Descobrindo o prazer de ler
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de novembro de 1997
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
ReproduçãoHenry Miller
afirmava que o
banheiro é um dos melhores lugares para lerExistem leitores de todos os tipos. Alguns que gostam de ler romances, outros apreciam bulas de remédio. Há os que preferem gibis, dicionários, pára-choque de caminhão, panfleto, manual de mecânica, bíblias, receitas culinárias, rótulo de refrigerante, contos, revista de moda, história das civilizações, fotonovela, compêndios de piadas, literatura erótica, contos de terror, romance policial, cartas alheias, poesia surrealista, jornal do mês passado, clássicos universais, encarte de disco e muitas outras coisas.
Há os que lêem no sofá, na cama, na fila do banco, no banheiro, na praça ou em qualquer lugar disponível. Há os que emprestam livros e não devolvem e os que roubam bibliotecas e livrarias. Aqueles cuidadosos que sublinham as palavras com lápis e os revoltados que arrancam as páginas. Aqueles que não emprestam seus livros e os que dormem abraçado neles. Aqueles que lêem de trás para frente e os que lêem pulando páginas.
O que essas pessoas têm em comum é o hábito, ou o prazer, da leitura. Todas estão empenhadas em um único ato, o de ler. Do mesmo modo como a escrita possui sua própria história, a leitura também. Mas quem nasceu primeiro, o leitor ou o escritor? Aprendemos primeiramente a ler ou a escrever?
Pode-se afirmar que a história da escrita segue caminhos definidos, é comum a todas as civilizações. Com a história da leitura é diferente. Cada leitor escreve a sua história da leitura baseado em como e quando aprendeu a ler, baseado nos textos que leu e nos que deseja ler.
O escritor argentino naturalizado canadense Alberto Manguel escreveu a sua, Uma História da Leitura recém-lançada pela Editora Companhia das Letras. Amante dos livros - chegou a trabalhar como leitor para Jorge Luis Borges, então cego - Alberto Manguel mescla, em sua obra, a história ocidental da leitura e sua própria história como leitor, da infância à idade adulta, do fetiche ao conhecimento. Como a leitura é uma atividade plural, sua história também o é: Aprendi rapidamente que ler é cumulativo e avança em progressão geométrica: cada leitura nova baseia-se no que o leitor leu antes. É praticamente impossível haver uma única leitura, mas um número quase infinito de leituras, uma alimentando-se das outras.
Leitura, além de ser uma questão de preferências - que pressupõe exclusões - é uma questão de visões de mundo. O pensador Francis Bacon afirmava que alguns livros são para se experimentar, outros para serem engolidos, e uns poucos para se mastigar e digerir. O filósofo George Santayana dizia que há livros em que as notas de rodapé, ou os comentários rabiscados por algum leitor nas margens, são mais interessantes do que o texto. Para ele, o mundo é um desses livros.
Jonathan Swift, autor do clássico As Viagens de Gulliver, instruía sua camareira para que, pela manhã, deixasse os livros sobre o peitoril da janela para que tomassem um pouco de ar. Henry Miller afirmava que o banheiro é um dos melhores lugares para a prática da leitura: Todas as minhas boas leituras eram feitas no banheiro. Há trechos do Ulisses que só podem ser lidos no banheiro - se você quiser extrair todo o sabor de seu conteúdo. Omar Khayan recomendava ler poesia ao ar livre, de preferência embaixo de uma árvore. Consta que o escritor colombiano Gabriel García Márquez, todos os dias, ao acordar, lê uma ou duas páginas de dicionários.
Desde os primórdios a leitura foi uma prática oral. Santo Agostinho (354 - 430) foi o primeiro a registar, em suas Confissões, a leitura silenciosa. Numa visita a Ambrósio, bispo de Milão, percebeu que o bispo permanecia horas e horas lendo livros silenciosamente, uma prática totalmente fora do comum na época. A leitura em voz alta era uma regra. As bibliotecas eram verdadeiros mercados de peixe. Somente por volta do século 10 que a prática da leitura silenciosa se tornou usual no Ocidente.
