Descansando a vista
Cortei a minha assinatura de 25 anos do New Yorker, que deu James Thurber, Edmund Wilson, John Updike, John Cheever, Renata Adler et al., digo o New Yorker de Harold Ross e William Shawn. Hoje é uma versão verborrágica da mídia feminina típica, moda, narcisismo de consumo e conversa de alcoviteira. Perde dinheiro. O antigo New Yorker ganhava muito nos anos 60, e pouco, nos 80, mas mantinha a cabeça acima do esgoto, até ser comprado pelo Grupo Newhouse, de Vogue, Vanity Fair, etc. Cansei da conversa de comadre da editora Tina Brown, inglesa, cujo sotaque é tido como upper class pelos imigrantes nouveau de Nova York. Nunca escreveu uma linha. Não se conhece nenhuma opinião sobre jornalismo. Quis fazer de O. J. Simpson o centro da revista na época do processo. Revolta na redação. Desistiu. Resta do New Yorker original o cartunista William Hamilton. Pelo pouco que aparece acredito que destoe do conjunto.
Intelectuais
Houve uma greve de jornais em Nova York, em 1963. Durou três meses. Jason Epstein, editor da Randon House, então grande influência no meio literário americano, sugeriu que seu amigo Bob Silvers, a mulher de Epstein, Barbara, e Elizabeth Hardwick, intelectual e mulher de Robert Lowell, o poeta, fizessem uma publicação literária quinzenal sem a nojeira do Times Book Review, do New York Times, e mais na linha do Times Literary Supplement inglês.
O New York Review viveu muito de ingleses, de Oxford e Cambridge. Barbara Epstein, então mulher de Jason, trouxe gente como Auden. Jason trouxe Edmund Wilson. Elizabeth Hardwick, então mulher de Lowell, trouxe os colegas do marido (que odiava Auden...). O NYRB articulou a resistência intelectual à guerra no Vietnã. A revista me comprou com o ensaio em Noam Chomsky A Responsabilidade dos Intelectuais, de 1967, se não me engano. Inesquecível, paráfrase do ensaio de Dwight MacDonald, A Responsabilidade dos Povos, de 1944, protestando contra os bombardeios de tapete anglo-americanos sobre a Alemanha (Dresden, etc.). Chomsky, um linguista brilhante, da M.I.T., autor de uma teoria elitista de apreensão de linguagem pela criança, foi o corifeu do período emocional de resistência à guerra. Mas perdeu embalo quando em 1973 Richard Nixon tirou as tropas dos EUA da Indochina. O fim da guerra foi o fim do REVIEW. Ainda nesse tempo, Philip Rahv escreveu um ensaio desmontando Irvin Howe, e uma a uma das pretensões morais da política externa dos EUA. Um tour de force que nossos marxistas de galinheiro nunca leram e nunca seriam capazes de igualar. Silvers colocou numa capa do NYRV como fazer uma bomba Molotov.
Hoje, Jesus, a Holiday Issue começa com uma review de Hillary Mantel de Alias Grace, de Margaret Atwood. Atwood é ilegível. É o tipo de escritora middlebrow louvada pelo Times Book Review, que levou Silvers, Barbara Epstein e Hardwick a fundar o NYRB. James Fenton escreve sobre Jasper Johns. Amos Elon choraminga sobre a atitude de Bibi Netanyahu em Israel. Como disse Ivan Lessa de um livro de Jorge Amado, já li muitas vezes esses artigos... Tom Wolfe explica o convencionalismo do NYRB pelas ambições sociais do brooklynês Robert Silvers. Casou-se com uma aristocrata inglesa. Diz Wolfe que recebeu uma dentadura postiça pelo correio e, ao insertá-la, nunca mais pronunciou uma vogal americanalhada. Minha assinatura dura até o ano que vem. Adieu.
Rima rica
O professor Frederico Lencioni Neto, da Universidade do Vale do Paraíba, ganhou o Prêmio Nota 10. Nada de governo. É dado pelo sindicato de universidades particulares de São Paulo. Lencioni é um ornitólogo. Pintou mais de 2 mil aves e insetos brasileiros. Tem um arquivo sonoro de aproximadamente 1.100 aves. É um dos maiores do mundo. Quando se imagina que o Brasil foi tomado pela esterilidade do pop da mídia, da vulgaridade de Stalinmotta, da política de clientelismo de cima para baixo, surge um erudito desinteressado em investigar nossos imensos recursos naturais como Frederico Lencioni Neto. É por amor à arte, diria até que por amor ao País, se a frase já não estivesse abastardada pelos demagogos do patrimônio nacional.
Status quo
Símbolo de status é a gravata Hermés, segundo o New York Times. Pronunciado Hermê, por certo. Sus. O sutiã de US$ 1 milhão da Victorias Secret, me diz uma amiguinha muito anônima que trabalha lá, está fazendo brisk business, vendendo à beça. Fim de noite no Bouley onde o chamado eurolixo se reúne, enquanto não consegue entrar no Mortimers e Grill 44.
Os neocafonas não usam mais aberto o último botão do colete. Nem Ralph Lauren, o macaquito número 1 do inglês fantasia.





