O escritor carioca Paulo Lins fez uma pequena participação no premiado longa ''Cidade de Deus'', de Fernando Meirelles, mas a cena em que aparecia no papel de um padre acabou cortada na edição final das imagens.
O detalhe já foi contado aqui e ali em entrevistas do autor, mas talvez seja desconhecido de muitos londrinenses fanáticos pelo filme que transportou para as telas a trama de seu livro de estréia, publicado em 1997 e traduzido em 27 idiomas com mais de 500 mil exemplares vendidos em todo o mundo.
Lins levou uma década e meia para escrever seu segundo romance, ''Desde que o samba é samba'', que narra o nascimento do samba no Rio de Janeiro no final dos ano 20. Ele faz o lançamento hoje no Festival Literário de Londrina/Londrix. O evento será às 17h30 no Centro Cultural Sesi, ao qual se seguirá a palestra ''Literatura e as Margens da História'', às 19h, com mediação do historiador londrinense Tony Hara, que também estará lançando na ocasião seu livro ''Ensaios sobre a singularidade''.
No novo romance de Lins, o sambista Ismael Silva é o personagem principal e é a ele que o autor atribui a invenção do termo ''escola de samba''. Apesar da reconstituição histórica, trata-se de prosa de ficção com situações e personagens imaginários que remontam ao universo da malandragem e da zonas de prostituição do bairro do Estácio. Além de divulgar a obra, o escritor tem trabalhado no roteiro da minissérie ''Subúrbia'', que escreve para a Rede Globo em parceria com o diretor Luis Fernando Carvalho. A seguir leia entrevista com o autor.
Você está lançando o romance ''Desde que o samba é samba'' quebrando um intervalo de 15 anos desde a publicação de ''Cidade de Deus''. Por que demorou tanto tempo para escrever o segundo livro?
É normal o segundo livro de qualquer escritor ser mais difícil, ainda mais quando ele ganha força descomunal como foi o ''Cidade de Deus''. Além do mais eu fui para o cinema, para televisão onde estou até hoje. Fiz palestras e seminários, enfim, fiz outras coisas. Porém tentei escrever o segundo livro várias vezes e não conseguia. Dava desânimo, mal humor, medo, insegurança, eu acabava indo à praia beber cerveja. Rolou um branco na mente.
Seu novo livro é ambientado no Rio de Janeiro do final da década de 20 e trata do nascimento do samba, da malandragem, da boêmia no bairro do Estácio. O que o inspirou a fazer essa viagem ao Rio de Janeiro do início do século 20 ?
Eu nasci no Estácio, nasci onde o samba nasceu, cresci com esse ritimo, essa música e suas histórias, o povo do samba. Tinha um bar que eu não podia passar por ser reduto de marginais, mais tarde, quando adulto, descobrir que ali estavam Nelson Cavaquinho, Cartola, Elton Medeiros, o próprio Ismael Silva. Não tinha como não escrever.
O livro veio acompanhado de uma polêmica - a revelação de que o sambista Ismael Silva era homossexual. Foi, de fato, a primeira vez que essa informação veio a público?
Para o grande público sim. E aquela coisa do silêncio homofóbico.
O livro tem potencial para, a exemplo de ''Cidade de Deus'', ganhar adaptação cinematográfica?
Todo livro tem. Na verdade, só depende de um diretor se encantar por ele. É assim que funciona.
Como está a Cidade de Deus hoje? Está muito diferente daquela retratada no filme, com altos índices de pobreza e violência?
Marcelo Yuka fala em paz armada numa das mais brilhantes canções que já ouvi na vida. É isso que eu penso sobre a Cidade de Deus e as demais favelas onde tem a presença constante da polícia e forças armadas, faltando, por demais, a presença de saneamento, cultura pedagógica, saúde, investimentos necessários à condição humana. É como se o pobre fosse um cão feroz em cativeiro.
E como você avalia a situação da cidade do Rio de Janeiro, após a implantação das UPPs nas favelas? A violência diminuiu? É, enfim, uma iniciativa bem-sucedida e um modelo para ser implementado em outras cidades brasileiras?
É justamente a resposta anterior. Mas não vou negar que a violência diminuiu, porém o desenvolvimento humano não aumentou.

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