'Desmundo', uma história do Brasil colonial
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quinta-feira, 02 de outubro de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Assistir a ''Desmundo'' - quarto longa-metragem do cineasta francês radicado no Brasil, Alain Fresnot - é um desafio. Primeiro porque, mesmo com legendas, a curiosidade obriga a apurar os ouvidos para entender o português arcaico utilizado nos diálogos do filme. Depois, porque as peculiaridades vão além da linguagem, oferecendo ao espectador uma gama de possibilidades para reflexão. Apresentando um elenco primoroso e uma ambientação impecável, o filme conta a história de Oribela, uma adolescente que sai do convento para se casar no século 16.
Oribela é interpretada pela atriz curitibana Simone Spoladore, que divide a cena com veteranos como Osmar Prado e Caco Ciocler. Mas o filme é protagonizado essencialmente por Simone, que vive a jovem devota que chega ao Brasil com outras órfãs, enviadas para desposar os primeiros colonizadores e suprir a falta de mulheres brancas no País. Rejeitada pela maioria dos homens por causa de sua rispidez, ela acaba se casando com Francisco (Osmar Prado), mas não perde a oportunidade de fugir na primeira distração do marido e dos empregados do engenho.
Francisco, já ligado a jovem esposa, persegue Oribela e a traz de volta, mas a primeira não seria a última tentativa da adolescente de fugir do inóspito lar e voltar à Portugal. No engenho, ela convive com a estranha família de Francisco. Dona Branca, a mãe de Francisco, é interpretada por Berta Zemel, que chegou a ficar 30 anos afastada dos palcos e das telas antes de aceitar o convite para interpretar o espetáculo ''Anjo Duro'', dirigido por Luís Valcazaras. Foi a partir do espetáculo, que surgiu o convite de Fresnot para participação em ''Desmundo''.
O filme traz ainda participações especiais de atores consagrados, como Beatriz Seggal e parte do elenco de dois grupos salientes na cena teatral brasileira. O diretor do grupo paulista Ornitorrico, Cacá Rosset, interpreta Dom Alfonso, primeiro homem chamado a desposar Oribela, mas que a jovem rejeita. Do mesmo grupo também integra o elenco José Rubens Chachá. Raul Barreto e Hugo Possolo, do grupo Parlapatões, também têm alguns minutos de glória no filme, interpretando marinheiros que tentam violentar a moça em uma de suas tentativas de fuga.
O próprio diretor também faz uma participação especial em cena, interpretando um empregado distraído que deixa abertos os portões do engenho, aparecendo apenas por alguns segundos. E mesmo em aparições relâmpagos de personagens ou cenas, o filme prima pela fidelidade dos cenários, figurinos e adereços à história da colonização.
O quarto longa-metragem de Fresnot (ele já dirigiu ''Trem Fantasma'', ''Lua Cheia'' e ''Ed Mort'') é baseado no romance homônimo de Ana Miranda, atriz e autora cearence que escreveu, entre outros, o livro ''Boca do Inferno'' (Prêmio Jabuti). A história lembra remotamente a própria realidade do diretor, que chegou no Brasil, vindo de Paris, aos oito anos.
''Desmundo'' chegou a integrar a lista de filmes que disputariam o Oscar 2003, junto a longas como '' O Homem que Copiava, de Jorge Furtado'' e ''Durval Discos'', de Ana Muylaert, mas perdeu para ''Carandiru'', de Hector Babenco, que vai disputar a premiação. O longa estréia hoje, na Cinemateca de Curitiba.


