O mexicano Guillermo del Toro trabalha pelos meandros do cinema de gênero imprimindo ao fantástico uma marca extremamente pessoal. Sua assinatura se expressa sobretudo no desenho de personagens fabulares que costumam brotar do fundo da terra, combinando traços do gótico e do barroco.
Até aí, nenhuma novidade: Tim Burton, desde os anos 80, faz algo bastante parecido. Talvez o toque mais pessoal de Del Toro esteja na absorção de elementos do melodrama e na presença ainda mais forte do imaginário católico.
''Hellboy 2'', que estréia hoje na cidade, retoma o personagem das HQs de Mike Mignola que Del Toro já havia adaptado em 2004. Não por acaso, esse personagem é um filho do inferno - mas também uma criatura adorável, estranhamente carismática. Como Burton, Del Toro suaviza o universo do horror sem necessariamente banalizá-lo.
Neste segundo ''Hellboy'', é visível que o cineasta pôde trabalhar com mais liberdade do que no primeiro filme, de carreira turbulenta. Apesar do pobre desempenho nos cinemas, o primeiro, produzido pela Sony, teve uma sobrevida surpreendente no DVD, o que estimulou a Universal a retomar o personagem. O sucesso de ''Labirinto do Fauno'' (2006) certamente influenciou a decisão.
''Hellboy 2'' confirma Del Toro como um criador de universos belíssimos, visualmente complexos e ricos em detalhes. O roteiro tem doses calculadas de ação, humor e drama arranjados para distrair o espectador entre uma e outra cena espetacular, quando as criaturas do cineasta de fato brilham.
Mas fica evidente, também, certa inconsistência nesse universo - algo que o cinema de Burton não tem. Em vários momentos, o visual de ''Hellboy 2'' ganha ares próximos do kitsch.
O conflito dramático é demasiado pobre: Hellboy e seus amigos vão lutar contra o líder de um exército adormecido, prestes a despertar. Tudo, enfim, parece mero pretexto para o desfile das criaturas fantásticas, deixando a sensação de um filme-purpurina: uma festa para os olhos que se desfaz no ar.

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