DESIGN - Eletrodomésticos que deixaram saudades
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de setembro de 2006
Beatriz Coelho Silva<br> Agência Estado 
Dois livros e uma exposição no Museu Histórico Nacional contam a evolução dos costumes brasileiros tendo eletricidade e eletrodomésticos como referência. Álbum Carioca - 1950/ 1960/ 1970, do Centro de Memória da Eletricidade no Brasil (R$ 40), voltado para o público infanto-juvenil, seduz adultos que viveram essas décadas. Em Eletrodomésticos: Origens, História e Design no Brasil, o livro (Editora Frahia R$ 90) que também dá nome à mostra, especialistas contam como evoluíram os equipamentos dos lares brasileiros no século 20. Na exposição, há desde as primeiras geladeiras e a TV que chegou trazida por Assis Chateaubriand no fim dos anos 40 (com tela redonda) até os produtos de última linha.
Dividimos o assunto em três fases: quando só os ricos tinham eletrodomésticos importados, sua popularização após a Segunda Guerra e até a instalação da indústria aqui, com o desenvolvimento do design próprio criado por e para brasileiros, a partir dos anos 60, conta Silvia Frahia, coordenadora do livro e da mostra. Aparelhos que estão no livro vieram para a exposição, pois há muitos colecionadores de eletrodomésticos. As grandes marcas (Semp, Walita, Brastemp e General Electric) têm modelos antigos em perfeito estado, além de acervos particulares. Há também a coleção do Instituto Nacional de Tecnologia.
Para quem quer lembrar ou saber como era a vida doméstica em décadas passadas, há geladeiras e televisores primitivos, quando estas eram um móvel da sala e aquelas, necessariamente brancas e arredondadas, rádios de toda espécie e tamanho (até o que Hitler mandou fabricar para disseminar suas idéias), liquidificadores e batedeiras, que vêm com explicações do contexto em que eram usados e os comerciais que os vendiam. É imperdível o da tevê Máscara Negra, cujo jingle era a marcha de Zé Kéti do mesmo nome, cantada pelo próprio. Mostra e livros são patrocinados pela rede de lojas Ponto Frio, que completa 60 anos e usou recursos incentivados (R$ 400 mil pela lei estadual, que permite uso do ICMS em projetos culturais) e próprios.
Álbum Carioca também prima pelas ilustrações e pelo texto ágil, para conquistar adultos e crianças. O livro tem um irmão mais velho, referente às décadas de 20, 30 e 40, e ambos são filhotes de um projeto maior do CMEB, A Vida Cotidiana no Brasil Moderno e A Vida Cotidiana no Brasil Nacional, que falam das mudanças sociais causadas pela eletricidade no século passado. O interesse das escolas foi tão grande que fizemos adaptações, conta a chefe de Comunicação do CMEB, Liliane Cordeiro. No Álbum Carioca mais recente, evitou-se recorrer à memória afetiva. Toda a equipe do livro teve a infância no período abordado. E há muitas imagens dessa época, ao contrário das anteriores, continua. Escolhemos retratar o Rio porque as fontes de consulta estão aqui (Biblioteca e Arquivo Nacionais e acervos privados) e porque a cidade sempre foi muito retratada.
O Álbum Carioca dá panorama do País e do mundo nas três décadas, juntando evolução tecnológica e avanço da energia elétrica. Passa pela moradia e pela paisagem urbana para chegar ao lazer fora e dentro de casa. Mostra os surfistas e a Avenida Atlântica só com uma pista e o ônibus lotação, que substituiu o bonde, e a Avenida Atlântica ainda só com uma pista, além dos brinquedos como playmobil (brinquedos de montar) e Atari (avô dos videogames). A TV foi o fator de mudança, lembra Lilian.
Os outros eletrodomésticos variaram de acordo com o status que deram a seus proprietários através dos tempos. Quando uma parte da casa se torna pública, seu móveis ganham importância, lembra o especialista em marketing e hábitos do consumidor Eduardo Ayrosa, consultor de Eletrodomésticos. Antes era a televisão, mas hoje, com as cozinhas integrando a área social dos apartamentos, ter um fogão de última linha é mais importante que a TV.