A relação entre escrita, leitura e religião sempre foram estreitas. Na sociedade judaica medieval, por exemplo, aprender a ler era um ritual sagrado. No dia em que se comemorava Moisés recebendo o Torá das mãos de Deus, os meninos recebiam as primeiras lições de alfabetização. O professor mostrava uma lousa onde estavam escrito frases das escrituras em hebraico. Sentado no colo, o menino repetia, em voz alta, todas as letras pronunciadas pelo mestre: A lousa então era coberta de mel e a criança a lambia assimilando assim, corporalmente as palavras sagradas. Da mesma forma, versos bíblicos eram escritos em ovos cozidos descascados e tortas de mel, que a criança comeria depois de ler os versos em voz alta para o mestre.
Os bibliocleptomaníacos também fazem parte da história. O conde italiano Guglielmo Libre, que viveu no século 18, é considerado um dos maiores ladrões de livros do mundo. Fanático por livros, frequentava as melhores bibliotecas com um longo casaco onde ocultava o produto do roubo. Chegou a pilhar coleções completas e raridades famosas. Quando sua casa não comportava mais livros, passou a vendê-los para colecionadores. Ficou rico, foragido da polícia.
Para os ladrões de livros, durante a renascença, nas paredes da biblioteca do mosteiro de São Pedro, Barcelona, havia uma advertência: Para aquele que rouba ou toma emprestado e não devolve um livro de seu dono, que o livro se transforma em serpente em suas mãos e o envenene. Que seja atingido por parasita e todos os seus membros murchem. Que definhe de dor, chorando alto por clemência, e que não haja descanso em sua agonia até que mergulhe na desintegração. Que as traças corroam suas entranhas...
Quando Johann Gutenberg (cujo nome original era Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg) realizou a primeira impressão com tipos móveis, entre os anos de 1450 e 1455, um enorme passo para a popularização do livro foi dado. A popularização da leitura seria um passo posterior, a alfabetização.
Em 1855, o poeta e charuteiro cubano Saturnino Martínez teve a iniciativa de fazer um jornal para os trabalhadores da indústria de charutos. Depois de publicado o primeiro número, percebeu que o analfabetismo dificultava a popularidade do jornal A Aurora. Teve a idéia de realizar leituras pública. Depois de alguns meses, já havia sido criada a figura do leitor oficial. Ele era pago pelos próprios trabalhadores para ler jornais, obras literárias e livros sobre História durante toda a jornada de trabalho. O sucesso foi grande até o governo cubano proibir tal prática temendo subversão.
A leitura é uma espécie de apoteose da escrita. Um livro fechado, não lido, não possui existência. Para Alberto Manguel toda escrita depende da generosidade do leitor. Pode também se tornar uma floresta escura, repleta de perigos: Nem todos os poderes do leitor são iluminadores. O mesmo ato que pode dar vida ao texto, extrair suas revelações, multiplicar seus significados, espelhar nele o passado, o presente e as possibilidades do futuro podem também destruir ou tentar destruir a página viva. Todo leitor inventa leituras, o que não é a mesma coisa que mentir; mas todo leitor também pode mentir, declarando obstinadamente que o texto serve a uma doutrina, uma lei arbitrária, a uma vantagem particular.
No início da Era Gutenberg, o artista italiano Giuseppe Arcimboldo (1527 - 1593) pintou O Bibliotecário, obra que mais tarde viria a ser chamada de síntese do conhecimento letrado ocidental. O quarto é o retrato de um homem formado unicamente por livros. Mostra que todo o conhecimento acumulado pela humanidade está registrado no interior dos livros. Pode ser lido tanto como uma ácida crítica ao mundo letrado ou um louvor às qualidades das obras que contribuem para a formação do homem.
O escritor Franz Kafka (1883 - 1924), que mandou queimar todos os manuscritos dos textos que escreveu - no qual não foi obedecido - deixou registrado numa carta de 1904 a seguinte idéia-bomba: No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como diz você? Meu Deus, seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que nós mesmos, que nos façam sentir como se estivéssemos sido banidos para a floresta, longe de qualquer presença humana, como um suicídio. Um livro tem de ser um machado para o mar gelado de dentro de nós. É nisso que acredito.
Uma primeira dúvida se instala: mas qual livro devemos ler? A segunda chega em seguida: escolhemos ler determinados livros ou somos escolhidos por eles?
Serviço:
Uma História da Leitura de Alberto Manguel, Editora Companhia das Letras, tradução de Pedro Maia Soares, 406 páginas, R$ 29,00/Livraria Rosa do Povo.


