Carnaval carioca têm despedidas e exaltação aos orixás
Maior intérprete do samba carioca, Neguinho da Beija-Flor faz seu último desfile marcado pelos enredos voltados à cultura afro-brasileira
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025
Maior intérprete do samba carioca, Neguinho da Beija-Flor faz seu último desfile marcado pelos enredos voltados à cultura afro-brasileira
Claudemir Scalone/ Editor 

A Marquês de Sapucaí vai se transformar num autêntico terreiro quando a sirene anunciar a abertura dos desfiles do grupo especial das escolas de samba do Rio de Janeiro neste domingo (2).
A maioria dos enredos aborda temas ligados ao candomblé ou à umbanda. As letras dos sambas-enredos exaltam os orixás e outras entidades incorporados na cultura afro-brasileira das comunidades do Rio de Janeiro.
As baterias incluíram o principal instrumento musical utilizado nos rituais: o atabaque. Paradinhas pontuais vão destacar os tambores que dão o ritmo às canções.
A maior novidade em 2025 serão os três dias de desfiles. As 12 escolas agrupadas quatro a quatro se exibirão no domingo (2), segunda (3) e terça-feira (4). As escolas ganharam ainda 10 minutos a mais para se exibirem: agora são 80 minutos.
DESPEDIDAS
O Carnaval deste ano também marca despedidas. Aos 75 anos, Neguinho da Beija-Flor anunciou que este será seu último ano como intérprete do samba-enredo da Beija-Flor, depois de 50 anos. "A minha despedida não será fácil, mas estou me preparando para estar 1000% e fechar com chave de ouro o meu último ano como intérprete da nossa Beija-Flor", afirmou Neguinho ano passado, ao dizer que devido ao peso da idade deixará de empunhar o microfone na Sapucaí, mas seguirá na escola de Nilópolis.

Quem também deixará de ser rainha de bateria da Grande Rio é a atriz Paolla Oliveira. "O Carnaval está em mim. No Carnaval me descobri, no Carnaval eu me assentei à frente dessa festa. Então, não tem como, a Grande Rio está no meu coração e não vai sair da minha vida", disse ela em entrevista à Rede Globo, ao confirmar seu último desfile à frente da bateria da escola de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Paolla justificou que novos trabalhos exigem dela dedicação total, como a personagem Heleninha Roitman que vai interpretar na refilmagem de "Vale Tudo", um dos maiores sucessos da teledramaturgia da emissora.
SAMBA COM OSCAR
E a abertura dos desfiles na Sapucaí vai coincidir com a premiação do Oscar no domingo (2), quando o país vai parar para acompanhar a cerimônia e saber se o filme "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, com a atriz Fernanda Torres, vai conquistar estatuetas douradas. A própria TV Globo vai transmitir ao vivo a festa de Hollywood e exibirá o desfile das duas primeiras escolas durante a madrugada.
Vindo do grupo de acesso, a Unidos de Padre Miguelabre o desfile de domingo com o enredo "Egbé Iya Nassô" que narra a trajetória da africana Iyá Nassô e do Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho, tido como o mais antigo templo afro-brasileiro ainda em funcionamento.
Na sequência, vem a Imperatriz Leopoldinense com "Ómi Tútu ao Alafon - Água fresca para o senhor de Ifón" que fala sobre a ida de Oxalá ao reino de Oyó com a intenção de visitar Xangô.
Campeã em 2024 e favorita este ano, a Unidos do Viradouroconta a história de “Malunguinho: O Mensageiro de Três Mundos”, um líder quilombola que virou entidade afro-indígena. O samba-enredo foi eleito o melhor do ano e já fez sucesso nos ensaios técnicos na voz impecável de Wander Pires.

