Desencontro entre corpo e espírito
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Assim como Pedro Juan Gutiérrez, Reinaldo Montero coloca o sexo como componente básico no romance As Afinidades lançado pela Editora Companhia das Letras. Também integrante da nova literatura cubana, Reinaldo Montero, nascido em 1952, segue caminho distinto da trajetória de Gutiérrez.
Inspirado no texto As Afinidades Eletivas, escrito pelo alemão Johann Wolfgang von Goethe em 1809, Montero realiza uma atualização dos conflitos morais e subjetivos que o sexo pode maximizar.
O romance narra a história de dois casais amigos, Néstor e Cristina, Bruno e Magda, que resolvem passar alguns dias de férias numa pousada isolada. O objetivo da viagem é realizarem uma troca de parceiros, ou seja, Néstor dormirá com Magda e Bruno com Cristina. Aquilo que aparentemente seria uma aventura moderna, torna-se um caos no interior de cada participante. Uma turbulenta crise moral, emocional e profissional toma corpo.
Narrando a história através das vozes interiores dos quatro envolvidos, Néstor, Cristina, Bruno e Magda, o autor revela as reflexões, as intimidades, desejos, princípios, inquietações e taras de cada um. Realiza um retrato interior do processo psíquico e libidinoso dos jovens aventureiros num espécie de rito de passagem.
Em As Afinidades, Montero não afirma, sugere de maneira requintada. Desenha, com sutileza, a dicotomia entre a liberação da libido e a arquitetura da mente lógica que a acompanha. As personagens caminham para o entendimento de que aquilo que o corpo solicita em nome do desejo, talvez a mente e o espírito não estejam preparados para viver.
Não há nenhum moralismo em jogo. Há, na realidade, o desencontro entre corpo e mente. E as escolhas onde não há sintonia entre corpo e mente estão fadadas ao conflito.
As Afinidades (Las Afinidades) de Reinaldo Montero, Editora Companhia Letras, tradução de Sérgio Molina, 128 páginas, R$ 18,50.





