Passados quase 50 anos ‘‘Esperando Godot’’, de Samuel Becket, está em cartaz em algumas das principais cidades do mundo. Ao mesmo tempo, em Curitiba, o bonde da história vem na contramão – o ator e dramaturgo Cesar Almeida acaba de colocar no palco ‘‘Des esperando Godot’’, que é uma releitura do clássico do teatro mundial. A temporada vai até dia 29 no Teatro Lala Schneider.
Não é de agora que a obra de Becket vem rondando o artista curitibano. A idéia surgiu há três e foi sendo maturada entre ele e o produtor Isydoro Diniz (que está no elenco), até chegar o momento de concretizá-la. Mas a desconstrução da peça não altera o gens da mensagem, que é uma ode à desesperança.
‘‘O espetáculo trata do absurdo da condição humana, as grandes dificuldades do homem contemporâneo, sem Deus, completamente desamparado num universo hostil, desprovido de qualquer sentido’’, explica Almeida. Dois personagens esperam a vinda de Godot – Diniz e Letícia Guimarães –, ao mesmo tempo em que discutem o absurdo da existência humana com outros dois atorespersonagens (Jana Mundana e Geraldo Kleina).
No entanto, por mais que se debrucem sobre o poço existencialista, interpõe entre eles a falta de comunicação. Daí para a solidão, o caminho é um só. ‘‘A trama aparentemente simples revela a total impossibilidade da comunicação eficaz entre os humanos, que ainda assim persistem em sua tentativa de estabelecer laços eternos como meio de amainar a solidão da espécie’’, analisa o dramaturgo.
‘‘Des esperando Godot’’, primeira montagem da Cia. Nossa Senhora do Teatro Contemporâneo, tem uma importância a mais para o grupo, especialmente para o produtor Isydoro Diniz. Com este trabalho ele comemora 20 anos de carreira, e confessa que há uma dose de pretensão nessa história de brincar sobre um dos ícones da dramaturgia. Porém, justifica: ‘‘É uma releitura que tão bem retrata a nossa existência, os 20 anos que estamos esperando alguma coisa em Curitiba, no Paraná, no Brasil, no mundo.’’
Ele confessa que a escolha pela obra teve tudo a ver com a data. ‘‘Para mexer no texto precisávamos ter algum gancho, algum propósito. Aí, conversando com Cesar Almeida, que releu toda a obra de Becket, achamos de fazer uma história nossa, pois somos da mesma geração de 80. O que que nós estamos fazendo aqui? Des esperando Godot!’’
A peça é ainda um exercício de modernização, segundo a concepção de Almeida/Diniz. O escritor afirma que ‘‘desconstruímos a obra de Becket, retiramos a pátina tão indesejável do tempo que leva uma obra teatral a ser condenada ao ostracismo, por perder seu frescor’’.
O produtor, por sua vez, acrescenta: ‘‘Aí tem o nosso jogo, que é um jogo que a gente busca: deixar com uma linguagem mais moderna. Esse é um trabalho nosso, na nossa visão’’. Como a matéria-prima da peça escrita na época do pós-guerra é o existencialismo, a vida dos próprios artistas está em cena.
‘‘Buscamos representar a nossa história. O texto passa por mim, pela Letícia, Jana, César. Toda a classe artística, porque vivemos os mesmos problemas, as mesmas ansiedades, a mesma busca. Todos nós temos essa busca’’, concorda o ator.
Com a experiência de outras empreitadas, Diniz sabe que pode irritar os que cultuam os textos originais. ‘‘Quando você mexe numa obra desses grandes escritores, você está dando a cara para bater. A gente sempre dá a cara para bater em Curitiba. Mas teatro é isso mesmo, a gente faz o que a gente acredita.’’
Nascido na Fazenda Cachoeira, em Nova Fátima (norte do Estado), Isydoro Diniz aos oito anos ia ao circo para ver os dramas e comédias. Até os 15 capinou na lavoura. Aos 21 profissionalizou-se no teatro. Produtor de ‘‘A Bela e a Fera’’ (35 mil espectadores em Curitiba) e ‘‘Aristogatas’’ (30 mil espectadores, numa temporada de dois meses no Guairinha), acha que essa fase de ‘‘teatro para criança’’ passou.
Contudo, alimenta esperanças de refazer ‘‘Aristogatas’’, para ele um espetáculo histórico, pelo que representou de inovador e renovador. ‘‘Foi uma revolução, uma coisa de louco’’, diz saudoso. Todo esse passado merece ser comemorado com um trabalho como ‘‘Des esperando Godot’’, afirma.
Feliz da vida, contrariando tudo que foi dito, o ator confessa que ao subir ao palco carrega junto seu Godot. ‘‘Não sei dos outros, mas o meu Godot é quem me leva’’, segreda agradecido. Encerra:
– Aquilo que eu queria ser, eu sou. Acredito que o sonho está sempre muito próximo de você, e você o concretiza todo dia, mesmo sem perceber. A todo momento você realiza um sonho seu. Isso me faz feliz, mesmo sabendo que a felicidade faz sofrer, traz gastura. Eu sou feliz, sou feliz!
‘‘Des esperando Godot’’, releitura de Cesar Almeida sobre a obra de Samuel Becket. Com Isydoro Diniz, Letícia Guimarães, Jana Mundana, Geraldo Kleina e Ade Zanardini. Em Curitiba, no Teatro Lala Schneider, às 21 horas, até dia 29 de outubro. Ingressos: R$ 10,00 e R$ 5,00 (classe artística, estudantes).