Londrina se abre para um novo cenário nas artes plásticas com o anúncio, amanhã, da nova direção do Museu de Arte da cidade e a abertura da exposição de obras do acervo da arquiteta Lina Bo Bardi. As atividades marcam o lançamento da 6 Feira Nordestina da Cidade de Londrina, que começa no final do mês.
O secretário de Cultura, Bernardo Pellegrini, diz que o evento de amanhã estará desencadeando o projeto de transformação do espaço em um ''museu vivo''. Por isso a escolha da exposição ''O Design no Impasse'', parte de uma coleção de objetos de arte popular que a arquiteta italiana recolheu em suas andanças pelo nordeste brasileiro no final das décadas de 50 e início de 60. ''Esse evento vai aliar o trabalho da alta cultura a uma festa popular'', diz Pellegrini.
Quanto à nova direção do museu, o secretário anuncia hoje a nomeação da ex-diretora de Patrimônio Histórico-Cultural da Secretaria de Cultura, Sandra Jóia. Segundo Pellegrini, a idéia é profissionalizar a gestão do museu. ''Não é uma questão política e sim de eficiência e profissionalismo. Por isso a indicada é uma pessoa da própria Secretaria de Cultura'', afirma.
A exposição ''O Design no Impasse'', montada em 1997, é um levantamento cultural do ''pré-artesanato'' brasileiro a partir do testemunho e das reflexões de Lina Bo Bardi (1914-1992). A mostra traz 220 peças, entre objetos de lata, cerâmica, metal e madeira, tecidos, imagens, quadros, tapeçarias e cartazes do acervo pessoal da arquiteta. Registros importantes também foram feitos em fotografia por nomes como Pierre Verger e poderão ser vistos em Londrina.
O responsável pela montagem da exposição em Londrina, Giancarlo Latorraca, do Instituto Lina Bo Bardi, salienta que a mostra ilustra as idéias que a arquiteta defendia em relação ao potencial da criatividade do povo brasileiro. ''Ela acreditava que o Brasil poderia ter desenvolvido uma indústria autóctone, que o desenho industrial no País poderia ter como base o gosto popular. Com essa mostra o público poderá ter idéia desse olhar'', antecipa.
Latorraca conta que a preocupação de Lina com a arte brasileira surgiu na década de 50, quando ela dirigiu o Museu de Arte da Bahia e iniciou o levantamento e a divulgação do trabalho de valorização da cultura popular.
A coleção, pertencente ao Instituto Lina Bo Bardi e Pietro Maria Bardi, é o que o curador da mostra e diretor-executivo do Instituto, Marcelo Carvalho Ferraz, define como ''quase uma provocação do desenvolvimento da indústria do design''. Lina Bo Bardi defendia a idéia de que as peças do ''pré-artesanato'' uma tentativa de compreensão da civilização nordestina deveriam dar origem a um desenho industrial nacional. Para ela, o artesanato como corpo social nunca existiu no Brasil ''o que existiu foi uma imigração rala de artesãos ibéricos ou italianos e, no século 19, manufaturas. O que existe é um pré-artesanato doméstico esparso''.
A arquiteta acreditava que ''o levantamento cultural do pré-artesanato brasileiro poderia ter sido feito antes do País enveredar pelo caminho do capitalismo dependente, quando uma revolução democrático-burguesa era ainda possível. Neste caso, as opções culturais no campo do desenho industrial poderiam ter sido outras, mais aderentes às necessidades reais do país...''.
Na década de 80, Lina Bo Bardi começou a trabalhar no livro ''Tempos de Grossura: O Design no Impasse'', que reuniria sua pesquisa sobre a arte do povo nordestino. Mas por achar que não adiantaria mais, que ''tudo isso iria cair no vazio'' já que o País tinha mudado muito desde o início de seu trabalho a arquiteta interrompeu o projeto, que foi retomado após sua morte pelo Instituto Lina Bo Bardi. O livro foi lançado em 1995 e estará à venda no Museu de Arte.
''O Design no Impasse'' esteve recentemente na Pinacoteca do Estado de São Paulo e já fez parte de exposições levadas à Trienal de Milão, Embaixada de Roma, Principado de Mônaco e Cidade do México.


''O Design no Impasse'' Exposição do acervo de Lina Bo Bardi. Abertura: Amanhã, às 20 horas, no Museu de Arte de Londrina (Rua Sergipe, 640). A exposição, que marca o lançamento da 6 Feira Nordestina, poderá ser visitada até o dia 2 de setembro, das 9 às 17 horas. Apoio cultural: Sercomtel. Colaboração: Instituto Lina Bo Bardi de São Paulo.

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