Descoberta solitária
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de novembro de 2003
Rodrigo Teixeira<br>TV Press 
Jayme Monjardim não disfarça o misto de empolgação e nervosismo. O diretor acaba de encerrar as filmagens de ''Olga'', seu primeiro longa-metragem em uma carreira pontuada por sucessos televisivos. Protagonizado por Camila Morgado, o filme conta a vida de Olga Benário, revolucionária judia nascida na Alemanha.
Mulher de Luís Carlos Prestes, Olga veio ao Brasil participar da Intentona Comunista de 1935, foi presa e depois entregue a Hitler pelo governo Getúlio Vargas. Monjardim espera estrear o longa em abril de 2004. Com um polpudo orçamento de R$ 12 milhões, o filme foi rodado em 10 semanas e fez com que o diretor provasse finalmente o gosto do cinema. ''Foi um descoberta solitária para mim. Fiquei tenso, mas encontrei o equilíbrio'', confessa.
Monjardim garante que não mudou seu estilo só porque estava no cinema. Pelo contrário. Vai manter os grandes closes e mesclar documentários em preto e branco à produção, como já fez em ''Aquarela do Brasil''. Ele também optou em não rodar no exterior e recriar Moscou e Berlim no próprio Rio de Janeiro. O diretor aposta em Camila Morgado, que ficou careca e emagreceu 10 quilos para interpretar a personagem. ''A Camila se jogou de cabeça'', elogia.
Qual a diferença entre dirigir uma novela e um filme?
O cinema é mais lento e aprendi que todos os detalhes aparecem na cena. A televisão é a arte do improviso e cinema não pode ser. É uma grande diferença. Por isso, a primeira semana de ''Olga'' foi de descoberta solitária para mim. Fiquei tenso, mas permaneci quietinho. No final, encontrei o equilíbrio. A tevê ajuda a decupar rápido. Senão, iria ficar ensaiando, ensaiando... Mas com um ensaio já sabia o que queria. Na tevê se trabalha muito com a luz natural e no cinema, nem tanto. Mas para mim contar uma história é uma arte, seja na tevê ou cinema.
Não rodar o filme no exterior foi uma questão de orçamento?
Também, mas não foi só isso. As soluções encontradas foram tão boas que se tivéssemos ido não teria sido muito diferente. Se bobear, teríamos menos recursos do que tive no Brasil. Consegui rodar em locações com muita luz e cenografia aprimorada. Não conseguiria o mesmo lá fora. Além disso, gostei da solução de mesclar documentários estrangeiros em preto e branco, que vai dar um charme e uma cara para o filme parecidos com o que já fiz na tevê. É interessante ter a primeira experiência em cinema mantendo a característica que já tenho na tevê.
Por que colocar os personagens falando só em português?
A versão brasileira do filme é toda falada em português. Apenas nos campos de concentração, guardas e policias falam em alemão, senão ficaria estranho. Dramaticamente também é melhor que eles falem alemão. Mas o filme inteiro é em português. O americano faz isso há muito tempo e ninguém reclama. Então não vejo problema em fazer o mesmo. Talvez nas cópias para o exterior a parte da Alemanha seja dublada em alemão, quando chega no Brasil, a partir do Prestes, continue em português, e quando vai para o campo de concentração volta para o alemão. Mas não está certo.
O fato de Camila Morgado não ter um rosto muito conhecido pela tevê foi um dos quesitos para ela viver a Olga?
Pesou mais ela ser uma grande atriz. A semelhança dos olhos da Camila com os de Olga impressiona também. A atriz teria de ter olhos expressivos como os de Olga. O mais importante para mim foi a disponibilidade da Camila. Ela se jogou, raspou a cabeça, emagreceu... Isso conta. O ineditismo não me importou muito porque, mesmo se ela fosse conhecida, eu a usaria. O que valeu foram as qualidades dela.
Você sente preconceito no meio cinematográfico por ser um diretor de tevê?
Sinceramente, fiz o filme e quem gostar que goste. Quem não gostar, paciência. Não mudei meu jeito de contar uma história porque estou fazendo cinema. Tenho certeza que o cinema pode fazer muito bem à tevê e a tevê fazer muito bem ao cinema. Temos um know-how de tevê, em figurinos, cenários e direção de arte, que pode somar ao cinema. E o cinema tem muito a emprestar à tevê na técnica de preparação, no aprimoramento... A união desses dois veículos é um grande caminho. Principalmente a Globo entrando nesse processo. Quem sabe um dia possamos produzir filmes para a teve também, como um canal HBO da vida. Isso abriria um mercado enorme. Num país com uma quantidade de filmes estrangeiros muito grande, é fundamental que o cinema brasileiro tenha uma grande bilheteria, porque abre o mercado e cala aqueles que são contra.


