Confesso: estou morrendo de inveja. Boa e santa inveja daquele colega iraquiano, Muntazer al Ziadi, 28 anos, o tal que no domingo se levantou em meio à coletiva em Bagdá e atirou o par de kundar (sapatos, em iraquiano) em George W, e que agora tem à disposição duas centenas de advogados para defendê-lo. De quê exatamente, ignoro. Ele, com certeza, não aprendeu esta técnica de protesto prático na escola de jornalismo - não sei como andam os currículos por aí, mas espero que indignação seja (in) disciplina corrente.
Al Ziadi, como todo iraquiano ainda vivo que se preza, ficou calejado cobrindo a invasão e ocupação de seu país. Caminhou muito em meio aos destroços, à carnificina, às perdas, ao caos, à impotência e à ira mais que justificada. Foi sequestrado e desapareceu por uma semana. Viu dois irmãos assassinados pelas milícias xiitas. E sentiu afinal que era o momento de jogar neste caudilho de primeiro mundo alguma coisa simbolicamente tão poderosa como uma bomba - não seria exatamente este vulcabrás justiceiro aquele artefato bélico de destruição em massa que o pessoal da ONU procurou, procurou e nunca encontrou...? Era chegada a hora de arremessar aquilo que ele com orgulho batizou de o ''beijo de despedida, cão !''
Assim, a arma mais à mão estava precisamente nos pés - fico sabendo que jogar sapato em alguém, um só ou o par completo, no Iraque e em grande parte do mundo árabe, é uma das maiores ofensas que se pode fazer contra qualquer pessoa. No caso, contra este indivíduo mesquinho e torpe, que, entre outros muitos deméritos, entra para a História como um dos políticos mais obscuros, mais incapazes e mais desprezíveis. E que agora sai de cena pela porta do fundo, humilhado, apedrejado e enxotado.
Fico cá pensando o que poderia ter acontecido de melhor para a humanidade nesses últimos anos de mandato duplo se George W tivesse governado os EUA com a mesma habilidade e destreza com que se esquivou dos sapatos, naquele jogo de cintura que o vídeo implacável registrou para a posteridade. Com certeza sua napoleônica postura imperialista não seria tão ostensiva e predadora, e por consequência resultaria menos maléfica e menos provocativa - o 11 de setembro, existiria com um Bush menos fundamentalista ?
Seu coquetel de política e religião, de resto sempre causador de ressacas incuráveis, com certeza não teria provocado as crises de megalomania divina, de caudilhismo ecumênico com as consequências que todo mundo conhece. Aqueles seus soldadinhos torturadores em Abu Graib ou Guantânamo, ou outros criminosos em cárceres clandestinos, quem sabe não teriam cometido as atrocidades que se conhece. Se menos paladino bíblico de uma Terra cem por cento ianque, ele certamente não teria, afinal, incentivado, sugerido, manipulado e acobertado os muitos equívocos financeiros tramados no quintal chique da Casa Branca e volatilizados via Wall Street, e que culminaram com o estrangulamento financeiro que desarranjou a economia planetária, provocando esta recente rebordosa cuja magnitude ainda se desconhece totalmente.
''Equilibrado e tranquilo'', assim outro jornalista de Bagdá definiu o comportamento de Muntazer al Ziadi no dia a dia. ''É alguém que rechaça a ocupação americana como qualquer iraquiano digno'', completou. Aí está uma justa referência histórica para quem, por um momento, descalçou os sapatos de boa parte da humanidade e os arremessou contra o símbolo de um poder que jamais encontrou a legitimidade internacional.

CARLOS EDUARDO LOURENÇO JORGE é jornalista e crítico de cinema

mockup