde esse controle vai entender que, se não se responsabilizar pelo processo da sua sociedade de outra maneira, não terá a segurança que tanto almeja e quer. Vejo de maneira positiva esta insegurança, mas sei que existem relógios que correm contra nós. Se a gente não conseguir imprimir o ritmo necessário para nossa sobrevivência, estaremos correndo seriíssimos riscos neste exato momento. Digo isso a nível mundial.
Voltando à transgressão: o senhor é um transgressor?
Tento ser. Mas o que significa ser transgressor? Primeiro: amar profundamente a lei, as convenções, tentar vivê-las, entendê-las. No momento em que as ama profundamente é que você tem a condição de transgredir. Quem não ama, não respeita o próprio esforço do passado de construir alguma coisa que se acreditava de valores, de princípios. Não consegue, na verdade, ser um transgressor.
Quem transgride chega mais perto de Deus?
Quem transgride cumpre aquilo que Deus espera da gente.

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