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Desenhando a MPB há mais de meio século

Elifas Andreato, o artista gráfico mais requisitado da música popular, participa da Mostra Afro Brasileira Palmares, em Londrina

Marcos Roman - Grupo Folha
Marcos Roman - Grupo Folha

As mãos talentosas do paranaense Elifas Andreato ajudaram a desenhar a história de boa parte da elite da música popular brasileira nos últimos 50 anos. Nascido em Rolândia, o artista gráfico de 73 anos assinou mais de 600 capas de discos das vozes mais representativas do cancioneiro nacional. Nomes como Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Vinicius de Moraes e Clementina de Jesus entregaram ao paranaense a missão de traduzir através de seus traços precisos e criativos o conceito artístico de álbuns emblemáticos que se tornaram clássicos do cancioneiro nacional.

“Sempre tive sorte, porque se pegar minha biografia vai ver que a chance de dar certo era zero. E mesmo assim acabou dando certo”, afirma Andreato ao lembrar sua trajetória como artista totalmente autodidata. “Nunca estudei desenho. Minha única formação escolar foi no curso de alfabetização para adultos ”, diz.




O destino, no entanto, se incumbiu de ajeitar os caminhos para que o paranaense pudesse mostrar ao mundo todo o seu talento. “Nasci em Rolândia e durante a infância morei um curto período em Cruzeiro D´Oeste e em Londrina. Minha família se mudou para São Paulo quando eu tinha uns 12 anos e aos 14 comecei a trabalhar como operário na fábrica de fósforos Fiat Lux. Foi nesta época que colegas de trabalho ficaram sabendo que eu gostava de desenhar e me convidaram para fazer charges no jornal do sindicado dos operários”, relata.


As charges de Andreato chamaram a atenção do gerente da fábrica, que o convidou para fazer ilustrações nas paredes do refeitório da empresa. “Quando a fábrica completou 50 anos os donos ingleses vieram ao Brasil e ao verem meus desenhos perguntaram quem os havia feito. Queriam saber onde eu havia aprendido a desenhar. Eu disse que havia aprendido sozinho e eles ofereceram dinheiro para que eu fizesse um curso”, conta.


Elifas Andreato: “Sempre fui um bom ouvinte. Ouço com atenção o que os artistas pretendem dizer naquele álbum e procuro sintetizar a ideia através dos meus desenhos"
Elifas Andreato: “Sempre fui um bom ouvinte. Ouço com atenção o que os artistas pretendem dizer naquele álbum e procuro sintetizar a ideia através dos meus desenhos" | Divulgação
 


A profissionalização que poderia ter sido a porta de entrada para o mundo das artes plásticas acabou tendo que ser adiada. “Meu pai acabou gastando o dinheiro que ganhei para fazer o curso de desenho pois não tinha muito compromisso com a família formada por mim, minha mãe e mais cinco irmãos”, salienta Elifas. Já o contato com a obra de grandes artistas surgiu enquanto ele ainda atuava como operário. “Sabendo das minhas dificuldades, a assistente social da fábrica recortava tudo o que saia sobre artistas plásticos nas revistas e me entregava em uma pasta que guardo até hoje. Foi dessa forma que conheci a série “Meninos de Brodósqui” de Portinari e tive a certeza de que a arte era o queria para minha vida”.


Anos mais tarde, chegaria a oportunidade que se tornou um divisor de águas na carreira de Andreato. “Dei várias entrevistas para jornais e TVs na época em que fazia charges para o jornal do sindicato dos operários e meu nome acabou ficando conhecido neste meio. Isso me ajudou a conseguir uma vaga como estagiário da Editora Abril em 1967. Dois anos mais tarde eu era chefe de artes de um fascículo feminino e acabei fazendo o projeto gráfico da antiga revista Placar” lembra.


O sucesso como artista gráfico chegou definitivamente com série “História da Música Popular Brasileira”, de 1970. “A Editora Abril criou um fascículo com a trajetória de grandes compositores e que vinha acompanhado por um LP com oito faixas. Eu criei um projeto gráfico considerado revolucionário para a época e saia junto com os repórteres que faziam entrevistas com artistas. Como participava das conversas para definir o conceito que usaria para fazer cada capa, acabei me aproximando destes compositores e, posteriormente, de outros artistas”.


Elifas credita ao seu poder de sintetizar conceitos em desenhos o grande sucesso que obteve como ilustrador e artista gráfico. “Sempre fui um bom ouvinte. Ouço com atenção o que os artistas pretendem dizer naquele álbum e procuro sintetizar a ideia através dos meus desenhos. A base que uso para isso é acrílico sob tela, mas já fiz uso de patchwork, bordado, revelo e vários outros recursos, pois acredito que a técnica tem que se adequar à ideia e não o contrário”.

Além de ter produzido capas para Chico Buarque, Elis Regina, Gilberto Gil, Tom Zé, entre dezenas de outros artistas, e mais recentemente para Criolo e Zeca Baleiro, Andreato também assinou cenografias e cartazes de importantes produções teatrais. A mais recente encomenda veio da Apple. “Pediram para eu produzir a capa de uma coletânea de samba que será lançada em breve, continuo recebendo várias encomendas”, conclui o artista que atualmente mora em São Roque, cidade que fica a 60 km de São Paulo e divide seu tempo entre o trabalho e os momentos de lazer com os filhos Lara e Bento e os três netos. “Acho que todos herdaram de mim o gosto pelas artes. Meu filho trabalho comigo como designer, minha filha é artista plástica e a brincadeira preferida dos meus netos é brincar de desenhar com o avô”, afirma o artista.

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Clementina de Jesus e Tim Maia: dois grandes nomes da MPB que tiveram capas de álbuns desenhadas por Andreato
Clementina de Jesus e Tim Maia: dois grandes nomes da MPB que tiveram capas de álbuns desenhadas por Andreato | Divulgação
 



Palestra e obras na Mostra Afro


Algumas capas de discos produzidas por Elifas Andreato poderão ser conferidas durante a 34ª Mostra Afro Brasileira Palmares Londrina, que acontece até 4 de dezembro, no Museu Histórico de Londrina. A programação do evento inclui diversas atividades na perspectiva do fortalecimento da luta de combate ao preconceito, discriminação racial e racismo.

A mostra também reúne trabalhos do baiano Branxer e dos paranaenses Alexs Tcho e Marcelo Speçato, além de trabalhos da jovem londrinense Alice Steffan Retkva, de apenas 8 anos; e de alunos do Ilece (Instituto Londrinense de Educação para Crianças Especiais).

O Coletivo Capstyle fará graffitis no entorno do Terminal Urbano, em trecho na Rua Benjamin Constant, e no Restaurante Popular de Londrina.

Convidado especial do evento, Elifas Andreato ministrará a palestra “Traços, Cores e Histórias com os Artistas”, que será será realizada das 10h às 11h30 e das 14h às 16h30, no Canto do Marl (Movimento dos Artistas de Rua de Londrina), que fica na Avenida Duque de Caxias, 3.241.

A Mostra é uma realização do Instituto do Movimento de Estudo da Cultura Afro-Brasileira (IMECAB), em parceria com a Universidade Estadual de Londrina (UEL).



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