Desgovernando o abismo
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de abril de 2002
Marcos Losnak Especial para a Folha 
O abismo entre duas pessoas sempre tem a possibilidade de existir. Ele pode assumir a imagem de uma fenda aparentemente discreta, mas uma fenda que o tempo se encarrega de projetar com lente de aumento. Mesmo que o amor seja o elemento de ligação, o abismo utiliza mecanismos próprios para envolver os corpos e isolá-los em quartos escuros.
No romance Meu Michel, o escritor israelense Amós Oz desenha o desenvolvimento desse abismo através dos miúdos e diários passos da vida. Narra a história de Hana, uma mulher que no decorrer dos anos presenciou a formação de uma fenda entre ela e o marido. Um distanciamento que cresceu lentamente até atingir um ponto sem possibilidade de retorno. Um ponto onde o delírio comanda a situação.
Escrito em 1968, Meu Michel já foi publicado anteriormente no Brasil. Agora está sendo reeditado pela Companhia das Letras com nova tradução, realizada diretamente do hebraico. Amós Oz é considerado uma dos escritores mais representativos da literatura israelense da atualidade. Além de seu trabalho literário, desenvolve intensa militância política em prol da paz entres judeus e palestinos. Nascido em Jerusalém em 1939, aos 15 anos de idade presenciou o suicídio da mãe. Após esse episódio passou a recusar sobrenome Kozner, adotando Oz (coragem em hebraico). Formado em filosofia e literatura hebraica pela Universidade de Jerusalém, publicou mais de 20 livros, entre romances, ensaios e contos.
De uma maneira simplista, Meu Michel pode ser descrito como um romance em que o narrador, no caso Hana, apresenta sua vida, mais especificamente sua relação com o marido Michel, de maneira simples e direta. Mas nessa trajetória, ela abraça lembranças do passado e a memória assume a forma de um bote salva-vidas. Nesse processo, imagens delirantes invadem sua mente e entram em jogo com o passado e o presente.
Se, de um lado Hana cultiva sonhos, de outro Michel confere aos sonhos um valor desprezível. Com o passar dos anos, Hana se refugia em seu mundo interior e Michel se isola no mundo externo, na realidade de carne e osso. Esse movimento acelera o distanciamento do casal, tendo como pano de fundo a cidade de Jerusalém da década de 50 e as guerras da região.
No campo literário é extremamente óbvio colocar duas personagens antagônicas num mesmo espaço/tempo, onde o conflito, ou o embate entre ambos, passa a ser o enredo. No caso de Meu Michel, Amós Oz consegue transpor esse lugar comum ao não superdimensionar os conflitos. Sua opção é diluí-los ao máximo, até uma possível sutileza. E essa diluição acaba se decantando em Hana, aos poucos, até atingir o limite máximo. O limite onde a explosão assume a forma de sobrevivência pura e simples.
Nos sentimentos mais íntimos de Hana, Amós Oz vislumbra um sentido aproximado da questão político/religiosa da guerra entre judeus e palestinos de maneira sensata. Ou seja: Todos os fatos sempre estão prontos a ser interpretados das mais diversas maneiras, e quem os interpreta, dependendo de sua sagacidade e determinação, poderá se apossar desses fatos como simples matéria-prima e impor a eles sua vontade.
Serviço:
Meu Michel, de Amós Oz, Editora Companhia das Letras, tradução de Milton Lando, 304 páginas, R$ 33,00.


