Desconfie dos truísmos
Para Jenny Holzer, clichês são miniaturas de posicionamentos ideológicos. Bem-intencionada, utiliza-os para criticar as guerras, a violência contra a mulher, a política e as distorções sociais, bem como para defender pontos de vista humanitários. Para veiculá-los, usa os mesmos procedimentos da cultura de massa, a mesma que, através da publicidade, vende bens de consumo e alienação em escala planetária. Em tese, é um procedimento válido e que possui o mérito adicional de recolocar a palavra no âmbito das artes, como instrumento crítico. Sem dúvida, causam impacto e estranhamento iniciais (dois efeitos muito desejáveis como estimulantes de reflexões posteriores) frases como O amor romântico foi inventado para manipular as mulheres, A propriedade privada criou o crime, Eduque meninos e meninas do mesmo modo, veiculadas em letras gigantescas em espaços públicos onde mais facilmente encontraríamos mensagens como Beba Coca-Cola.
No entanto, a experiência demonstra que truísmos, mesmo os bem-intencionados, são perigosos. Menos do que posicionamentos ideológicos, são a imposição de uma ideologia pronta, fechada em sua própria facilidade de absorção. O truísmo é, via de regra, a recusa do discurso e do questionamento, um instrumento totalitário, alienante. Serve tanto para manipulação política quanto para a manutenção de dogmas e preconceitos. Pergunto-me se os estudantes franceses de maio de 68, ao adotarem o slogan É proibido proibir, percebiam que, também eles, estavam adotando uma forma de intolerância. Holzer, como disse acima, é bem-intencionada, mas isso não basta. Também eram bem-intencionados os brasileiros que, nos tempos mais difíceis da ditadura militar, acreditaram em slogans como Pra frente, Brasil, Brasil, ame-o ou deixe-o e nos versos da dupla Don e Ravel...(W.K.)





