DESEJOS DE NANA
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de agosto de 2001
Antônio Mariano Júnior<BR>De Londrina 
Nana Caymmi mudou. Não de estilo (ah, isso é imutável!), mas de gravadora. Depois de anos e anos e anos como uma espécie guardiã do bom gosto da Emi, a cantora despachou sua bagagem musical para a portentosa Universal. Bom negócio para ambas as partes a gravadora por manter em seu casting a mais sofisticada intérprete brasileira e Nana por, finalmente, ter seus trabalhos amparados num poderosíssimo esquema de marketing. E ''Desejo'', disco de estréia na nova casa, está recebendo tratamento digno de uma artista que, até então, contava unicamente com o prestígio pessoal para divulgar suas crias. ''Eu ainda me considero a grande dama da Emi, não abandonei ninguém por lá. Mas eu vim para a Universal porque achei que meu trabalho precisava de um marketing mais agressivo; precisava sair daquela coisa que eu chamo de chá das cinco'', disse a cantora em entrevista à Folha2, com seu conhecido e ácido bom humor.
Os primeiros resultados já são audíveis. Mal o disco saia do forno e a faixa de abertura, ''Saudade de Amar'' (Dori Caymmi-Paulo César Pinheiro) estava embalando os sentimentos dúbios de Adma, polêmico personagem de Cássia Kiss em ''Porto dos Milagres''. Não se contentem apenas com essa bela canção: o disco contém outras faixas tão ou mais interessantes que certamente tocarão pessoas crescidas de coração. ''As pessoas sabem que o amor é minha praia, é onde vou nadar sempre como uma louca'', dispara.
Acontece que desta vez, Nana não canta apenas os amores fracassados. ''Desejo'' é marcado por esperanças amorosas, encontros memoráveis, saudáveis saudades, temas não muito recorrentes na maioria de seus discos. Ela reconhece isso.''É um disco muito otimista porque fala de amor, mas não é amor pra baixo é amor de encontro'', analisa.
Uma das delícias do álbum é ''Lero do Bolero'' (Kiko Furtado-Abel Silva) que ganhou um sopro, digamos, pop graças ao arranjo de Lincoln Olivetti conhecido no final dos anos 70 e meados de 80 como o rei dos teclados que impulsionou ou pasteurizou o trabalho de um punhado de gente da MPB. Mas em ''Desejo'' o rapaz se comportou direitinho e acabou tendo que se virar com cordas e fazer maravilhas ora, ora e como! também em outra faixa, ''Frases do Silêncio'' (uma parceria entre Marcos Valle e o tremendão Erasmo Carlos).
''Desejo'' traz 14 faixas. É praticamente um disco de músicas inéditas como se isso fosse vital para Nana Caymmi. Afinal poucas são as cantoras independente da longevidade artística que conseguem dar sopro novo a canções anteriormente registradas. ''Nunca me preocupei com ineditismo porque sei que qualquer música sempre vai ficar diferente comigo. E de mais a mais o brasileiro tem memória tão fraca que nem vai saber se o que canto é inédito ou não, com exceção da imprensa que vasculha meu trabalho'', analisa ela com propriedade.
Por falta de canções novinhas em folha é que Nana nunca vai padecer. Compositores anônimos (renomados também) se sentem honrados quando gravados por ela. Só para ilustrar: para a feitura de ''Desejo'' Nana e o produtor (na verdade seu alter ego musical) José Milton ouviram quase cem fitas de músicas fresquinhas. Do repertório alheio, pinçaram a faixa-título (de autoria de Fátima Guedes) ''Fogueiras'' (Ivan Lins- Vitor Martins), ''Vinho Guardado'' (Danilo Caymmi) e ''Vou Ver Juliana'' (Dorival Caymmi).
Como sempre, Nana gosta de trabalhar em família. O irmão Dori, além de comparecer como compositor também arranjou a maioria das faixas. Não bastasse, a cantora lança uma nova compositora: a sobrinha Juliana Caymmi (''Seus Olhos'') que conta com a participação especial de outro membro do clã: Alice, outra filha de Danilo.
''Desejo'' é recheado de boleros, baladas, samba-canção estilos sempre presentes nas obras de Nana Caymmi. Acontece que a cada trabalho, a cantora se compromete cada vez mais com o rigor estético. Se há algumas letras simples demais, há melodias fortes o suficiente para garantir o brilho nessa ou naquela faixa. É o caso de ''Naquela Noite'' (Cláudio Cartier-Guto Marques).
No entanto, raridades literárias e melódicas circulam por todo o disco. ''Distância'' (Dudu Falcão), ''Marca da Paixão'' (Marcio Proença-Marco Aurélio) e ''Vinho Guardado'' se destacam com louvor. Porém é impossível não voltar a faixa para ouvir o encontro de Nana e Zeca Pagodinho em ''Vou Ver Juliana''. O samba dolente de Dorival ganha a malemolência dos morros cariocas. E os dois se esbaldam.
''Desejo'' é um disco sofisticado, cheio de bons sentimentos. Pode ser que, desta vez, o amor tenha atravessado a alma de Nana e feito as pazes com as dores sentimentais dessa senhora apaixonada e apaixonante.