Quem fecha a madrugada é a Estação Primeira de Mangueiracom o tema “À Flor da Terra – No Rio da Negritude Entre Dores e Paixões".
DEDO NA CARA
A noite de segunda-feira (3) será aberta pela Unidos da Tijucacom o enredo "Logun-Edé: Santo Menino que velho respeita" que conta a saga do orixá Longun-Edé, filho de Oxóssi e Oxum.
Num desfile que promete muita emoção - afinal é o último em que se ouvirá a inconfundível voz de Neguinho anunciar "Olha a Beija-Flor aí, gente" - a escola de Nilópolis escolheu homenagear Laíla, carnavalesco que morreu de covid-19 em 2021 e esteve presente em 13 dos 14 títulos da escola, incluindo o último, em 2018. O samba faz referência a outro nome que se confunde com a Beija-Flor, Joãozinho Trinta: "Chama João pra matar a saudade"! Em outro trecho aponta uma característica da personalidade forte Laíla: "O dedo na cara, quem for contra, reza!".
Na sequência, o Acadêmicos do Salgueirotraz o enredo "Salgueiro de corpo fechado" para falar sobre a relação humana com a busca pela proteção espiritual e avisa: "Quem se mete com o Salgueiro, acerta as contas na curimba".

Única a não abordar diretamente os orixás, a Unidos de Vila Isabel leva para a avenida “Quanto mais eu rezo, mais assombração aparece”, num samba divertido que fala sobre assombrações que estão no imaginário popular de crianças e adultos desde os brasileiros curupira e lobisomem a bruxas e vampiros das lendas europeias: "Quanto mais samba tocava, mais defunto aparecia".
HOMENAGEM A BITUCA
A terça-feira (4) começa com a Mocidade Independente de Padre Miguelque traz o enredo "Voltando para o Futuro - Não há limites pra sonhar".
A Paraíso do Tuiutileva um questionamento para a Sapucaí: "Quem tem medo de Xica Manincongo?" para contar a história da primeira travesti do Brasil. Trazido do Congo e escravizada, Xica foi condenada à morte pelo Tribunal do Santo Ofício e queimada viva em praça pública em Salvador.
A Acadêmicos do Grande Riovai homenagear o Pará com o enredo “Pororocas parawaras: as águas dos meus encantos nas contas dos curimbós”. A escola mostra como a miscigenação se faz presente na cultura regional com rituais indígena e afro-brasileiro: "Pororoca me leva, Pro fundo do igarapé".
Quem fecha o desfile é a tradicional Portelaque escolheu homenagear um dos ícones da música popular brasileira: "Cantar será buscar o caminho que vai dar no sol – Uma homenagem a Milton Nascimento". Com Bituca, apelido de Milton, é a primeira vez que a tradicional escola presta homenagem a um artista vivo: "Onde Candeia é chama, brilha Milton Nascimento".
SERVIÇO:
Ordem e horário dos desfiles - Grupo Especial (Rio de Janeiro)
Domingo (02)
Unidos de Padre Miguel - 22h
Imperatriz Leopoldinense - entre 23h30 e 23h40
Viradouro - entre 0h50 e 1h10
Mangueira - entre 2h e 2h20
*
Segunda-feira (03)
Unidos da Tijuca - 22h
Beija-Flor - entre 23h30 e 23h40
Salgueiro - entre 0h50 e 1h10
Vila Isabel - entre 2h10 e 2h40
*
Terça-feira (04)
Mocidade Independente de Padre Miguel - 22h
Paraíso do Tuiuti - entre 23h30 e 23h40
Grande Rio - entre 0h50 e 1h10
Portela - entre 2h10 e 2h40
*
O telespectador do Rio de Janeiro poderá acompanhar os desfiles das escolas de samba na íntegra, com flashes dos momentos mais importantes do Oscar direto de Los Angeles. O sinal da TV Globo com a transmissão do Oscar ao vivo estará disponível no gshow ou no g1.
*
O público de outros estados brasileiros poderá acompanhar ao vivo os desfiles do Rio logo após o término da cerimônia do Oscar. Para assistir desde o início também haverá transmissão completa no sinal ao vivo da TV Globo no Globoplay.



