Antes de virar cineasta, um dos maiores artistas da história do cinema, Federico Fellini, foi caricaturista, ganhando a vida no jornal Domenica del Corriere e no florentino 420. Veio dessa época a mania que ele carregou pela vida afora. Quando tinha alguma idéia, mas ainda não sabia direito como concretizar os personagens que tinha na cabeça, Fellini desenhava. Os desenhos serviam de base para as filmagens compondo aquilo que se chama de storyboard.
Aves viram mares, asas viram ondas na imaginação felliniana. Desde 1960, Fellini cristalizou o hábito de colocar suas imagens oníricas no papel. Podia-se prever que, se fossem animados, esses desenhos comporiam um filme de grande densidade imaginativa. Pois eles foram. Em 1997, o diretor russo Andrei Khrjanovsky animou os storyboards de Fellini. O resultado é o curta ‘‘A Longa Viagem’’, que o Eurochannel (da TVA) exibe no próximo sábado, às 18h30, dentro do horário dos Eurocurtas. É um programa imperdível e não só para os maníacos do cineasta que morreu em 1993.
O compositor Nino Rota surge numa sessão de trabalho com o mestre, Marcello Mastroianni posa para fotografias e outro habitué do cineasta, o roteirista Tonino Guerra - que escreveu o texto para o curta -, conta como Fellini adorava camuflar a mulher, a atriz Giulietta Masina, em todas as figuras femininas que desenhava. Mas o melhor são mesmo os desenhos - as mulheres gordas, com sua carnalidade exuberante, o transatlântico (o modelo do Rex de ‘‘E la Nave Va’’) em que o próprio diretor gostava de viajar em busca da fantasia, fugindo à banalidade do cotidiano.

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