São Paulo, 09 (AE) - Em respeito à vocação para tribunal de "Vila Madalena", que se dê julgamento aos autos. A ré, a suplicante novela das 7 da Globo, que estreou na segunda-feira, é a história de homens injustiçados, marcados pelo destino com a prisão. Mas o Conde de Monte Cristo que reclame sua costela: ao júri de controle remoto cabe atenção aos fatos, nada mais. E os fatos são inclementes: a ré é uma inocente vítima das circunstâncias. Produto de fast food cultural, criada em ritmo industrial, não merece ser condenada pelos crimes que, afinal, toda novela comete contra a lógica e a coerência.
Seus delitos não são, portanto, os personagens paulistas com sotaque carioca, os japoneses que só falam inglês no bairro da Liberdade, as cenas de valorização imobiliária ou as imagens do túnel do Anhangabaú alagado, mesmo sendo a história ambientada sete anos antes. Os crimes de "Vila Madalena", prezado júri, são mais sutis e profundos. Sua falta mais agressiva na estréia foi a previsibilidade com que acentuou os momentos de contraste, com personagens valorizando coisas que o destino arrancaria em seguida. Como agravantes, juntem-se aos autos a dimensão quase religiosa dada por Eugênia (Maitê Proença) ao fato de descobrir-se grávida e a emoção caras-e-bocas de Pilar (Cristiana Oliveira) diante do vestido de noiva.
Fiquemos, por enquanto, só nesses dois casos. Eugênia e Pilar tanto mais enfatizam valores femininos estereotipados quanto mais eles acentuam a perda de seus homens. A primeira tem Solano (Edson Celulari) preso ao volante de uma carga roubada; a segunda vê Roberto (Marcos Winter) acorrentado após empurrar para a morte o malfeitor que ameaçava a honra da amada - no fundo, a defesa de sua propriedade. Espanta mesmo que a prisão de Roberto seja tão categórica, sabendo-se que advogados de quitanda não teriam dificuldade em obter cumprimento de pena em liberdade para um réu primário, de classe média alta, que cometeu crime culposo, sem intenção de dolo.
Se não se pede realismo a novelas, não se pode perdoar que ela seja descuidada com as premissas mais vitais à verossimilhança de sua história. A seu favor, no entanto, a ré tem como atenuante a sua equipe de direção. Na estréia, Jorge Fernando e companhia valorizaram o desenvolvimento da história por meio de um conceito, o de um grande videoclipe costurando a apresentação de personagens e problemas. Toda a trilha sonora da novela desfilou pelo primeiro capítulo e, não por acaso, a própria abertura do programa é um clipe, de Ana Carolina cantando uma versão de "Help", dos Beatles.
Primeiro capítulo de novela é sempre suspeito. Primeiro, porque antes da estréia sempre há tempo para corrigir o que não funciona no vídeo. A ré teve do júri o apoio de 33 pontos de audiência, um a menos que a estréia de sua antecessora "Andando nas Nuvens", que terminou no sábado com 41 de média. Estamos longe, portanto, de um veredito. Na dúvida, tudo pode virar pró-réu. Audiência adiada até os próximos capítulos.

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